Alemanha

Numa escolha excelente e fácil de tomar, a Alemanha confirma Hansi Flick como sucessor de Löw na seleção

Depois da saída do Bayern, era questão de tempo que Flick assumisse a Mannschaft, o que foi confirmado nesta terça

A seleção alemã anunciou seu novo treinador nesta terça-feira e, para surpresa de ninguém, Hansi Flick será o próximo comandante do Nationalelf após a Eurocopa. A chegada do antigo técnico do Bayern de Munique era mais do que ensaiada. Assistente da equipe nacional de 2006 a 2014, seu nome passou a ser cotado assim que Joachim Löw anunciou a saída do cargo. E as rusgas na Baviera, no fim das contas, só pareceram aproximar o favorito ao posto da Mannschaft. Ainda que alguns clubes especulassem sua contratação, Flick parece mesmo o melhor à disposição para a passagem de bastão na Alemanha.

Flick assume a seleção com a reputação lá no alto. O técnico ficou menos de dois anos à frente do Bayern, mas o período foi transformador tanto para o clube quanto para sua carreira. A renovação de ares era clara, sobretudo quando se compara ao que não dava certo sob as ordens de Niko Kovac. Flick apaziguou o ambiente, muito hábil no trato com os próprios jogadores que eram seus conhecidos desde os tempos como assistente da seleção, e também apresentou conhecimento tático para modernizar a equipe. A versão final do Bayern de 2019/20 é uma das melhores que o futebol europeu já viu e, não à toa, levou todos os títulos possíveis.

A temporada atual não seria tão vitoriosa ao Bayern e a Flick, mas é difícil botar na conta do técnico a Champions que escapou. Os bávaros não puderam fazer uma pré-temporada adequada e também enfrentaram muitas lesões, sobretudo nos jogos da Champions League contra o Paris Saint-Germain. O time se viu mais vulnerável na defesa e dependendo mais de individualidades, mas também havia um desgaste por todo o contexto. E o atrito, no fim das contas, era maior nos bastidores. Hansi Flick entrou em rota de colisão com o diretor Hasan Salihamidzic pela política de contratações e, mesmo tendo razão, perdeu a queda de braço. Saiu deixando claro que não estava contente, mas ainda muito querido por jogadores e torcedores.

Na seleção, Flick vai encontrar um ambiente bastante favorável. Sua personalidade forte, de que não esconde os problemas, não tende a ser um entrave pelo menos de início. O treinador conhece Oliver Bierhoff, diretor da Mannschaft, e foi escolhido exatamente pela boa relação. Além disso, Flick possui um trato próximo com vários dos jogadores, especialmente pela relação construída no Bayern. Vai ser mais fácil estabelecer diálogo e conduzir o processo de renovação da equipe, considerando a forma como o técnico geriu bem os vestiários cheio de medalhões na Baviera.

“Ele estava no topo da minha lista desde o início. Conheço e aprecio as qualidades humanas e profissionais de Hansi Flick, desde seus anos bem sucedidos com a seleção. Concordamos rapidamente sobre a cooperação e seus objetivos. Como principal chefe esportivo da federação, Hansi será responsável pela gestão da seleção principal em meio a vários outros projetos e iniciativas, que incluem também uma linha de trabalho com as seleções menores, com a preparação de treinadores e com as categorias de base”, afirmou Bierhoff.

Flick e Löw no Maracanã (Foto: Imago / One Football)

À beira do campo, além do mais, Flick deixou bem claro seus predicados. Ele já teve um papel importante na seleção rumo à Copa de 2014, ao ser um dos grandes responsáveis pelo acerto tático do time. Sua visão como um treinador moderno e, por vezes, até ofensivo demais parece um acréscimo e tanto para o que se nota com Joachim Löw. O Nationalelf terá um dos melhores treinadores de clube dos últimos tempos à frente da seleção principal, o que não é um movimento muito comum nos últimos anos. A tranquilidade e as perspectivas, todavia, explicam a decisão de Flick quando tinha mercado para clubes graúdos.

