Alemanha

O Japão de novo atormenta a Alemanha, numa surra por 4×1 que amplia a crise

A Alemanha fez uma partida vexatória em Wolfsburg, com uma coleção de erros, e o impiedoso Japão não perdoou para golear no amistoso

A derrota para o Japão é o marco do fracasso da Alemanha na Copa do Mundo de 2022. Com todos os méritos dos Samurais Azuis, o tropeço na estreia se provou bastante custoso e resultou na eliminação precoce do Nationalelf. Desde então, a crise se instaurou de vez na seleção alemã e não há qualquer sinal de reação. O time corre contra o tempo, às vésperas de sediar a Euro 2024, e o trabalho de Hansi Flick desaba. Em meio a uma sequência de resultados ruins nos amistosos, a Alemanha sofreu neste sábado seu maior vexame, de novo contra o Japão. Os germânicos pediram para ser goleados na Volkswagen Arena, com uma coleção de erros. E os japoneses, vorazes em seu jogo, aplicou uma surra inapelável por 4 a 1. As distâncias parecem ainda maiores menos de um ano depois do que aconteceu no Catar.

Este resultado coloca em xeque em definitivo a posição de Hansi Flick como técnico. O comandante chegou com um passado respeitável na própria seleção e uma sequência de conquistas pelo Bayern. Porém, se mostra cada vez mais perdido na casamata e sem qualquer tipo de controle. Neste sábado, suas decisões pioraram o time e muitos dos problemas foram causados por um caos tático que ele causou, sem remediar depois. Mas não que seja culpado sozinho, por uma Alemanha de incontáveis pixotadas e sem o mínimo de concentração. Pouquíssimos se safaram da hecatombe. Já o Japão se prova de novo como um time muito forte, sob as ordens de Hajime Moriyasu. Os Samurais Azuis não tiveram piedade e foram fatais a cada ataque. Mereceram o resultado.

A Alemanha entrou com várias modificações no 11 inicial. Marc-André ter Stegen se firma como goleiro titular. Antonio Rüdiger e Niklas Süle eram os zagueiros, com Joshua Kimmich e Nico Schlotterbeck deslocados na lateral. O capitão Ilkay Gündogan era acompanhado por Emre Can no meio. O tridente de ligação tinha Serge Gnabry, Leroy Sané e Florian Wirtz, com Kai Havertz na referência. Já o Japão mantinha sua base principal, com vários talentos em alta na Europa. Ko Itakura e Takehiro Tomiyasu eram os zagueiros. Hidemasa Morita e Wataru Endo ficavam como volantes. O quarteto ofensivo tinha Junya Ito, Daichi Kamada, Kaoru Mitoma e Ayase Ueda.

Primeiro tempo péssimo da Alemanha

A Alemanha começou a partida com posse de bola. Tinha volume de jogo e até buscou forçar os erros da defesa do Japão, mas sem que o domínio inicial rendesse grandes lances. E os Samurais Azuis precisaram de um avanço para abrir o placar, aos 12. Num erro de Süle, os nipônicos inverteram rapidamente o ataque, com Mitoma. Yukinari Sugawara recebeu na direita, fintou Schlotterbeck e fez o cruzamento rasteiro. Junya Ito se antecipou a Rüdiger e definiu de primeira na área, surpreendendo Ter Stegen. O cenário seguiu o mesmo, entre o volume alemão e os contragolpes japoneses. O empate do Nationalelf pelo menos não tardou, aos 19. Wirtz limpou muito bem o lance na entrada da área e entregou o presente para a definição de Sané na esquerda.

O problema da Alemanha era o lado esquerdo da defesa, que virou um mapa da mina para Sugawara e Junya Ito. O segundo gol dos Samurais Azuis também pintou logo, aos 22, numa linda trama na avenida alemã. Na troca de passes, Sugawara acionou Ito de novo e o atacante achou Ueda, que desviou para as redes. O Nationalelf tinha que remar tudo novamente. E desta vez a reação não seria tão rápida. O time não conseguia construir, dependendo da iniciativa individual de Sané e Wirtz. Faltava acertar o desfecho dos lances. Enquanto isso, o Japão continuava com espaços. Cada avanço dos nipônicos era um desespero. Ter Stegen ainda salvou o terceiro, numa grande defesa no mano a mano contra Ueda, após Schlotterbeck entregar o ouro mais uma vez.

O golpe de misericórdia do Japão

O intervalo deu um respiro à Alemanha, mas não provocou uma melhora. Os erros continuavam acontecendo aos montes. Primeiro, Ter Stegen quase deu o gol para Junya Ito, que não aproveitou. Depois, numa pane da zaga, Ter Stegen se antecipou para o corte parcial e Morita chutou pelo lado de fora da redes. Passados os temores iniciais, a Alemanha seguiu improdutiva. Era um segundo tempo até pior do Nationalelf, limitado a lampejos de Sané que não levavam a nada. Os Samurais Azuis eram bem mais seguros e também concretos em suas chegadas. Takuma Asano e Shogo Taniguchi entraram do lado nipônico aos 14, enquanto Hansi Flick tentou agitar seu time com Robin Gosens e Pascal Gross. Não adiantou muita coisa.

A Alemanha permanecia sem se encontrar e Ter Stegen ainda era mais exigido. O goleiro fez uma sequência de defesas aos 25, frustrando Asano e depois Mitoma na sobra. Thomas Müller e Julian Brandt entraram no Nationalelf, enquanto o Japão ganhou Ao Tanaka e Takefusa Kubo. Depois dos 30 minutos, a Alemanha ensaiou uma blitz e passou a ficar mais no campo de ataque para tentar o empate. Não tinha qualquer capacidade de criar lances, com o chuveirinho virando apenas uma inútil alternativa. E os japoneses continuavam à espeita. Limitavam-se à defesa, mas desenharam a goleada em meio aos frequentes descuidos.

O terceiro gol do Japão saiu aos 45 minutos. Gosens perdeu uma bola no meio-campo e Kubo avançou sozinho por todo o ataque. Invadiu a área e, diante de Ter Stegen, só rolou a bola para a conclusão de Asano. O algoz da última Copa do Mundo deixava sua marca também em Wolfsburg. A Alemanha desabou a partir de então, algo visível pela própria reação atônita de Hansi Flick sentado no banco. E os Samurais Azuis conseguiriam o quarto gol no minuto seguinte. Kubo de novo arrancou na avenida pela direita e cruzou para o solitário Tanaka cabecear no contrapé de Ter Stegen. A esta altura a desilusão estava estampada na cara dos alemães. Vaias soaram ao apito final, com toda razão.

A Alemanha ainda terá um compromisso mais duro na próxima terça-feira, quando enfrenta a França. Será o jogo crucial para Hansi Flick, que vê seu emprego cada vez mais ameaçado. Não surpreenderá se uma derrota provocar a saída do treinador. Já o Japão reafirma a competência de seu trabalho recente. Na sequência da Data Fifa, os Samurais Azuis farão outro amistoso, contra a Turquia.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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