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No dia do Dérbi de Berlim, a história dos esquecidos clubes da capital que disputaram a Bundesliga no passado

Berlim possui uma história riquíssima no futebol, iniciada a partir dos últimos anos do Século XIX. A capital da Alemanha se tornou um dos principais centros na difusão do esporte pela Europa continental e vários times surgiram a partir de 1885. O clube de futebol mais antigo do país é da cidade, bem como o mais antigo que segue em atividade. Já o Campeonato Berlinense teve o seu pontapé inicial dez anos antes do Campeonato Alemão. As equipes locais seriam fundamentais no processo de fundação da federação alemã, em 1900.

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Esse caldeirão futebolístico, porém, não perdurou com o passar das décadas. Muitos clubes de Berlim lidaram com as consequências das guerras mundiais e sofreram particularmente durante a Guerra Fria. A divisão da cidade pelo muro também impactou no futebol. Na Berlim Oriental, uma porção de território afastada do restante do país, os problemas financeiros e a escassez de talentos eram difíceis de contornar pela maioria. Assim, a situação definharia.

Nem a queda do muro ajudou o futebol de Berlim a se reerguer. Exceção feita ao Hertha, o único a disputar com frequência a Bundesliga, os demais clubes ocidentais com certa tradição já vinham se apequenando sem recursos financeiros. Já entre os orientais, o fim do investimento estatal levou as principais forças a perderem relevância. Demorou para que outro representante da capital pintasse na elite do Campeonato Alemão. Quem conseguiu foi o Union Berlim, antiga equipe do leste que era popular, mas não necessariamente multicampeã. E foi calcada em sua torcida que a agremiação ganharia impulso nas últimas décadas.

Nesta sexta-feira, Hertha e Union fazem mais um Dérbi de Berlim pela Bundesliga. Aproveitamos, então, para resgatar um pouco da história dos clubes berlinenses na primeira divisão alemã. Quando o muro ainda existia, três equipes tradicionais da cidade conseguiram alcançar a elite na Alemanha Ocidental. Contudo, foram apenas participações efêmeras, que antecederam a invariável bancarrota. Conheça um pouco mais sobre Tennis Borussia Berlim, Tasmania Berlim e Blau-Weiss Berlim. Além disso, adicionamos um “bônus” para falar sobre o Viktoria Berlim, primeira potência da cidade e bicampeão alemão no início do Século XX.

Tennis Borussia Berlim

Fundado em 1902, o clube tinha como foco inicial o tênis e o tênis de mesa. O futebol, no entanto, logo se tornou uma modalidade popular na agremiação. A partir da década de 1920, o Tennis Borussia conquistou duas vezes a Gauliga de Berlim (a competição regional que dava acesso à fase final do Campeonato Alemão), além de abrir as portas a Otto Nerz e Sepp Herberger, futuros técnicos da seleção. Todavia, foi na década de 1950 que o time se firmou como uma das principais potências regionais. Os violetas conquistaram quatro vezes a liga da capital e desenvolveram uma grande rivalidade com o Hertha. Terceiro colocado na Oberliga Berlinense de 1962/63, que serviu de classificatório à Bundesliga durante sua criação, o TeBe integraria a segunda divisão da nova liga nacional.

Depois de mais de uma década militando exclusivamente na segundona, o Tennis Borussia conquistou o acesso para a Bundesliga 1974/75. Mesmo repatriando do futebol italiano o veterano Karl-Heinz Schnellinger (defensor da Mannschaft em quatro Copas do Mundo), os violetas fariam uma campanha fraquíssima e seriam rebaixados na penúltima colocação. O Dérbi de Berlim também aconteceria na liga pela primeira vez, com duas vitórias do Hertha – que fecharia aquela edição com o vice-campeonato nacional. O TeBe não demoraria a retornar e reapareceu na Bundesliga 1976/77. De novo, os berlinenses não duraram mais do que uma temporada, repetindo a penúltima posição.

