Copa da Alemanha

Final da Copa da Alemanha: O título que encerrou o jejum de 23 anos no Dortmund e a zebra na primeira Pokal de Leipzig

Antes da decisão nesta quinta-feira, relembramos dois títulos marcantes para o Borussia Dortmund e para o antigo VfB Leipzig

A Copa da Alemanha pode soar um prêmio de consolação a quem vê de fora, com a final desta temporada disputada entre Borussia Dortmund e RB Leipzig. Sem o Bayern de Munique pelo caminho, eliminado logo cedo pelo surpreendente Holstein Kiel, os candidatos frustrados à Bundesliga terão sua chance de título na Pokal. A decisão deste ano, porém, precisa ser valorizada. O Leipzig persegue seu primeiro troféu de elite, naquela que pode ser uma grande despedida a Julian Nagelsmann. Já o Dortmund possui apenas quatro taças anteriores no torneio e pode coroar sua jovem geração, estrelada por Erling Braut Haaland e Jadon Sancho. Basta lembrar o simbolismo da conquista de 2017, numa campanha protagonizada por Marco Reus, em seu primeiro título pelo clube do coração. Aquela vitória no Estádio Olímpico de Berlim sobre o Eintracht Frankfurt rendeu uma festa gigantesca em Dortmund, aliás.

Para esquentar a final que acontece nesta quinta (às 15h45, com transmissão da ESPN e do One Football), relembramos duas histórias de Dortmund e Leipzig na Copa da Alemanha. Para muitos torcedores aurinegros, a maior conquista do BVB não é a Champions de 1997, e sim a Pokal de 1989. Aquele troféu traz um simbolismo imenso, ao encerrar um jejum de 23 anos no clube e inaugurar uma era vitoriosa, com direito a goleada sobre o favorito Werder Bremen por 4 a 1. Já em Leipzig, há uma taça antiga erguida em 1936, pelo antigo VfB Leipzig. O clube tradicional não tem ligação com o atual RasenBallsport, mas protagonizou uma das grandes façanhas da competição, na primeira decisão realizada no Estádio Olímpico de Berlim.

Dortmund 1989: A mãe de todas as conquistas

Frank Mill em ação (Foto: Imago / One Football)

A Copa da Alemanha de 1964/65 possui um peso enorme à história do Borussia Dortmund. Aquela conquista, afinal, abriria portas a um do maiores feitos do clube. Graças à Pokal, o BVB garantiu vaga na Recopa Europeia de 1965/66 e levou seu primeiro troféu internacional, em decisão contra o Liverpool de Bill Shankly. Seria o ápice de uma geração excepcional, que já tinha faturado o Campeonato Alemão em 1962/63 (a última edição antes da criação da Bundesliga) e que seria uma das bases da seleção vice-campeã na Copa do Mundo de 1966. No entanto, a bonança aurinegra pararia ali mesmo, em 1966. Pior, o jejum durou 23 anos. Foi apenas na Copa da Alemanha de 1988/89 que a cidade de Dortmund poderia comemorar um título novamente. Por isso mesmo, aquela campanha teria um simbolismo tão grande, iniciando uma era vitoriosa que se consolidou durante a década de 1990.

O Dortmund atravessou anos duros durante a década de 1970, passando quatro temporadas na segunda divisão. Ainda demorou a engrenar quando retornou à elite e era uma equipe de meio de tabela nos anos 1980, encarando a ameaça do rebaixamento outras vezes. Sequer alcançou uma decisão da Copa da Alemanha no período e, no máximo, teria duas participações modestas na Copa da Uefa. A Pokal de 1988/89, portanto, representou todo o ardor dos torcedores em sua espera de mais de duas décadas por um novo título. E o talento à disposição no Westfalenstadion permitia que os aurinegros sonhassem.

Em 1986/87, o Dortmund terminou a Bundesliga na quarta posição, seu melhor desempenho desde a gloriosa década de 1960. Cairia de nível na temporada seguinte, com o 13° lugar. A aposta para reerguer os aurinegros era o técnico Horst Köppel, antigo atacante do Borussia Mönchengladbach nos imponentes anos 1970, que tinha permanecido como assistente de Franz Beckenbauer na seleção por quatro anos e participaria da Copa de 1986. O novo comandante encontraria um bom grupo de jogadores no Westfalenstadion.

