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Gerd Müller: e se a lenda alemã tivesse trocado o Bayern pelo Barcelona?

Na última semana, Gerd Müller completou 70 anos. E homenageamos o craque alemão imaginando um negócio que quase aconteceu em 1973: sua venda ao Barcelona. O negócio nunca se concretizou, com interferência até mesmo do governo alemão, e os blaugranas acabaram buscando Cruyff. Mas, e se tivesse acontecido?

Em 1972, o futebol da Alemanha Ocidental era apontado como o futuro na Europa. A seleção sempre manteve a força, mas vinha em crescente desde o final da década de 1960, graças a uma geração de grandes talentos. Depois de cair em pé nas semifinais da Copa de 1970, o Nationalelf conquistou a Eurocopa de 1972 de maneira inapelável. E fez seus craques se tornarem motivo de cobiça no continente. Quase um ano depois, em maio de 1973, a Espanha derrubou a norma que impedia os clubes locais de contratarem estrangeiros. Desde meados da década de 1950, só eram permitidos no país os “oriundos” – atletas com alguma ascendência espanhola ou que adotassem a nacionalidade local.

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A abertura do mercado permitiu que os gigantes espanhóis voltassem a sonhar com seus antigos esquadrões, que não sustentaram a fama continental durante a década de 1960. O Real Madrid saiu atrás de sua nova “Flecha Loira”. Günter Netzer não era bem um tipo incansável como Di Stéfano, mas possuía enorme qualidade técnica para conduzir os merengues. Além disso, também trouxeram Óscar Más, ponteiro talentosíssimo do River Plate. O Barcelona respondeu à habilidade sul-americana com Hugo Sotil, atacante peruano que liderou sua seleção na grande campanha da Copa de 1970. Entretanto, o grande negócio na Catalunha ainda estava por vir.

Naquele momento, o Barça tinha dinheiro suficiente para quebrar o recorde de transferência mais cara da história. E o faria com um dos jogadores mais renomados do futebol mundial: Gerd Müller. O atacante alemão valia todo o investimento. Tinha sido artilheiro da Copa de 1970, da Euro de 1972 e da Champions de 1973. A partir de 1966/67, ocupou o topo da lista de goleadores da Bundesliga em cinco das últimas sete temporadas, faturando duas vezes a Chuteira de Ouro europeia. Também tinha uma Bola de Ouro na estante, conquistada em 1970. E viveu o seu ano mais espetacular em 1972, marcando 85 gols em meros 60 jogos. Marca assombrosa que nunca tinha sido registrada antes na Europa.

A negociação do Barcelona com Gerd Müller foi bastante delicada. Tudo porque os alemães temiam a perda de seu artilheiro às vésperas da Copa do Mundo de 1974, realizada no país. A pedido do técnico da seleção, Helmut Schön, o governo tentou intervir e manter o atacante no Bayern de Munique, mas nada o convenceu a mudar de ideia. Os blaugranas pagariam a impressionante quantia de 30 milhões de pesetas aos bávaros, valor inédito. Aos 27 anos, Der Bomber chegava sob a aura de ser o herdeiro de Kubala, o atacante forte e inteligente que liderou os catalães ao seu último título de La Liga. Desde 1959/60 que o clube não erguia a taça, estacionado em oito conquistas. Enquanto isso, o Real já tinha ido à 15ª, e o Atlético de Madrid encostava, com sete troféus.

A confirmação de Gerd Müller fez com que o Barcelona engavetasse o seu plano B: Johan Cruyff, o genial e genioso craque do Ajax tricampeão europeu. O técnico Rinus Michels até preferia o seu pupilo, mas pesou a vontade da diretoria. E quem se aproveitou nessa história foi o Atlético de Madrid, então campeão espanhol. Os rojiblancos também gastaram alto para contratar o dono da Bola de Ouro de 1971, que protagonizava uma promissora seleção holandesa às vésperas do Mundial. A chegada do camisa 14 mantinha os colchoneros entre os favoritos de La Liga para a temporada 1973/74, ao lado de Real Madrid e Barcelona.