Durante aquela campanha, o Tennis Borussia melhorou seu desempenho nos dérbis contra o Hertha. Os dois jogos terminaram com o placar de 2 a 0, mas com uma vitória para cada lado. Já os resultados mais curiosos do TeBe ocorreram contra Bayern e Colônia, forças da época. Os bávaros enfiariam 9 a 0 no primeiro turno, com cinco gols de Gerd Müller, mas o clube de Berlim ganhou por 3 a 1 no Estádio Olímpico. Já contra o Colônia, os violetas também venceram dentro de casa por 3 a 2, antes de tomarem uma sapecada por 8 a 4 dos Bodes em Müngersdorfer. Artilheiro da equipe com 20 gols, o sueco Benny Wendt seria ídolo do Kaiserslautern na sequência da carreira.

Depois disso, o Tennis Borussia passou as décadas de 1980 e 1990 vagando entre a segunda e a terceira divisão do Campeonato Alemão. Seu ponto alto veio em 1993/94, quando alcançou as semifinais da Copa da Alemanha. O TeBe também eliminou o Hertha na Pokal de 1998/99, com uma vitória por 4 a 2 no Estádio Olímpico. Já na virada do século, com graves problemas financeiros, os violetas foram caindo cada vez mais. Chegaram a figurar na sexta divisão nacional, atualmente disputando o quinto nível.

Tasmania Berlim

O Tasmania Berlim tem sua origem em 1900, fundado por um grupo de alemães que desejava emigrar à Austrália. Era um clube modesto na capital, variando entre a primeira e a segunda divisão em suas primeiras décadas de existência. A ascensão dos alviazuis como um time realmente relevante aconteceu no final da década de 1950, com três títulos na Oberliga de Berlim e a participação na fase final do Campeonato Alemão. O Tasmania se candidatou a figurar na edição inaugural da Bundesliga, mas acabaria preterido pelo Hertha Berlim.

O acesso do Tasmania Berlim à primeira divisão da nova liga, em 1965/66, aconteceu no tapetão. Em suas primeiras edições, a Bundesliga tinha um teto salarial e a limitação foi rompida pelo Hertha. Para atrair jogadores à cidade dividida pelo muro, a Velha Senhora pagava parte dos salários por baixo dos panos e isso foi descoberto pela organização do campeonato, que resolveu rebaixá-la. Contudo, para manter ao menos um representante berlinense na elite, os dirigentes resolveram pinçar o Tasmania na segundona. Os alviazuis nem tinham feito a melhor campanha entre os clubes da cidade, mas cumpriam os critérios exigidos. A escolha, confirmada apenas duas semanas antes do início da competição, resultaria num fiasco. Vários jogadores amadores foram profissionalizados às pressas. Já a adição do meia Horst Szymaniak, campeão europeu com a Internazionale em 1964, pouco ajudou.

O Tasmania Berlim, como era possível de se prever, protagonizou aquela que perdura como a pior campanha da história da Bundesliga. Os berlinenses até venceram em sua estreia, no que seria um dos únicos dois triunfos em meio a 28 derrotas, mas a segunda vitória só ocorreria na penúltima rodada. O time marcou míseros 15 gols e tomou 108 ao longo dos 34 compromissos. As goleadas obviamente foram frequentes, com direito a um 9 a 0 do Duisburg. E se no início da campanha os alviazuis jogaram para 81 mil espectadores no Estádio Olímpico de Berlim, terminaram atuando para cerca de mil pessoas no acanhado Werner-Seelenbinder-Sportpark. Seriam rebaixados aclamadamente na lanterna, para nunca mais voltar.

A existência do Tasmania Berlim sequer perdurou por muito tempo. Com problemas financeiros, o clube decretou sua falência em 1973. Até surgiu um time herdeiro, que chegou a disputar a terceira divisão. Atualmente, está no quinto nível do Campeonato Alemão, distante de tentar repetir as proezas de seu antecessor.

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Blau-Weiss Berlim

O nascimento do Blau-Weiss Berlim se deu em 1927, a partir da fusão de outros clubes tradicionais da cidade. Union 92 e Berliner Vorwärts estiveram entre os fundadores da federação alemã, assim como disputaram decisões do Campeonato Alemão nos primórdios da competição – com o título do Union em 1905. O sucessor Blau-Weiss chegaria a conquistar a Gauliga de Berlim por duas vezes durante a Segunda Guerra Mundial, mas normalmente ocupava posições intermediárias na competição regional. Quando a Bundesliga foi criada em 1963, os alviazuis passariam a integrar a segunda divisão.

Entre as décadas de 1960 e 1970, o Blau-Weiss variou entre a segundona e a terceirona. Sua ascensão ocorreu mesmo na década de 1980. Após conquistarem o acesso na terceira divisão em 1983/84, os berlinenses surpreenderam e asseguraram a inédita promoção para a Bundesliga em 1985/86. Pintariam na elite como azarões e, de fato, não se sustentariam por muito tempo – por mais que tenham feito investimentos em reforços. Convocado a duas Copas do Mundo pela seleção belga, o meio-campista René Vandereycken era o nome mais rodado. Já a grande revelação da campanha seria Karl-Heinz Riedle, descoberto no Augsburg.

Aos 20 anos, Riedle chamaria atenção com a camisa do Blau-Weiss. Os dez gols anotados não evitaram o rebaixamento, mas valeram um contrato com o forte time do Werder Bremen para a temporada seguinte. Ele seria campeão nacional e vice-artilheiro da competição com os Verdes. O atacante construiu uma carreira sólida e, em 1990, também se tornou campeão do mundo com a seleção alemã-ocidental. Além de passar pela Lazio, viraria protagonista do Borussia Dortmund bicampeão alemão nos anos 1990, antes de brilhar no título da Champions de 1996/97 com os aurinegros – anotando dois gols na decisão contra a Juventus.

O início do Blau-Weiss na Bundesliga 1986/87 seria razoável, mas a equipe desandou após os 7 a 0 sofridos na visita ao Dortmund. Depois que assumiram a lanterna, os berlinenses não saíram mais. O resultado mais expressivo aconteceu no primeiro turno, quando os alviazuis seguraram o empate por 1 a 1 contra o tricampeão Bayern de Munique em Berlim. Mas nada que salvasse uma campanha encerrada com três vitórias e 19 derrotas, além de 76 gols sofridos. Depois disso, o Blau-Weiss disputou cinco edições da segundona e decretou sua falência em 1992, com problemas financeiros que se arrastavam desde antes do acesso à Bundesliga. Um clube sucessor seria fundado logo depois, atualmente integrando a quinta divisão.

Bônus: O primeiro campeão, Viktoria Berlim

A primeira equipe de Berlim a fazer sucesso nacionalmente foi o Viktoria, fundado em 1889 para a prática de críquete e futebol. Os celestes conquistaram cinco títulos consecutivos no Campeonato Berlinense durante a década de 1890 e depois ajudariam a criar a federação alemã em 1900. Seria a deixa para se firmarem como costumeiros postulantes à taça no Campeonato Alemão, que em suas primeiras décadas reunia os vencedores das ligas regionais em uma fase decisiva nacional.

Como representante da capital, o Viktoria Berlim disputaria quatro decisões do Campeonato Alemão entre 1907 e 1911. Os celestes conquistaram dois títulos, batendo o Stuttgarter Kickers em 1908 e o VfB Leipzig em 1911. Também cederam dois jogadores à seleção alemã que disputou o torneio de futebol nos Jogos Olímpicos de 1912. As conquistas no Campeonato Berlinense seguiram frequentes até o final da década de 1910, com o 13° título garantido em 1919. Entretanto, os desdobramentos da Primeira Guerra Mundial enfraqueceriam a equipe.

Nos anos posteriores, o Viktoria Berlim seguiria como um clube importante, mas não dominante. Venceu a Gauliga de Berlim em 1934 e, depois da Segunda Guerra Mundial, faturaria mais duas vezes a Oberliga Berlinense em 1954 e 1955. As dificuldades se tornariam maiores a partir da década de 1950, especialmente com a divisão de Berlim pela Guerra Fria. Para angariar fundos, os celestes chegaram a formar um combinado local em 1960 com o Hertha e enfrentaram o Real Madrid em amistoso. Com a presença de Alfredo Di Stéfano e Ferenc Puskás, os merengues venceram por 1 a 0, diante de 30 mil no Estádio Olímpico de Berlim.

O Viktoria Berlim não se tornaria elegível à edição inicial da Bundesliga e seu declínio se acentuou a partir dos anos 1960. Relegados às competições amadoras, os celestes vagaram da terceira divisão para baixo. A agremiação sobreviveria até 2013, quando se fundiu para dar origem ao Viktoria 1899. O time faturou por duas vezes a Copa de Berlim desde então e atualmente disputa a quarta divisão do Campeonato Alemão.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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