Alemanha

De volta ao mundo real

O torcedor alemão certamente experimentou, nos últimos 15 dias, pelo menos três sentimentos diferentes e extremos em relação à seleção nacional: a angústia de ver a equipe perder alguns jogadores importantes por lesão durante a fase de preparação para a Copa do Mundo, a euforia com a goleada e a bela atuação na estreia contra a Austrália no último domingo, e a decepção com a derrota surpreendente para a Sérvia nesta sexta-feira.

O tropeço que colocou em perigo a classificação para a segunda fase do torneio, serviu como um banho de água fria aos mais empolgadinhos que já falavam em título. Mas, se analisarmos com um pouco mais de calma e levarmos em conta as circunstâncias da partida, é possível concluir que a atuação dos germânicos foi boa. Prova disso é que, mesmo com um jogador a menos durante o segundo tempo inteiro, eles tiveram grandes oportunidades para empatar e até virar o placar.

O azar dos comandados de Joachin Löw é que essas chances – em números reais foram quatro – caíram, quase todas, nos pés de Lukas Podolski, e o camisa 10 parecia estar muito determinado a desperdiçá-las. Nas duas primeiras, ele entrou pelo lado esquerdo e recebeu belos passes de Özil, ficando cara a cara com Stojkovic, mas chutou para fora. Logo depois, ganhou um pênalti de presente de Vidic, mas retribuiu a gentileza cobrando de maneira bizarra nas mãos do goleiro sérvio.

Quem também contribuiu para a derrota foi Miroslav Klose. Pode-se dizer, em defesa dele, que o árbitro espanhol Alberto Undiano foi injusto, muito rigoroso ao expulsá-lo, mas ele já havia sido punido com cartão amarelo por ter cometido uma falta parecida com a que causou a segunda punição. A expulsão abalou o time inteiro, que tomou o gol logo depois e se ressentiu, durante a segunda etapa, da ausência de seu jogador mais experiente.

Seria injusto, porém, atribuir o resultado somente ao fato da equipe ter atuado em inferioridade numérica. Antes da saída de Klose, os alemães já enfrentavam muitas dificuldades com a marcação adversária e não conseguiam ameaçar muito, embora tivessem o domínio territorial do jogo e trocassem passes com muita paciência. A partida se desenhava de maneira parecida com várias outras desse Mundial, com um time atacando e rodando a bola sem conseguir finalizar, e o outro defendendo com sucesso.

Os alemães certamente sentiram falta de uma participação maior de Mesut Özil, que, quando pegou na bola, deu os supracitados passes para Podolski perder os gols, mas poderia ter aparecido mais para o jogo. Quando ele saiu, o problema se agravou, pois seu substituto Marko Marin decepcionou, errando quase tudo o que tentou durante o pouco tempo em que esteve em campo e comprometendo ainda mais as chances de empate, que naquele momento já eram reduzidas em função do cansaço do time.

Quem teve uma participação interessante foi Thomas Müller, que sempre deu opção de jogo pelo lado direito e incomodou a marcação sérvia com muita velocidade e dinâmica. Ele parece não sentir nem um pouco o fato de estar em uma Copa do Mundo e se firma cada vez mais como titular, arrancando elogios frequentes de Joachin Löw. Pelo visto, Piotr Trochowski terá que suar muito a camisa para recuperar a posição da qual pareceu dono um dia.

Entre os volantes, destaque para Sami Khedira, que correu o tempo inteiro e foi um dos responsáveis pelo fato da Alemanha ter mantido um bom volume de jogo, mesmo com um a menos. Ele chegou a ser centroavante em alguns momentos e acertou uma bola na trave no final do primeiro tempo. Schweinsteiger, por sua vez, também avançou, mas, em função das circunstâncias da partida, ficou mais preso à marcação, embora tenha arriscado um bom chute de fora da área na segunda etapa.

Na defesa, Holger Badstuber não conseguiu acompanhar Krasic no lance do gol sérvio e teve dificuldades em outros momentos. Lahm, de apenas 1.70m, perdeu no jogo aéreo para o gigante Zigic no lance do gol sérvio. No lance, Per Mertesacker correu em auxílio ao lateral, não conseguiu cortar o lance e acabou deixando Jovanovic livre para abrir o placar, pois Arne Friedrich estava na cobertura de Badstuber e não conseguiu chegar a tempo de destruir a jogada.

O resultado, apesar de decepcionante, ainda não é trágico para os alemães. Afinal de contas, basta uma vitória contra Gana, na próxima quarta-feira, para garantir vaga na segunda fase, provavelmente com o primeiro lugar do grupo, em função do saldo de gols obtido na goleada contra os australianos. Mas fica o sinal de alerta e a certeza de que vacilos como os desta sexta-feira não poderão mais acontecer, pois poderão custar a eliminação do torneio.

Löw: “Não foi uma entrada violenta”

Após a partida, o técnico Joachin Löw elogiou a postura da equipe na segunda etapa e criticou a arbitragem. “Não fizemos um primeiro tempo tão bom quanto na estreia mas no segundo tivemos chances até de vencer o jogo, mas não estávamos num grande dia e pecamos nas finalizações. Em relação à expulsão do Klose, para mim foi injusta, não foi uma falta tão violenta assim”, declarou. A opinião é compartilhada pelo próprio Klose, que afirma: “Tentei pegar a bola, não creio que tenha sido uma falta desleal. Esse juiz precisa entender que futebol é um esporte de contato físico”.

Para Bastian Schweinsteiger, porém, a expulsão não pode servir como desculpa para o tropeço. “Há expulsões em quase todos os jogos da Copa do Mundo e importante reconsiderar esse critério. Mas não poderíamos ter perdido esse jogo da forma como perdemos mesmo com dez jogadores. Estou muito triste e desapontado com o resultado”, disse Schweinsteiger, que, assim como Podolski, tinha a autorização de Löw para bater o pênalti, mas deixou a cobrança para o companheiro.

O camisa 10, por sua vez, assumiu a culpa pela derrota, mas teve a cara de pau de dizer que a cobrança não foi ruim. “Não bati mal, o goleiro é que advinhou o canto e pegou. Mas assumo a culpa pela derrota”. Ele foi criticado pelo Kaiser Franz Beckenbauer, que, em entrevista ao jornal Bild, classificou sua atitude como “egoísta” e citou o exemplo de Lothar Matthäus, que deixou Andreas Brehme cobrar o pênalti na final da Copa do Mundo de 1990, contra a Argentina.

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Equipe Trivela

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