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Gerd Müller precisou de pouco tempo para justificar o seu apelido de Der Bomber. As primeiras rodadas do Espanhol proporcionaram boas oportunidades para balançar as redes. Foram seis gols em cinco partidas, contra Elche, Racing Santander, Celta, Espanyol e Real Sociedad. Até encarar o seu primeiro clássico. O Real Madrid de Netzer, Del Bosque e Amancio não vinha bem, com apenas uma vitória até então. E o centroavante tratou de ser decisivo. Não balançou as redes, mas foi em um rebote seu que Carles Rexach marcou o tento da vitória por 1 a 0. A partir de então, ninguém mais alcançaria os blaugranas, exibindo um futebol bastante ofensivo com Rinus Michels.

O Barcelona comemorou demais o fim do jejum, após 14 anos de seca. Reconquistou La Liga com 12 pontos de vantagem sobre o Atlético de Madrid, enquanto o Real Madrid fez uma campanha decepcionante, sem passar da oitava colocação. Por um momento, o Atleti ameaçou os catalães, vencendo até mesmo no Camp Nou, mas perderam forças à medida que a Copa dos Campeões foi se afunilando. Ao menos se deram bem no cenário continental, conquistando a Champions pela primeira vez. Graças a um passe de Cruyff, Aragonés marcou o gol do título sobre o Bayern, na decisão em Heysel. Der Bomber fez falta aos bávaros.

Ao final da temporada 1973/74, Gerd Müller faturou a sua sexta artilharia em oito anos. Fez miséria no Espanhol, balançando as redes 36 vezes em 34 partidas. Era o vértice ofensivo de um time bastante dinâmico sob o comando de Rinus Michels. Sabendo das características do artilheiro, o treinador preferiu aproveitá-lo no sistema, fazendo com que o ataque girasse ao seu redor. Deu bastante certo. E, por mais que tenham tentado convencer o centroavante do contrário, os alemães não seriam loucos de afastar Gerd Müller da seleção. Ao lado de Netzer, o camisa 13 disputou a Copa de 1974. E anotou quatro gols fundamentais, incluindo um na decisão contra a Holanda. Por mais que Michels conhecesse seu comandado, nada pôde fazer diante do poder letal.

Gerd Müller voltava ao Camp Nou com a taça nas mãos, embora as premiações individuais tivessem ido ao Vicente Calderón, onde Cruyff brilhava. E a temporada 1974/75 começou com novas contratações na Espanha. A diretoria do Barcelona passou a admirar a filosofia de jogo alemã e, sob o aval de Michels, trouxe o veterano Wolfgang Overath para ditar o ritmo no meio de campo. O Real Madrid também via com bons olhos os campeões do mundo e contratou Paul Breitner. Já o Atlético de Madrid é que se tornava uma filial da Holanda. A pedido de Cruyff, seu companheiro Johan Neeskens era o reforço.

Os gols de Gerd Müller mantinham a disputa no Espanhol, embora o Real Madrid tivesse crescido muito a partir da chegada de Breitner. Não adiantou lutar até o fim. Os merengues voltaram ao topo de La Liga, três pontos à frente dos blaugranas, apesar dos 29 tentos do artilheiro alemão. Já na Champions, o sonho ruiu na decisão. Os blaugranas deram sorte no chaveamento, já que os dois principais concorrentes ficaram do outro lado da disputa. Passaram como tratores por Vöest Linz, Feyenoord e Atvidaberg, até as semifinais contra o Leeds. E por mais que os ingleses tivessem vencido a ida por 2 a 1, em Elland Road, Müller comandou o espetáculo no Camp Nou: 4 a 2, com quatro gols do craque.

Gerd Müller – O centroavante estourou cedo, mas ainda atravessava o seu auge aos 27. Quando completou a idade, já tinha vencido a Bola de Ouro, a Eurocopa e sido artilheiro da Copa. Entretanto, os seus 35 gols pela Champions e o tri do torneio só viriam depois. Naquele ano de 1972, estabeleceu o recorde de gols na Europa, quebrado por Messi em 2012.