O time campeão em 1989 (Foto: Imago / One Football)

O goleiro era Wolfgang de Beer, símbolo daqueles tempos. A zaga tinha Thomas Helmer, que se firmaria na seleção pouco depois, além do escocês Murdo MacLeod, antigo ídolo do Celtic. O rodado líbero Thomas Kroth, por sua vez, depois virou empresário de Manuel Neuer. No meio, um dos reforços era Michael Rummenigge, irmão mais novo de Karl-Heinz que vinha do Bayern. Formado pela base, Michel Zorc usava a braçadeira de capitão e era uma das referências no meio-campo, numa carreira dedicada totalmente aos aurinegros. O craque do setor, de qualquer maneira, era o garoto Andreas Möller, oferecendo sua categoria na armação aos 21 anos. Já na frente, enquanto Norbert Dickel era um talento em consolidação trazido do Colônia, Frank Mill carregava bem mais experiência, de quem já tinha feito sucesso no Borussia Mönchengladbach e figurava nas convocações da seleção. Em 1988, além da Eurocopa, disputou ainda as Olimpíadas e voltou com o bronze.

O Dortmund faria uma Bundesliga morna em 1988/89, terminando na sétima colocação, longe de competir com o campeão Bayern de Munique. Mas, na Copa da Alemanha, o time enchia sua torcida de esperanças. Os aurinegros começaram enfiando 6 a 0 no Eintracht Braunschweig. Depois, mais dificuldades para fazer 2 a 1 no Homburg. Nas oitavas, a torcida se deleitou com os 3 a 2 sobre o Schalke 04, que na época militava na segundona. O Karlsruher de Winfried Schäfer foi a próxima vítima, com o 1 a 0 nas quartas, até os 2 a 0 contra um fortíssimo Stuttgart na semifinal. Os suábios eram treinados por Arie Haan e reuniam diversos jogadores com nível de seleção – incluindo Jürgen Klinsmann, Guido Buchwald, Eike Immel, Maurizio Gaudino e Srecko Katanec. Num duelo em que três foram expulsos numa confusão, o BVB se classificou com gols de Zorc e Mill.

A decisão tinha uma expectativa tremenda ao Dortmund, longe da disputa desde aquele título de 1965. Todavia, o favoritismo pendia ao adversário. O Werder Bremen era treinado pelo badalado Otto Rehhagel e havia conquistado a Bundesliga na temporada anterior, em anos muito competitivos no Weserstadion. Oliver Reck, Rune Bratseth, Günter Hermann, Dieter Elits e Frank Neubarth eram figuras de relevo, todos eles com passagem por suas respectivas seleções. E se o ataque trazia Karl-Heinz Riedle, futuro herói do Dortmund na final da Champions de 1996/97, os Verdes ainda tinham Mirko Voltava e Manfred Burgsmüller, que foram ídolos aurinegros na virada dos anos 1970 para os 1980. Ambos já tinham sido dirigidos por Rehhagel no BVB, embora a passagem do técnico pelo Westfalenstadion tenha deixado feridas, com sua demissão após os 12 a 0 aplicados pelo Gladbach na rodada final da Bundesliga 1977/78 – o maior placar da história do campeonato.

A torcida aurinegra no Estádio Olímpico (Foto: Imago / One Football)

Mais de 76 mil torcedores lotaram o Estádio Olímpico de Berlim para aquela final da Copa da Alemanha, dentre os quais 40 mil eram aurinegros. Até houve um toque de superstição, com o resgate das meias listradas que marcaram o Dortmund durante conquistas do passado. Foi uma sugestão de Frank Mill. Além do mais, o clima ao redor contagiava os jogadores, como contaria Teddy de Beer ao site Reviersport, em 2009: “Foi de arrepiar. O hino nacional, os 40 mil nas arquibancadas… Todos sabíamos que esse era um dia muito especial. Nós conhecíamos os grandes palcos, o Westfalenstadion, mas aquilo era algo completamente diferente. Naquela época, ainda tivemos que andar 200 metros pelos corredores monumentais do estádio para chegar no campo. Você ouvia os gritos de dentro. Eu me senti um gladiador”.

Quando a bola rolou, a lógica até parecia se cumprir. Com apenas 15 minutos, o Werder Bremen abriu o placar. Depois de uma enfiada do futuro treinador Thomas Schaaf, Riedle tocou na saída de Teddy de Beer. O empate do Dortmund, ao menos, não tardou. Aos 21, o placar estava igualado. Frank Mill fez uma jogadaça pela ponta esquerda e descolou um passe melhor ainda. A bola com curva veio perfeita para que Norbert Dickel concluísse de primeira, diante do goleiro Oliver Reck. Era um herói improvável, considerando que o camisa 9 passou por uma cirurgia no menisco 46 dias antes. Dickel só treinou uma vez antes da final e ainda sentia dores terríveis, mas escondeu de Köppel e acabou como titular, numa tentativa do treinador em aumentar a força ofensiva. Sua escolha faria a diferença.

