AlemanhaBundesliga

Kaiserslautern inicia seu processo de insolvência e vê, mais do que a crise, um novo começo

O Kaiserslautern tem seu lugar na história do Campeonato Alemão. Os Diabos Vermelhos conquistaram quatro títulos nacionais, os mais recentes nos anos 1990. A equipe foi base da seleção alemã-ocidental campeã do mundo em 1954 e possui no currículo a proeza de emendar a conquista da segundona com a da primeira divisão, em 1998. Os tempos imponentes dos alvirrubros, porém, são parte de um passado relativamente distante. E se o presente não anda nada bom no Estádio Fritz Walter, o futuro busca novos horizontes. Sofrendo com as dificuldades financeiras nos últimos anos, o Kaiserslautern anunciou nesta segunda que iniciou um processo de insolvência.

O Kaiserslautern vive uma bola de neve, entre maus resultados esportivos e aumento das dívidas. Em 2018, os Diabos Vermelhos sofreram o inédito rebaixamento à terceira divisão do Campeonato Alemão e, desde então, penam para conquistar o acesso. O Estádio Fritz Walter, reformado para a Copa de 2006, se tornou um peso no orçamento por sua estrutura maior do que o poder de atração dos alvirrubros e a taxa de ocupação cai. As dívidas atuais, na casa dos €20 milhões, já se tornaram suficientes para iniciar a insolvência.

Mesmo assim, o processo de insolvência é visto pela atual diretoria do Kaiserslautern como uma oportunidade de recomeço. “O objetivo do processo é restaurar rapidamente o desempenho econômico. Com esta opção para uma reestruturação econômica de médio e longo prazo, podemos expandir visivelmente nosso escopo de ação e manter nossas cotas livres para operações de jogos”, declarou o diretor Soren Oliver Voigt. Nos próximos três meses, haverá uma etapa preliminar da falência, com novas negociações com os credores. Se chegarem a um denominador comum, o pedido de insolvência poderá ser retirado. Assim, o processo iniciado nesta segunda-feira concede uma sobrevida aos alvirrubros, que não viam perspectivas de se sustentarem no atual cenário.

O Kaiserslautern vislumbrava novos acordos comerciais, mas a crise em consequência da pandemia afastou os interessados. Da mesma maneira, os alvirrubros permaneceram os últimos três meses parados e a volta da terceirona acontece com portões fechados – uma de suas principais fontes de receita. Os principais credores dos Diabos Vermelhos estariam dispostos a adiar o pagamento dos empréstimos por um ano, mas a diretoria avaliou que este tempo apenas retardaria uma inescapável insolvência e resolveu dar este passo desde já, se apoiando nos benefícios da medida.

O Kaiserslautern deve sofrer um severo déficit nesta temporada, com a queda das receitas. As estimativas falam em prejuízo de €5 milhões no ano. E isso sem saber quando poderão realmente ser retomados os ganhos com bilheterias ou quando chegarão novos patrocinadores. Com a insolvência, os contratos serão mantidos e o clube entrará em um programa de apoio para bancar seus salários, enquanto cria um plano para sustentar a empresa e pagar os credores. Também há isenção de impostos. Neste momento, o interesse da diretoria é mesmo ganhar um novo gás.

“Recebemos um claro prognóstico positivo de nosso auditor em 31 de dezembro. Também tínhamos declarações finais sobre a redução do déficit financeiro em €11 milhões. Mas isso foi antes do coronavírus…”, declarou Voigt. “A insolvência é uma maneira de abrir novos caminhos. Teremos outras chances de abordar investidores interessados. Não queremos investir no passado, mas no futuro. A esperança de atingirmos a equidade não é infundada. O interesse do investidor no Kaiserslautern foi e é enorme”.

Dirk Eichelbaum é advogado especialista em insolvência e foi contratado pelo Kaiserslautern para conduzir o processo. Ele avaliou durante coletiva: “Temos que separar estritamente a causa e a razão do pedido de insolvência. A razão é a crise gerada pela pandemia, a causa é o gradual declínio ao longo dos anos e a falta de bonança no redesenho financeiro desejado. Acho que os pré-requisitos para a renovação sustentável são muito bons, mas de modo algum será um sucesso garantido. Mas o interesse no clube é enorme e o nome do Kaiserslautern permanece sem danos. O FCK representa o DNA do futebol alemão, foi parte integrante do Milagre de Berna e simboliza uma região inteira. A cidade de Kaiserslautern significa futebol como nenhuma outra”.

A insolvência não impactará diretamente na campanha do Kaiserslautern dentro da terceira divisão do Campeonato Alemão. Os alvirrubros ocupam o modesto 12° lugar, com 44 pontos, e estão sete pontos acima da zona de rebaixamento. Por conta da crise, a federação alemã suspendeu a punição de nove pontos aplicada aos clubes que iniciam sua falência. Caso não houvesse essa situação excepcional, o Kaiserslautern correria riscos seríssimos de descenso. No início da atual temporada, os Diabos Vermelhos já tiveram dificuldades para pagar sua licença à terceirona. O clube dependeu da ajuda do Bayern de Munique, que aceitou disputar um amistoso sem cobrar nada no Estádio Fritz Walter, para que o dinheiro ficasse com os anfitriões.

No final de outubro, o Kaiserslautern terá que apresentar à federação seu planejamento financeiro para 2020/21. Novos contratos de investimento precisarão ser assinados até esta data, provando a viabilidade necessária. Assim, o prazo é visto como um norte no atual processo de insolvência. Enquanto isso, o clube precisa pensar na reformulação de seu elenco e terá que lidar com esta montagem enquanto sustenta suas contas. Dentro desta perspectiva, a subida de produção dos Diabos Vermelhos dentro de campo ainda pode levar um tempo, mas por tabela também será essencial para impulsionar a reestruturação financeira que se inicia neste momento.

“A falência é um cenário de horror? Não para o Kaiserslautern. A situação tem muito mais a ver com um novo início regular. Isso só é possível graças aos enormes legados do passado. Após anos de má gestão financeira, do rebaixamento na Bundesliga em 2012 e da queda para a terceirona em 2018, o Kaiserslautern não conseguiu se levantar até agora. Desta vez, pelo menos, o básico pode ser criado para que isso mude”, analisa a revista Kicker.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo