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O adeus a Horst Eckel, o coadjuvante de ouro do Milagre de Berna e último guardião da final da Copa de 1954

Falecido aos 89 anos, Horst Eckel foi a peça fundamental para neutralizar o sistema da Hungria, mas também se notabilizou pelo lado humano além da decisão

Com o passar dos anos, o número de testemunhas do Milagre de Berna diminui. E o último membro da vitória mais simbólica da história da Alemanha Ocidental se despediu nesta sexta-feira: a Mannschaft deu seu adeus a Horst Eckel. O meio-campista acumulou títulos com o Kaiserslautern e disputou duas Copas do Mundo, com o gosto de levar a taça em 1954. Mesmo com a árdua missão de marcar Nándor Hidegkuti, o jogador taticamente mais importante daquela lendária Hungria, o volante brilhou no jogo e contribuiu para a vitória dos alemães-ocidentais por 3 a 2. Eckel era o único dos 22 titulares da decisão ainda vivo e faleceu aos 89 anos, depois de uma longa trajetória em que se preocupou menos com o status de “herói” e a valorizou mais pela forma como se dedicou a projetos sociais – tornando-se inclusive professor, anos após se sagrar campeão do mundo. Foi um exemplo de humildade e de honra, sem pedir mais destaque do que a história já garantia.

Nascido em 1932, Eckel cresceu em Vogelbach, um vilarejo a 30 quilômetros de Kaiserslautern. O menino mirrado não era o primeiro a ser escolhido no campinho perto de casa, até por jogar com os amigos do irmão mais velho, mas compensava por sua velocidade e por nunca se cansar. Entretanto, no contexto da Segunda Guerra Mundial, mesmo bater uma bola colocava a vida de Eckel em risco. Os bombardeios eram constantes em sua região, em área estratégica para os avanços dos Aliados. Seu irmão mais velho, Hans, faleceria nos conflitos.

Ao final da guerra, Eckel tinha 13 anos. E um dos grandes incentivadores no início de sua carreira foi o pai, que atuava como árbitro em jogos locais. De início, o adolescente ainda jogava numa equipe do vilarejo, destacando-se contra adversários mais velhos e marcando muitos gols como centroavante. Isso até ser descoberto pelo Kaiserslautern, após marcar seis gols num torneio regional pelo pequeno Vogelbach. A chance de se juntar ao novo clube era um sonho para o rapaz, torcedor fanático dos Diabos Vermelhos. Eckel costumava pedalar os 30 quilômetros de seu distrito ao estádio para ver os jogos do time e, mesmo quando não tinha ingressos, se esgueirava por buracos na estrutura.

Bastou um treino com o Kaiserslautern para que Eckel acabasse admitido nos juniores. Não ficaria por lá mais do que alguns meses, até ser chamado para treinar com o elenco principal. Na mesma época, num futebol ainda semiprofissional na Alemanha Ocidental, ganharia também um emprego como mecânico numa fábrica local. Além do mais, gostava de usar o tempo livre para praticar outros esportes, como tênis de mesa e basquete, a fim de aprimorar suas habilidades.

Eckel fez sua estreia pelo Kaiserslautern em maio de 1950, aos 18 anos. O atacante não se saiu bem e pensou em voltar à base para seguir evoluindo. Porém, o novato acabou acolhido pelo mítico Fritz Walter, já naquela época o grande ídolo do clube (consequentemente, também do garoto) e nome frequente nas convocações da seleção. Num elenco muito forte dos Diabos Vermelhos, o jovem teria o ambiente ideal para desabrochar. E conquistou seu primeiro título em 1950/51, quando o Kaiserslautern se sagrou campeão alemão-ocidental. O atacante ainda era um nome esporádico nas escalações durante a fase de classificação, até ganhar a posição de ponta direita a pedido de Fritz Walter. Seria decisivo na fase final da competição, com seis gols para botar sua equipe na final e grande atuação na decisão em Berlim contra o Preussen Münster.

A partir de então, Eckel se tornou intocável no Kaiserslautern. E sua estreia na seleção da Alemanha Ocidental também não tardou a acontecer, com a primeira convocação feita pelo técnico Sepp Herberger em novembro de 1952. O rapaz de 20 anos participou de uma goleada por 5 a 1 sobre a Suíça e, pouco depois, contribuiu para a classificação da Mannschaft à Copa do Mundo. Na equipe nacional, entretanto, Eckel acabou recuado do ataque para o meio do campo.