No segundo tempo, quando o placar ainda estava empatado, Mill salvaria uma bola com o gol aberto em sua área. A virada aconteceu aos 13, numa ótima troca de passes do Dortmund após cobrança de lateral. Zorc cruzou de primeira e Mill completou de cabeça no canto. E a goleada por 4 a 1 se consolidou com mais dois gols em sequência, entre os 28 e os 29. Primeiro, Mill parou em Reck num contra-ataque, mas ficou com a sobra e cruzou a bola perfeita para Dickel. O camisa 9 pegou na veia, mandando um chutaço no cantinho do goleiro para ampliar. Depois, em novo contragolpe, Helmer deu um lançamento espetacular para o substituto Michael Lusch fechar a contagem. Era o júbilo da massa aurinegra que encheu o Olympiastadion.

Na volta a Dortmund, mais de 300 mil pessoas saíram às ruas para receber os campeões. Uma geração inteira de torcedores esperava aquela conquista, depois de um jejum tão longo. “A comemoração com a torcida no estádio foi sensacional. Mas, quando voltamos a Dortmund, as pessoas já estavam nos esperando no aeroporto e lotavam as ruas até o centro da cidade. Normalmente você precisa de 20 minutos nesse caminho, mas demorou horas, por causa da multidão que acompanhava a marcha triunfal. Seguimos em carro aberto até a praça principal. Foi incrível”, contou Teddy de Beer. “A gente passava o troféu e erguia para a multidão repetidamente. As pessoas aplaudiam. Foi uma bênção. Havia um frenesi triunfante no qual você ficava vidrado. Poucos dias depois, realmente me dei conta do que havia acontecido. Houve uma profunda sensação de satisfação por ter conquistado algo especial. Até hoje me sinto orgulhoso por fazer parte da história deste clube”.

O goleiro ainda exaltaria o clima positivo dentro do clube: “Não éramos 11 amigos. Mas também nos dávamos bem na vida pessoal e tomávamos uma cerveja juntos à noite. Éramos colegas de trabalho, uma comunidade capaz de lutar uns pelos outros pelo mesmo objetivo e que se respeitava. E isso era a coisa mais importante. Basta pensar em Norbert Dickel, que vinha de lesão e nos deu a vitória. Quanto mais avançávamos na Copa, mais esse ímpeto se desenvolvia. Queríamos fazer algo especial. Nunca conversamos sobre isso, mas todos sentiam o mesmo. Sonhávamos o mesmo sonho. Lutamos juntos por isso até a conquista”.

A multidão comemora o troféu em Dortmund (Foto: Imago / One Football)

E aqueles jogadores pegariam gosto pelo ouro. Um ano depois, Frank Mill e Andy Möller eram os representantes do BVB na seleção alemã-ocidental que faturou a Copa do Mundo em 1990. Mais importante, as façanhas se emendariam no clube durante os anos 1990, com dois títulos da Bundesliga e a Champions, além de um vice na Copa da Uefa. De Beer, Zorc e Möller participaram daqueles feitos, sob as ordens de Ottmar Hitzfeld. Curiosamente, seriam mais 23 anos até a reconquista da Pokal, com a histórica goleada por 5 a 2 sobre o Bayern valendo a dobradinha nacional aos comandados de Jürgen Klopp em 2011/12. Depois, pela quarta vez, a taça voltaria a Dortmund em 2017.

A geração de 1989 permanece venerada no Westfalenstadion. Mesmo sem levar outros troféus pelo clube, Frank Mill figura em qualquer lista de maiores ídolos aurinegros. Alguns também continuaram trabalhando no clube mesmo depois da aposentadoria. O capitão Michael Zorc é o diretor esportivo desde que pendurou as chuteiras em 1998. Teddy de Beer trabalhou por 17 anos como treinador de goleiros, de 2001 a 2018, enquanto atualmente cumpre uma função de relacionamento com os torcedores. Mas ninguém teria uma trajetória tão singular quanto a de Norbert Dickel.

