Alemanha

Kroos, sobre sua despedida da seleção: “Não é uma questão de idade, mas sim de sentimentos”

Toni Kroos falou sobre sua decisão de encerrar a passagem pela seleção da Alemanha após a Euro 2020

A eliminação da Alemanha na Euro 2020 encerrou também a trajetória de Toni Kroos na equipe nacional. Sem causar muito alarde, o meio-campista anunciou que não defenderá mais a Mannschaft. O jogador de 31 anos atuou pela seleção principal ao longo de 11 anos, a partir de março de 2010. Disputou três Copas do Mundo, três Eurocopas e viveu seu ápice no tetra mundial, especialmente pela exibição arrasadora nos 7 a 1 contra o Brasil. Apesar da importância ao longo desta década, porém, Kroos deixa transparecer certa mágoa. Não sentiu o apoio esperado dos torcedores ao longo de sua jornada com a equipe nacional.

“Não quero acusar a todos na Alemanha, porque há muitos torcedores que apreciaram meu futebol. Porém, em certos momentos, senti que alguns não gostaram do que fiz ao longo desses 11 anos na seleção. Na Espanha, isso é diferente. Todo mundo é grato desde minha primeira partida no Real Madrid”, comentou o meio-campista, em entrevista ao jornal Bild. “Foi especial representar meu país em todos esses 106 jogos. Embora eu saiba que na Alemanha, em particular, nós jogadores somos vistos de maneira mais crítica do que em outras nações”.

Kroos garante que não foi a saída de Joachim Löw que o motivou a anunciar seu adeus ou mesmo a campanha morna na Eurocopa. Segundo o meio-campista, a ideia passava por sua cabeça desde 2018, após a Copa do Mundo. Um dos seus filhos, assim como Löw, o convenceram a ficar. Todavia, a decisão estava tomada para a Euro 2020 e o veterano fez questão de entrar em contato com Hansi Flick assim que o novo comandante da Mannschaft foi confirmado.

“Já esclareci tudo com Hansi, porque quero que ele seja capaz de planejar a seleção sem mim. Já estávamos em contato antes da Euro e ele disse que gostaria de trabalhar comigo. Quem me conhece sabe que nunca tomo as decisões baseadas em emoções. Sempre fiz isso bem na minha carreira. Considero a aposentadoria há tempos, a decisão foi tomada antes do torneio, independentemente do resultado”, comentou Kroos.

“Já tinha pensado isso em 2018. Naquela época, meu filho Leon queria que eu continuasse e Jogi Löw me convenceu. O treinador me ligou mais de uma vez. Eu não tinha as ideias tão claras naquela época. A diferença é que agora sou três anos mais velho, tenho 31. Para mim, a decisão também não é uma questão de idade, mas sim de sentimento. E hoje parece o certo a se fazer. O futebol de seleções te consome, com muitas viagens e ausências ao longo do ano. Quero estar mais com minha família. Além disso, gostaria de jogar no nível mais alto com o Real Madrid por mais alguns anos”, complementou.

Segundo o jornal Bild, Ilkay Gündogan é outro jogador que considera sua despedida da seleção da Alemanha. O meio-campista deseja conversar com Hansi Flick para saber os planos do treinador. Enquanto isso, Thomas Müller e Mats Hummels tendem a ficar, depois do retorno promovido nesta Euro 2020. Ambos possuem boa relação com o antigo assistente de Joachim Löw e acreditam que podem continuar rendendo na Mannschaft por mais um tempo, em busca da Copa de 2022.

Kroos não se saiu mal na Euro 2020, mas acabou se tornando o retrato do futebol burocrático apresentado pela Alemanha. O meio-campista contribuiu para uma equipe que dominou a posse de bola, mas não foi agressiva quando precisava e pecou em criatividade. Não à toa, o jogador do Real Madrid acabou criticado publicamente no país. Lothar Matthäus, em especial, manifestou sua desaprovação pela falta de verticalidade da Mannschaft – e de Kroos nesse processo. O volante foi muitas vezes comparado a Joshua Kimmich, deslocado à ala direita, mas que geralmente auxilia mais o Bayern de Munique a acelerar seu jogo na cabeça de área.

Certo é que, apesar da frustração, Kroos se despede da Alemanha como um personagem histórico. O meio-campista era apenas um coadjuvante na Copa de 2010 e na Euro 2012, majoritariamente usado no segundo tempo dos jogos, mas saiu do Mundial de 2014 como um dos melhores do torneio. Formou um meio-campo excepcional ao lado de Sami Khedira, ganhando liberdade para pressionar, enquanto Bastian Schweinsteiger organizava o jogo mais atrás. Sua atuação contra o Brasil está na história, mas Kroos também faria ótimas exibições em especial contra Portugal e França.

Até pelo papel que teve no tetracampeonato mundial, Kroos aumentou seu protagonismo na seleção. Entretanto, não conseguiria representar a liderança que muitos esperavam, para que os sucessos se sustentassem. Seria um dos melhores da equipe na Euro 2016, mas sem passar das semifinais, numa campanha que não empolgou. Já na Copa de 2018, seu golaço de falta contra a Suécia foi a única lembrança feliz de um desempenho vexatório do Nationalelf. Por fim, a Euro 2020 não será também um torneio a deixar saudades entre os alemães. Por sua história no Real Madrid, Kroos deixa uma impressão de que poderia ter representado mais à equipe nacional nos últimos sete anos. Porém, ele não era exatamente o jogador para carregar o time. E isso não apaga, de qualquer maneira, a marca deixada em 2014. É o que prevalecerá, quando as decepções ficarem no passado.

Antes da entrevista ao Bild, Kroos escreveu uma carta para anunciar seu adeus da seleção: “Joguei pela Alemanha 106 vezes. Não haverá outra vez. Desejei muito, e dei meu máximo de novo, para que acontecessem 109 partidas e que esse grande título, a Eurocopa, pudesse ter sido adicionado no fim. Tomei a decisão de me aposentar da seleção depois desse torneio faz tempo. Estava claro para mim que não estaria disponível para a Copa de 2022. Principalmente porque quero me concentrar totalmente nos meus objetivos com o Real Madrid durante os próximos anos. Além disso, a partir de agora vou me permitir ter pausas, que não existiram enquanto estive com a seleção. Como marido e pai, gostaria de estar ao lado de minha esposa e meus três filhos”.

“Foi uma grande honra para mim poder vestir essa camisa por tanto tempo. Fiz isso com orgulho e paixão. Obrigado a todos os torcedores e fãs que me apoiaram e me aplaudiram. Obrigado a todos os críticos pela motivação extra. No fim, gostaria de agradecer muito a Jogi Löw. Ele me tornou um jogador de seleção e um campeão do mundo. Ele confiou em mim. Por muito tempo escrevemos uma história de sucesso. Foi uma honra para mim, cumprindo meu papel. Boa sorte e sucesso para Hansi Flick”, finalizou. Uma história de altos e baixos, mas que teve um ápice fantástico e assim se eterniza.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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