Sepp Herberger viu no jovem um atleta em ótimas condições físicas para cumprir a função de médio volante, enquanto agregava por sua chegada ao ataque como um elemento surpresa. Era o chamado “Cachorro de Corrida”, pelo fôlego interminável. Também no Kaiserslautern Eckel passaria a atuar na faixa central, onde flutuava pelo lado direito e se aproximava de Fritz Walter na construção. A parceria se tornaria ainda mais íntima, com o capitão convidado para ser o padrinho de casamento do novato.

“Quando fui chamado para treinar com o time principal do Kaiserslautern, eu me vi lado a lado de Fritz Walter, um ídolo absoluto. Eu apenas tentei dar meu máximo a cada treino e Walter me ajudou tremendamente, primeiro no Kaiserslautern, depois na seleção”, contou Eckel, em entrevista ao site da DFB, concedida em 2012. “No campo, não precisávamos de palavras para nos entendermos e, fora dele, era praticamente uma relação de pai e filho da qual tenho muito orgulho até hoje. Ele tinha um dom, eu diria que foi um jogador incomparável, único, enquanto eu era o corredor corajoso”.

O Kaiserslautern voltou a conquistar o Campeonato Alemão-Ocidental em 1952/53, com Eckel estabelecido entre os protagonistas do time. E a força dos Diabos Vermelhos se reverteria na seleção, mesmo com a derrota impiedosa por 5 a 1 para o surpreendente Hannover 96, na decisão do campeonato nacional em 1953/54. Cinco jogadores alvirrubros seriam convocados para o Mundial da Suíça: Horst Eckel, Werner Kohlmeyer, Werner Liebrich, Ottmar Walter e o capitão Fritz Walter. Todos eles seriam titulares na reta decisiva da campanha. Eckel chegaria a se machucar na final da liga, mas se recuperaria a tempo para ser fundamental na Copa.

Dono da camisa 6, Eckel disputou todos os 540 minutos da Alemanha Ocidental na Copa do Mundo de 1954. Foi um dos dois únicos jogadores a atuar nas seis partidas da Mannschaft no Mundial, justamente ao lado de Fritz Walter. O jovem médio de 22 anos não evitou a goleada por 8 a 3 sofrida diante da Hungria durante a fase de grupos. Em compensação, seria vital ao crescimento da equipe na reta final da campanha. Até que a decisão no Estádio Wankdorf colocasse novamente os Mágicos Magiares no caminho dos germânicos – e com motivos a mais para se preocupar, já que Ferenc Puskás se recuperara de lesão após perder as duas partidas anteriores nos mata-matas.

“Chegamos na Suíça como ninguém, mas estávamos crescendo no entrosamento, na preparação física e nos bons passes. Se isso seria bom o suficiente contra times realmente fortes, como a Iugoslávia ou a Hungria, só o tempo diria. Verdade seja dita, tínhamos nossas sérias dúvidas… Mas então, de alguma forma, fomos ficando cada vez mais fortes e, quando amassamos os austríacos por 6 a 1 na semifinal, dissemos a nós mesmos que não haveria como ficarmos contentes com o vice. Essa foi a primeira vez que nós, jogadores, juramos lutar pelo título uns pelos outros. O fator decisivo é que confiávamos totalmente em Herberger e em cada jogador”, contaria Eckel, ao site da DFB.

O grande diferencial tático da Hungria de 1954 era Nándor Hidegkuti. O centroavante podia não ser aclamado como Ferenc Puskás ou Sándor Kocsis, mas também possuía enorme qualidade técnica e uma inteligência acima do comum em sua leitura tática. O atacante do MTK Hungria (então chamado de Vörös Lobogó) era o responsável por revolucionar a função no centro do quinteto ofensivo, tornando-se um precursor do “falso 9”. Hidegkuti recuava para buscar a bola no meio e armar o time, enquanto também chegava de trás para criar superioridade numérica e finalizar. A intenção de Sepp Herberger era neutralizar esse mecanismo fundamental dos Mágicos Magiares. Para isso, pediu que Eckel fizesse uma marcação individual no centroavante adversário – quando o comum seria cuidar de Puskás. O treinador confiava na enorme capacidade física e também na qualidade acima da média do camisa 6 alemão-ocidental para quebrar o sistema húngaro.