Já na outra semifinal, o Bayern de Munique se vingou do Atlético de Madrid. Schwarzenbeck anulou Cruyff outra vez e quem decidiu foi Rummenigge, o jovem que despontava na Baviera como substituto de Gerd Müller. Bayern e Barcelona fizeram uma decisão histórica em Paris, no Parque dos Príncipes. Por mais que Beckenbauer e Sepp Maier soubessem o que fazer para brecar seu ex-companheiro, a lógica nem sempre funcionava com ele. Gerd Müller abriu dois gols de vantagem no placar logo no primeiro tempo, mas o Barça relaxou. Hoeness e Rummenigge buscaram o empate na volta do intervalo. E um trovão de Beckenbauer de fora da área definiu o primeiro título continental do Bayern, na prorrogação.

Ao Barcelona, restou se contentar com o título da Copa do Rei, que pelo menos valeu vaga na Recopa Europeia da temporada seguinte. Rinus Michels sofreu um pouco de pressão, mas ganhou o voto de confiança da diretoria, apesar dos boatos sobre a contratação do alemão Hennes Weisweiler, brilhando no comando do Borussia Mönchengladbach. Enquanto isso, os blaugranas deram a volta por cima sem precisar de nenhum reforço de peso. Ao lado de Real e Atleti, protagonizaram um dos melhores campeonatos espanhóis da história, disputado ponto a ponto. Müller viveria seu ano mais glorioso na Espanha em 1975/76.

O artilheiro já não teve o mesmo ímpeto na frente do gol, com 23 tentos ao longo da campanha. Mas guardou o talento para os momentos decisivos. Diante do Real Madrid no Bernabéu, saiu de campo aplaudido, ao definir a vitória por 1 a 0 aos 47 do segundo tempo, com um gol anotado quando estava deitado no chão enlameado. Já outra atuação marcante aconteceu no duelo direto com o Atlético, dentro do Camp Nou. Cruyff acabava com o jogo, mas Rexach tinha conseguido empatar no final do primeiro tempo. Até Der Bomber chamar a responsabilidade. Perseguido por Luís Pereira, recente reforço dos colchoneros, o matador precisou de uma bola. Escorou-se no brasileiro, protegeu, girou e fuzilou. Aquele gol pesaria muito até a rodada final, com o time um ponto acima do Atleti e três do Real.

Como se não bastasse, o Barça ainda foi atrás do doblete na Copa do Rei e ergueu a Recopa Europeia, batendo o Anderlecht de Rensenbrink na final. O retorno à Champions ficou guardado para 1976/77, temporada em que Overath deixou o time e Rinus Michels tirou Rainer Bonhof do Borussia Mönchengladbach. Diante da magia de Cruyff e Neeskens, os blaugranas ficaram a um ponto do Atlético de Madrid no topo do Espanhol. Mas o artilheiro carregou o time na Copa dos Campeões.

A pedreira começou contra o Stal Mielec do craque Lato, mas o alemão fez gols na ida e na volta para garantir a classificação. Depois, balançou as redes três vezes para eliminar o Club Brugge de Ernst Happel. Nas quarta de final, Der Bomber voltou à Alemanha Ocidental para uma noite monstruosa no Borussia Park. Dois golaços, um deles por cobertura, que minaram o caminho do fortíssimo Gladbach. Já na faze seguinte, o desafio era o Dynamo Kiev, que eliminara o bicampeão Bayern. Mas o centroavante pôde vingar os antigos companheiros. Blokhin esteve impossível no jogo da União Soviética e garantiu o triunfo por 1 a 0. Já no Camp Nou lotado, ninguém pôde com Müller, em uma função diferente do normal. O artilheiro foi garçom para os dois tentos de Sotil.

O Bayern conquistou o primeiro título de seu tri da Champions em 1973/74. Uma trajetória quase interrompida pelo Dynamo Dresden. Após eliminarem a Juventus, os orientais chegaram a estar vencendo em Munique, mas foram derrotados por 4 a 3. Já na volta, outro jogaço terminou com o empate por 3 a 3 e a classificação dos bávaros.