O sacrifício para jogar a final da Copa da Alemanha teria seu preço e o centroavante, acumulando lesões, precisou se despedir dos gramados ainda em 1990. O Borussia Dortmund acolheu o ex-jogador de 28 anos e deu um emprego no Westfalenstadion. O herói da Copa da Alemanha se transformou na voz que anuncia escalações e tudo mais nos alto-falantes do estádio. O artilheiro que proporcionou uma das maiores alegrias aos aurinegros continuou, por outros meios, levantando a massa. Dickel também trabalha em eventos relacionados ao Dortmund, assim como no setor de imprensa. Além disso, virou membro do conselho do clube. Seus dois gols no Olympiastadion estão na história, mas a dedicação do veterano ao clube vai muito além.

Nobert Dickel foi o herói do BVB (Foto: Imago / One Football)

Leipzig 1936: A primeira Pokal do Estádio Olímpico teve zebra

Leipzig pode ser uma cidade pouco simpática a torcedores de toda a Alemanha nos últimos anos, diante da rejeição ao projeto conduzido pela Red Bull na Bundesliga, mas é um berço histórico do futebol no país. Foi por lá que a federação teve origem em 1900 e também por lá surgiu o primeiro campeão nacional, em 1903. O VfB Leipzig era uma potência nos primeiros anos do Campeonato Alemão e levou três taças até 1913. Porém, a partir do advento da Primeira Guerra Mundial, a equipe não conseguiu mais competir pelo título. Seu ressurgimento como campeão aconteceu na segunda edição da Copa da Alemanha, em 1936. E, para levar o primeiro troféu da Pokal disputado no Estádio Olímpico de Berlim, surpreendeu o favorito Schalke 04.

A influência do VfB Leipzig nos primórdios do futebol alemão era enorme. Foram seis finais no Campeonato Alemão de 1903 a 1914, mas o clube não conseguiria se reconstruir após o estouro da guerra. Mais da metade dos membros do clube iriam a combate e quatro jogadores do elenco campeão em 1913 morreriam no front. A década de 1920 seria mais modesta ao Leipzig, restrita a conquistas regionais, que levaram a equipe quatro vezes à fase final do Campeonato Alemão. Já na década de 1930, quando o nazismo interferiu no esporte e reorganizou a estrutura do futebol, o Leipzig era um figurante na Gauliga da Saxônia. Por isso mesmo, sua conquista na Copa da Alemanha de 1936 tem ares de façanha.

Criada em 1935, a Pokal viu o VfB Leipzig ter vida curta na primeira edição. Os saxões foram eliminados logo na primeira fase, após serem sorteados contra o Nuremberg, exatamente campeão naquele torneio inaugural. Quinto colocado na Gauliga da Saxônia em 1935/36, o time voltaria a tentar a sorte na segunda edição da Copa da Alemanha. O desempenho seria firme, com o Leipzig avançando fase a fase. Foram sete adversários superados no caminho à decisão, incluindo quatro campeões regionais. A vitória mais significativa aconteceu na semifinal, quando o adversário era o Wormatia Worms, importante equipe da região da Renânia-Palatinado. O VfB aplicou uma inapelável goleada por 5 a 1, garantindo sua passagem à primeira final da agremiação em 22 anos.

O Leipzig campeão em 1936 (Foto: Imago / One Football)

Por conta dos Jogos Olímpicos, aquela edição da Copa da Alemanha se estendeu até janeiro de 1937. Em compensação, a final pôde ser disputada pela primeira vez no Estádio Olímpico de Berlim, inaugurado para o evento internacional. Mais de 70 mil pessoas lotaram as arquibancadas, incluindo 4 mil torcedores que se deslocaram de Leipzig, pouco mais ao sul. E eles precisavam acreditar no milagre, já que o favoritismo pendia totalmente ao adversário: o Schalke 04. Clube mais popular do país, os Azuis Reais viviam seu ápice na década de 1930. De 1934 a 1942, o troféu do Campeonato Alemão foi parar em Gelsenkirchen em seis oportunidades. Além disso, o time vinha mordido para o título inédito da Pokal, após perder a final de 1935 contra o Nuremberg.

Embora muitas vezes o Schalke costume ser tachado como “time de Hitler” por conta do sucesso nos anos 1930, era muito mais o Terceiro Reich que embarcava no sucesso dos Azuis Reais, muito populares por saírem de uma pequena cidade proletária e dominarem o futebol. Muitos jogadores faziam parte da comunidade imigrante que trabalhava nas minas de carvão do Vale do Ruhr, passando longe do ideal ariano. O craque era o atacante Ernst Kuzorra, cuja família tinha vindo do nordeste da atual Polônia para trabalhar como mineiros em Gelsenkirchen. Outro destaque era Fritz Szepan, cunhado de Kuzorra, também de origem eslávicas. Apesar das raízes de ambos, os dois foram usados em propagandas nazistas sobre o “ideal ariano”, por conta da fama no esporte.

