Müller, o segundo redentor

Alemanha e Inglaterra disputam um confronto eliminatório de Copa do Mundo e todos relembram o gol ilegal marcado por Geoff Hurst na Copa do Mundo de 1966. O confronto, equilibrado, é decidido por um atacante eficiente do Bayern de Munique, O cenário acima pode descrever um pouco do duelo deste domingo, mas também remete às quartas de final da Copa do Mundo de 1970, quando os alemães venceram por 3 a 2 na prorrogação. Nas duas ocasiões, a vitória alemã colocou o sobrenome Müller em evidência para todo o mundo do futebol.
O primeiro deles, cronologicamente falando, foi Gerd, que marcou o gol da vitória há 40 anos. Centroavante com tendência ao sobrepeso e vocação aguçada para o gol, foi sete vezes artilheiro da Bundesliga, goleador daquele Mundial e de duas Copas dos Campeões, além de ter conquistado a Ballon D´or de 1970, três Copas dos Campeões com os bávaros. Ele também marcou o gol do título da Copa do Mundo de 1974 e se aposentou como maior goleador da história do Nationalelf com média superior a um gol por partida: 68 gols em 62 jogos.
O jovem Thomas, de apenas 20 anos, possui características bem diferentes de seu “homônimo”: rápido e objetivo, costuma atuar aberto pelos lados do campo pela seleção – no Bayern, ele joga na faixa central em função da presença de Ribéry e Robben -. Contra os ingleses, ele arrebentou: deu um belo passe para Podolski marcar o segundo gol e fez os dois seguintes, aproveitando assistências de Schweinsteiger e Özil, respectivamente. O site Kicker.de foi categórico ao escrever, na manchete sobre o jogo: “Müller nocauteia a Inglaterra”.
Os dois se conhecem pessoalmente há algum tempo. Gerd é auxiliar-técnico de Mehmet Scholl do Bayern de Munique 2, onde Thomas atuou entre 2007 e 2009, antes de ser surpreendentemente pinçado por Louis van Gaal para os profissionais e colocar, junto com Ivica Olic, os badalados Klose e Mario Gómez na reserva. E, detentor de recordes como é, deve ter ficado contente ao ver o ex-pupilo se tornar o jogador mais jovem, desde Pelé, a marcar mais de um gol num jogo eliminatório de Copa do Mundo.
De certa forma, os dois são redentores de 1966. Gerd, por ter sido o herói da primeira revanche alemã. Thomas, por ter comandado a primeira vitória dos germânicos sobre os ingleses no tempo normal na história das Copas do Mundo, ampliando o placar e sacramentando a goleada. Os dois gols dele diminuíram um pouco a polêmica criada em torno do gol legal de Lampard que não foi validado pelo árbitro Jorge Larrionda, que já é chamado no país de “Anti-Wembley-Tor”.
É óbvio que, se fosse confirmado, o gol mudaria a postura das equipes em campo, pois, com o jogo empatado por 2 a 2, os ingleses não teriam a obrigação de se expor tanto ao ataque no início da segunda etapa. Mas, baseado na produção dos times na partida e no retrospecto anterior deles nesse Mundial, é possível concluir que o resultado foi justo e premiou uma das melhores seleções do torneio até aqui.
Vitória coletiva
Além de Müller, pode-se dizer que todo o time alemão esteve bem na partida, a começar por Klose, que abriu o placar após um chutão de Neuer e agora já soma 12 tentos em Mundiais. Podolski, que esteve discreto contra Gana, também deixou o seu e incomodou bastante pelo lado esquerdo, assim como Özil, que criou a jogada do quarto gol, mas continua sumindo do jogo em determinados momentos.
Quem também gastou a bola foi Bastian Schweinsteiger, que se consolida cada vez mais como líder técnico do meio-campo e, como primeiro volante, parece ter encontrado sua posição ideal. Além de marcar bem, ele puxa contra ataques e é o principal organizador do setor. O suporte de Khedira, que também teve uma atuação segura, também foi fundamental, e fica cada vez mais claro que a sintonia entre eles é essencial para o equilíbrio do time.
A dupla de zaga, formada por Mertesacker e Friedrich, parece ser o ponto fraco da equipe, e Jerome Boateng está longe de empolgar como lateral esquerdo. Contra uma seleção rápida e não muito alta como a Argentina, ele poderá ter problemas pelo setor, que tem como reservas os também grandalhões Badstuber e Jansen. Vale destacar também a atuação segura de Neuer, que justifica cada vez mais a confiança depositada por Löw em seu potencial.
Após o triunfo, elogios do chefe
Na entrevista pós-jogo, o técnico Joachin Löw era só elogios aos seus atletas, e não poderia ser diferente. Ele afirmou que vê muita coragem e convicção nos jogadores e que fazer o terceiro gol foi fundamental naquele momento da partida. Löw ressaltou também a frieza de Thomas Müller para definir as jogadas e o bom desempenho de Özil e Klose na partida.
O Kaiser Franz Beckembauer se mostrou ainda mais entusiasmado: “Simplesmente, fomos melhores em todos os aspectos. Em relação ao gol do Lampard, foi legal, mas creio que o assistente não conseguiu ver. Felizmente, fizemos mais dois gols e isso diminuiu a polêmica sobre o lance”. Campeão mundial com Beckembauer em 1974, Gunter Netzer, se mostrou contrário ao uso da tecnologia para esclarecer lances duvidosos. “O futebol não é perfeito.
Netzer também aproveitou para reverenciar, e depois alfinetar o nosso futebol. “Jogamos o futebol brasileiro hoje. Ou melhor, não jogamos, pois o Brasil não atua mais assim”. A lembrança sintetiza bem o sentimento de que os alemães estão finalmente conseguindo derrubar os clichês preguiçosos que juram que o país pratica um jogo “mecânico e robotizado”. Algo que, diga-se de passagem, nunca foi completamente verdadeiro.
O clima no grupo pode ser ilustrado pelas palavras de Mesut Özil: “Estou muito orgulhoso desse time. Fizemos um jogo maravilhoso e queremos ganhar de todo mundo agora. Nosso sonho é o título”, afirmou. O duelo nas quartas de final contra os argentinos será, certamente, mais complicado, pois os sul-americanos são, neste momento, mais fortes do que os ingleses e querem a revanche de 2006, quando os germânicos venceram as quartas de final nos pênaltis. Mais um teste de fogo para Müller e Özil mostrarem que já são adultos e seguirem firmes na luta para buscar a consagração definitiva.