Eckel exaltaria essa capacidade de Herberger: “O ponto forte de Herberger era a preparação. Ele sabia tudo o que havia para saber sobre nossos adversários. E conhecia o futebol de ponta a ponta. Embora eu não o chamasse de disciplinador, sabíamos que era melhor seguir suas ordens. Ele tinha um ótimo relacionamento com seus jogadores, sabia exatamente como conseguir a resposta ideal de cada um. Mesmo em 1954, nós éramos capazes de atuar em várias formações táticas e mudar de uma para outra no meio do jogo. Herberger era o único treinador do mundo a realmente entender o sistema dos húngaros e a vislumbrar como vencê-los”.

Horst Eckel cumpriria muitíssimo bem sua missão contra Hidegkuti. Como bem definiu a revista 11 Freund, “merecia o prêmio de melhor ator coadjuvante”. O atacante ainda incomodou um bocado, acertando bola na trave e forçando grande defesa de Toni Turek. Porém, não conseguiria dar a fluidez que sua função pretendia para a Hungria e não geraria tantos problemas sobre a linha de zaga alemã, que pôde se concentrar em Puskás e Kocsis. Um marcador incansável vestindo a camisa 6, afinal, o acompanhava sempre no campo enlameado do Estádio Wankdorf. Em certos momentos, Eckel também ajudou a limitar o jogo de Puskás e faria desarmes importantes. Sua segurança auxiliou bastante a Alemanha Ocidental, sobretudo no segundo tempo, mesmo após de sofrer um ferimento na coxa durante a primeira etapa. De longe, viu o apoteótico gol de Helmut Rahn a seis minutos do fim. Em vez de uma derrota por 8 a 3, a Mannschaft comemorou a inesperada virada por 3 a 2, que concedeu o inédito título mundial ao país.

Aquela Alemanha Ocidental consagraria seu “quadrado mágico” no centro do campo. Horst Eckel e Karl Mai eram os responsáveis pela cabeça de área, enquanto Fritz Walter e Max Morlock recuavam um pouco mais do ataque para a armação. Um time muitas vezes lembrado pela superação, mas que também possuía ótimos recursos e um clima excepcional de camaradagem em seus bastidores. “Eu diria que o espírito de equipe desempenhou um papel decisivo, mas você não ganha troféus apenas com isso. Éramos 22 jogadores no elenco, com uma grande competição para jogar, todo mundo queria entrar”, comentaria Eckel, ao site da DFB. “Herberger me disse: ‘Quero que Hidegkuti sonhe contigo enquanto dorme’. E, anos depois, Hidegkuti veio até mim e confessou que isso realmente aconteceu!”.

E tão importante quanto o peso da conquista foi o significado daquele feito à Alemanha Ocidental, em meio à sua reconstrução após a Segunda Guerra Mundial. “Nós nem sabíamos o que o título significaria para nós. Ninguém realmente nos conhecia e não sabíamos o que estava acontecendo em casa, na Alemanha Ocidental. Só percebemos quando voltamos. Então, notamos que havíamos desempenhado um pequeno papel em ajudar a reconstruir o país. Ficamos orgulhosos por termos feito a nossa parte”, comentou Eckel, em entrevista ao site da Fifa em 2010. “Foi só quando voltamos para a Alemanha de trem e vimos a emoção no caminho e nas cidades, que compreendemos que éramos realmente campeões mundiais”.

Depois da Copa, Eckel precisaria dar uma pausa na carreira. Uma fratura sofrida em setembro de 1954 o afastou dos gramados por quase um ano. Ele ainda voltaria a tempo para disputar mais uma decisão do Campeonato Alemão em 1954/55, apesar da derrota por 4 a 3 para o Rot-Weiss Essen numa histórica virada. Os Diabos Vermelhos seguiram como uma força regional muito grande, mas sem necessariamente levar novos títulos nacionais. Nada que tenha atrapalhado a continuidade do meio-campista na Mannschaft, como titular durante boa parte do ciclo preparatório até a Copa do Mundo de 1958. Manteria sua posição no Mundial da Suécia.

