Alemanha

Não havia ninguém melhor que Ancelotti para dar sequência à hegemonia do Bayern de Munique

Houve uma época em que Carlo Ancelotti era considerado um técnico retranqueiro, de poucos recursos, “italiano”. Nem o Chelsea que marcou 103 gols na Premier League sob os seus cuidados foi suficiente para mudar essa impressão. Ele precisou conquistar la décima com o Real Madrid antes de ser plenamente respeitado. Mas hoje é considerado sem ressalvas um dos melhores técnicos do mundo. Tanto que foi escolhido para substituir Pep Guardiola no comando do Bayern de Munique.

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O clube alemão anunciou, na manhã deste domingo, que o contrato de Guardiola não será renovado, dando fim ao ciclo de três anos do espanhol na Allianz Arena. O substituto foi imediatamente anunciado. “Estou honrado por ser o treinador do grande Bayern de Munique na próxima temporada”, disse Ancelotti. “Quando eu fiquei sabendo do interesse desse clube, não quis considerar nenhuma outra proposta”.

Interesse não foi o que faltou durante o ano sabático que Ancelotti decidiu tirar depois de sua muito estranha demissão do Real Madrid. O Milan foi o primeiro a tentar trazê-lo de volta, assim que descobriu que o seu ex-treinador estava livre, mas não conseguiu. “Foi difícil dizer não para um clube tão amado por mim, mas preciso descansar”, disse. Ele foi ligado ao cargo do Liverpool, quando Brendan Rodgers foi demitido, e chegou a dizer que gostaria de trabalhar na Roma um dia, dando gás também para essa especulação.

Mas quem acabou garantindo seus serviços foi mesmo o Bayern de Munique, que precisava de um técnico à altura do que estava saindo para dar sequência ao domínio do Campeonato Alemão (atual tricampeão) e à disputa frequente da Champions League – semifinal nas últimas quatro temporadas, duas finais, um título. A escolha não poderia ter sido melhor. Ancelotti tem títulos nacionais na Itália, na França e na Inglaterra. Conquistou a Europa três vezes, pelo Milan e pelo Real Madrid. É um técnico vitorioso e atualizado taticamente.

No entanto, não terá a virtuosidade tática de Guardiola, cada jogo com um esquema diferente, usando os mesmos jogadores em diferentes funções. Ancelotti é mais convencional, como todos os treinadores do mundo são, aliás, em comparação com o espanhol. O seu Real Madrid campeão europeu tinha Di María de um lado, Bale do outro, Xabi Alonso e Modric de meias centrais, e Cristiano Ronaldo, um pouco mais pela esquerda, ao lado de Benzema no ataque.

Era um time bem compacto quando tinha que se defender, quando enfrentou, por exemplo, o Bayern do seu futuro antecessor nas semifinais daquela Champions League e venceu por 5 a 0 no placar agregado, sendo arrasador nos contra-ataques. Tem variações na manga e chegou a usar também o 4-2-3-1 e o 4-3-3. Na decisão contra o Atlético de Madrid, suas substituições deram mais substância à pressão do Real. Isco entrou no lugar de Khedira para arquitetar o ataque desde a intermediária e Marcelo reforçou o apoio na lateral esquerda. Deu certo.

A maior qualidade de Ancelotti é a gestão de grupos, principalmente estrelas e gigantescos egos, que existem em todos os clubes de alcance mundial. O vestiário do Bayern de Munique não apresenta um desafio tão grande quanto o do Real Madrid ou, por exemplo, do Chelsea, outro clube em que ele foi cogitado nessa última semana, quando José Mourinho começou a balançar até finalmente cair, na quinta-feira. Em questão de bastidores, os bávaros têm mais problemas na direção e com ex-jogadores que palpitam demais.

Nada absurdo, nada que costume atrapalhar o trabalho do treinador nos últimos anos, nada com que a experiência de Ancelotti, adaptável como um camaleão, não possa lidar. O italiano também terá a missão de comandar uma considerável renovação no elenco do Bayern de Munique. Muitos jogadores chegarão ao fim de seus contratos no meio de 2017, quando a primeira temporada do novo técnico estará terminando. Entre eles, peças essenciais como Arjen Robben e Franck Ribéry, muito afetados por lesões nos últimos meses, Xabi Alonso, já com 34 anos, e Mario Gotze.

A decisão será de Ancelotti, em conjunto com a direção. De qualquer forma, mesmo que seja necessário reformular o elenco, ele já provou que monta times vencedores com muita naturalidade. Fez isso no Milan, no Paris Saint-Germain, no Chelsea e no Real Madrid. E graças a esse ótimo retrospecto, terá a chance de fazer o mesmo no Bayern de Munique, e muito provavelmente aumentar a sua coleção de troféus.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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