O grande desafio, por fim, viria no Estádio Olímpico de Roma. Gerd Müller encabeçava o Barcelona que teria pela frente o temível Liverpool. Os ingleses contavam com um time bastante forte, estrelado por Kevin Keegan. E até começaram pressionando na decisão. Só que o time de Rinus Michels não tinha sido moldado para defender. Bonhof orquestrava os blaugranas na dinâmica ofensiva. Até achar um passe àquele que tinha inspirado toda a ascensão do clube na década de 1970. Enfiada na medida para Müller dominar na entrada da área. Quando o capitão Emlyn Hughes fechava na marcação, o centroavante soltou a bomba. Tiro certeiro, no ângulo de Ray Clemence. O gol que deu ao Barcelona se primeiro título da Copa dos Campeões. Que eternizou Müller como o homem que mudou a sorte dos catalães.

A partir de então, o Barcelona se incorporou de uma gana por dominar a Europa. A perda de mais um título espanhol em 1977/78, desta vez para o Real Madrid de Uli Stielike, nem pesou tanto assim. A vontade dos blaugranas estava na Champions. O Atlético de Madrid perdeu ambos os duelos nas quartas de final por 3 a 1, com Gerd Müller anotando dois dobletes. Já nas semifinais, a vítima foi a Juventus, base da seleção italiana. Em atuação inspirada, Asensi quebrou a defesa de Scirea, Gentile, Cabrini e Zoff para dar a classificação à final. Outra vez diante do Liverpool, agora bem mais forte, após trazer o trio de escoceses formado por Hansen, Dalglish e Souness. A partida em Wembley colocava a torcida a favor dos Reds. Desta vez, sem a mesma alegria para os blaugranas. King Kenny definiu a vitória por 1 a 0.

Naquele momento, Gerd Müller via sua carreira entrar em declínio. Aos 33 anos, enfrentava problemas físicos, que o impediam de manter a mesma média de gols. De qualquer forma, os blaugranas não se esqueciam de tudo o que fizera no Camp Nou. Se o time de Rinus Michels funcionou tão bem, foi graças ao artilheiro, que recolocou o clube no caminho das glórias. Foram cinco títulos em cinco temporadas, até sua despedida em 1978, logo após a derrota em Londres. Müller não podia recusar a proposta para ganhar dinheiro nos Estados Unidos.

No fim das contas, os cinco anos do alemão no Camp Nou moldaram a sua personalidade, assim como o ideal do Barcelona. Em tempos de mudanças políticas extremas na Espanha, com a queda do franquismo, o artilheiro representava a renovação nas ideias também dentro do clube, com a eficiência e a ofensividade que se impregnariam nas próximas temporadas dos blaugranas. Krankl, Rummenigge, Schuster, Klinsmann e outros craques germânicos mantiveram seu legado na Catalunha. Com eles, o Barça voltou a conquistar mais duas edições da Champions, em 1983 e 1986.

Já Gerd Müller retornou ao Camp Nou para trabalhar como técnico, no final dos anos 1980. Sua filosofia permanece até hoje nos métodos de trabalho do clube, dinâmico e vertical. Assim, o Barcelona conseguiu ser tetracampeão espanhol na década de 1990, algo inédito para o clube. Colocava por terra os sonhos do Real Madrid, após a Quinta del Buitre, e do envolvente Atlético de Madrid treinado por Cruyff. Romário se aprimorou ainda mais como centroavante sob as ordens de Der Bomber, ao lado de Stoichkov, enquanto Sammer se transformou em referência na organização. Com eles, vieram mais dois títulos da Champions.

Atualmente, a imagem de Gerd Müller segue pairando sob o Camp Nou. É verdade que o Atleti de Cruyff e o Real de Vicente del Bosque também marcaram época, em duas décadas de muita força do trio de ferro espanhol. Mas um dos pupilos do alemão voltou para revigorar seus ideais. Sob as ordens de Sammer, o Barcelona tornou-se hegemônico na Champions. E Thomas Müller se consagrou como o grande craque de uma geração. Trazido da Alemanha ainda nas categorias de base, graças à rede de olheiros montada no país, o atacante conquistou sua quarta Bola de Ouro em 2015. No sobrenome e no talento, o herdeiro do velho Müller, que levou os blaugranas ao seu sétimo título continental. Fez um dos gols na final contra o surpreendente Brescia, do agora técnico Roberto Baggio. E do assistente Pep Guardiola.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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