Eckel se lesionou na estreia da Copa contra a Argentina, mas perdeu apenas o jogo contra a Tchecoslováquia e estava de volta para confirmar a classificação diante da Irlanda do Norte. Nas quartas de final, o médio de novo cumpriu grande papel ao marcar Todor Veselinovic, uma das estrelas da Iugoslávia. Só não evitaria a derrota na semifinal contra a Suécia, quando a linha ofensiva liderada por Nils Liedholm prevaleceu. O meio-campista também seria ausência na decisão do terceiro lugar contra a França, quando a Mannschaft sentiu falta de seu cão de guarda na derrota por 6 a 3 para o timaço dos Bleus. Depois disso, Eckel disputaria apenas mais um duelo pelo Nationalelf, em novembro de 1958. Ao todo, somou 32 partidas, sem marcar gols com a equipe nacional.

Eckel defendeu o Kaiserslautern até os 28 anos, despedindo-se do clube em 1960. Foram 213 jogos pelos Diabos Vermelhos pelo Campeonato Alemão, além de 64 gols – dez deles na fase final. Às vésperas da adoção do regime profissional no país, o meio-campista aceitou uma proposta do Röchling Völklingen um tanto quanto inusitada para os dias atuais: o campeão do mundo defenderia um time na terceira divisão, mas ganharia um emprego no setor de administração de uma fábrica para garantir um pouco mais de estabilidade. De início, o veterano ainda conciliou o posto de treinador e auxiliou na conquista do acesso. Passaria cinco anos com o clube, mas limitado às divisões inferiores, sem alcançar a recém-criada Bundesliga.

Horst Eckel pendurou as chuteiras em 1965, aos 33 anos. O meio-campista ainda trabalhou mais um tempo como treinador no Röchling Völklingen, mas não tanto. Em 1969, o camisa 6 da seleção ganhou uma partida de despedida. Na ocasião, os 11 titulares na final da Copa de 1954 se reuniram para disputar um amistoso em Braunschweig. Depois disso, a relação do ídolo com a Bundesliga se restringiria ao posto de torcedor fanático do Kaiserslautern, sem nunca perder um jogo nas arquibancadas do Estádio Fritz Walter – onde Eckel também nomeava um setor das tribunas e tinha sua estátua na entrada dos portões, ao lado dos outros quatro companheiros de clube que participaram do Milagre de Berna.

A maior dedicação de Eckel nos anos posteriores seria transmitir os ensinamentos que absorveu ao longo da vida para os mais jovens: ele se formou como professor de educação física e de artes. “Essa foi a parte mais importante da minha vida. Sou o primeiro a admitir que foi difícil fazer a graduação. Eu tinha quase 40 anos, jogava futebol semiprofissional e, de repente, estava de volta a uma sala de aula com outros alunos que tinham metade da minha idade. Eu não teria conseguido sem a ajuda da minha esposa”, confessaria, à DFB. Eckel continuou ganhando a vida por 20 anos como professor do ensino médio. Sua ligação com o campo permanecia apenas pelas equipes amadoras que treinava, bem longe da elite do esporte. Ele também seguiria atuando numa equipe de masters e passou a praticar tênis.

Por fim, mesmo aposentado da carreira como professor, Eckel realizava trabalhos voluntários. Seu principal foco estava em instituições para a reabilitação de menores de idade que cometeram crimes. Para o camisa 6 de 1954, o futebol era a chave para a ressocialização desses jovens. Assim, continuava ensinando. Atuou inclusive nas fundações que levavam os nomes de Fritz Walter e Sepp Herberger, seus antigos mentores no futebol. Já em 2017, ele mesmo criaria sua fundação, voltada a práticas esportivas e projetos educacionais para idosos.

Nos últimos anos, Horst Eckel foi homenageado diversas vezes. Ganhou condecorações do governo, foi eleito capitão honorário do Kaiserslautern, recebeu prêmios por sua obra de vida além dos gramados. Falar sobre a final de 1954 era um assunto recorrente e sempre um prazer ao professor, com suas doses de humildade e humanidade frequentemente elogiadas por quem o conhecia. Escreveu sua própria biografia e virou consultor do filme sobre aquela decisão no Wankdorf. Isso sem largar as partidas comemorativas, atuando mesmo já com a idade bem avançada.

O último reconhecimento veio da DFB, que elegeu Horst Eckel para o Hall da Fama do Futebol Alemão na semana passada, ao lado de outras quatro lendas como Miroslav Klose e Udo Lattek. Infelizmente, a cerimônia comemorativa acontecerá apenas no próximo ano e não terá a presença do veterano. O respeito pelo camisa 6 poderá ser manifestado diante da esposa, das duas filhas e das duas netas. E a história do Milagre de Berna preservará o nome de Eckel para sempre, como um eterno guardião dessas memórias.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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