O Leipzig, por sua vez, passava longe do prestígio visto no Schalke. Em tempos amadores do futebol alemão, o elenco praticamente inteiro era nascido e criado na cidade. Muitos vestiram apenas a camisa do VfB ao longo da carreira e passaram anos na agremiação. Disputar a final da Copa da Alemanha era uma recompensa e tanto. Autor de dois gols na semifinal, o defensor Rudolf Grosse chegou a defender o clube por 16 anos, de 1929 a 1945. Não era exceção, com diversos outros destaques passando pelo menos uma década no plantel. Eram trabalhadores comuns que levavam o futebol como uma paixão a mais. No máximo, rodaram por outros times da cidade – como o Eintracht Leipzig, o Arminia Leipzig ou o Chemie Leipzig, este criado depois de 1945.

Era difícil apostar contra o Schalke naquela final. O Leipzig, entretanto, não se intimidou e tratou de jogar bola. Os azarões pressionaram desde os primeiros minutos, surpreendendo a marcação azul real. O primeiro gol não tardaria, aos 20, com Jakob May aproveitando a falha do goleiro Hermann Mellage. Depois disso, o Leipzig se fecharia, mas ainda conseguiu anotar o segundo aos 31, num contra-ataque concluído por Herbert Gabriel. Depois disso, o Schalke iria para o abafa. Até conseguiu descontar com Ernst Kalwitzki aos 42, mas não foi além. Durante o segundo tempo, o VfB lutou ferreamente pela vantagem no placar e não tinha pudores em dar chutões para afastar o perigo. O goleiro Bruno Wöllner, em especial, fechou sua meta. Os Azuis Reais também não aguentariam a exigência física da partida, caindo de ritmo no fim. A vitória por 2 a 1 consagrou uma das maiores zebras da Pokal.

No ano seguinte, o Schalke até conseguiu sua redenção, com a conquista da Pokal. O VfB Leipzig, entretanto, pôde levar como orgulho a inédita conquista no Estádio Olímpico. O clube existiria até 1945, quando o fim da Segunda Guerra Mundial provocou a dissolução de todas as agremiações ligadas à Alemanha nazista. O renascimento da agremiação aconteceu pouco depois, quando parte de sua base se juntou ao Lokomotive Leipzig, ligado à companhia ferroviária local e remodelado dentro do novo regime comunista implantado na dividida Alemanha Oriental.

O Lok Leipzig era um dos times mais importantes da Oberliga e, curiosamente, nunca conquistou a competição. Seus sucessos aconteceram exatamente na Copa da Alemanha Oriental, a partir dos anos 1970. Os auriazuis desfrutaram de seus primeiros títulos em 1976 e 1981, mas a equipe realmente eternizada na Pokal local foi bicampeã em 1985/86 e 1986/87. Na primeira final daquele biênio, o Lokomotive chegou a enfiar 5 a 1 sobre o Union Berlim, enquanto a decisão seguinte guardou 4 a 1 sobre o Hansa Rostock. Era uma equipe muito forte, que incluía diversos jogadores de seleção – com destaque ao goleiro René Müller, ao meio-campista Matthias Liebers e ao centroavante Olaf Marschall. Aquela geração ainda seria finalista da Recopa Europeia de 1986/87. Os alemães-orientais passaram por Glentoran, Rapid Viena, Sion e Bordeaux. Na decisão em Atenas, perderam para o Ajax de Johan Cruyff por 1 a 0, gol de Marco van Basten.

E se o Lokomotive Leipzig não manteve tal relevância após a unificação da Alemanha, o RB Leipzig recolocou a cidade numa decisão da Pokal. O clube da Red Bull faria barulho logo em sua estreia na Copa da Alemanha, em 2011/12. Então na quarta divisão, os Touros Vermelhos eliminaram o Wolfsburg (campeão nacional dois anos antes) em sua primeira partida pelo torneio, numa emocionante vitória por 3 a 2. A eliminação ocorreu na fase seguinte, diante do Augsburg. Depois disso, virou costume ver o RasenBallsport no certame. O histórico da agremiação na competição é relativamente modesto, com sete eliminações antes das quartas de final. Mas, quando a equipe de Ralf Rangnick ultrapassou a barreira das oitavas pela primeira vez em 2018/19, foi vice contra o Bayern. Agora, terá nova chance com Julian Nagelsmann.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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