“Minha ansiedade é grande, porque vejo a classe de jogadores, especialmente os mais jovens na Alemanha. Temos razões para nos sentirmos otimistas para os próximos torneios, como a Euro 2024. Também sei que tenho em Bierhoff um parceiro confiável ao meu lado e especialistas na comissão técnica que podem iniciar o trabalho o quanto antes. Espero contribuir com minhas ideias além da seleção, mas também à base e a outras seleções”, declarou o novo técnico. A menção a Bierhoff não é por acaso, considerando as atuais instabilidades na DFB, que viu seu presidente demitido ao fazer alusões a nazistas numa conversa. Flick, de certa forma, apazigua também o clima neste sentido, quando os bastidores da federação traziam turbulências desnecessárias.

Aos 56 anos, Hansi Flick já passou do meio do caminho no que se refere à duração da carreira de um treinador. Assumir uma bomba como o Barcelona parecia suficiente para queimar o nome que construiu no Bayern. Além disso, considerando a longevidade dos treinadores da seleção alemã, este não é um convite tão frequente assim. Flick trabalhou como assistente por oito anos e como diretor esportivo por mais três, está mais do que acostumado com os corredores na federação e com as atribuições que terá. Não à toa, por sua experiência, deve se fazer presente em projetos mais amplos da federação para reorganização do futebol local. Parece a alternativa perfeita para um novo ciclo de estabilidade na Mannschaft.

Por linhas tortas, Flick confirma um processo natural na escolha de treinadores da Alemanha: se poucos foram os comandantes, parte deles ainda cumpriu um período como assistente até chegar ao cargo principal. Sepp Herberger, campeão mundial em 1954, assumiu a equipe após quatro anos como assistente de Otto Nerz até 1936. Helmut Schön, seu sucessor em 1964 e campeão do mundo em 1974, foi assistente por nove anos. Jupp Derwall também foi o braço direito de Schön, até assumir em 1978 e levar a Euro de 1980, demitido em 1984. Hennes Weisweller, Udo Lattek e Dettmar Cramer foram outros assistentes no período que, se não tiveram vez no Nationalelf, viraram lendários técnicos de clubes – somando seis títulos continentais e 12 da Bundesliga entre si.

A partir dos anos 1980, Franz Beckenbauer assumiu e as apostas mais frequentes eram em antigos astros da Mannschaft – incluindo ainda Berti Vogts, Rudi Völler e Jürgen Klinsmann. Erich Ribbeck foi a exceção em seu curto período à frente da equipe, de 1998 a 2000, ao assumir anos depois de ter sido assistente de Derwall. Já a escolha de Löw foi pautada pelo antigo princípio, ao trabalhar como assistente de Klinsi na Copa de 2006. E a história volta a se repetir, mesmo que Flick tenha se respaldado mais à sucessão quando o comando do Bayern caiu em seu colo. Não fosse isso, talvez seu apontamento acabasse mais criticado pelo público, por falta de conhecimento sobre seu passado. Agora, pelo contrário, ele chega como uma face forte para impulsionar o novo ciclo da Alemanha.

Bierhoff já tinha afirmado que desejava acertar a chegada do novo treinador antes da Eurocopa, para que o assunto não atrapalhasse a seleção. Com Hansi Flick à disposição, o negócio ficou mais fácil. As expectativas sobre o time de Joachim Löw para o torneio continental são relativamente baixas, considerando os maus resultados recentes, e a escolha do sucessor pode mesmo evitar uma pressão desnecessária. No fim, mesmo que o time não renda na Euro (levando em conta a desgastada imagem de Löw nos últimos cinco anos), parece haver um futuro seguro e boas chances de evolução a partir do anúncio de Flick. Apesar da pouca experiência no cargo principal, chega como um dos melhores técnicos de clubes nos últimos anos, com mercado para dirigir um Barcelona ou um Real Madrid. É um trunfo raro atualmente, especialmente quando ele preferiu a seleção.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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