Com a corda no pescoço

Uma das características marcantes do primeiro turno da Bundesliga em 2010/11 – cujo balanço você, leitor, irá conferir na próxima semana – foi a campanha decepcionante de algumas equipes grandes, sobretudo Schalke 04, Werder Bremen e Stuttgart. Os três frequentaram, durante a maior parte do tempo, a metade inferior da tabela, mas, antes da pausa de inferno, já apresentavam diferenças. Enquanto o primeiro já sinaliza recuperação e o segundo ainda tropeça, mas se mantém fora da zona da degola, o último sinaliza que irá lutar até o último minuto contra a tragédia do rebaixamento.
A situação, se ainda não é desesperadora, inspira muito cuidado: em 17 partidas, o Stuttgart somou apenas 12 pontos, com três vitórias, três empates e onze derrotas. Como se isso não bastasse, o time teve ainda três técnicos: Christian Gross, que comandou uma reação espetacular na temporada passada, não aguentou os resultados negativos e deu lugar a Jens Keller, que também foi demitido. A responsabilidade de tirar o clube do buraco agora está nas mãos de Bruno Labbadia, que tem no currículo passagens recentes por Bayer Leverkusen e Hamburg.
Mesmo sem títulos ou grandes passagens em seu histórico, Labbadia foi muito bem recebido em seu novo clube. A torcida do Stuttgart entoou, nas arquibancadas do Mercedes-Benz Arena, o canto de “Bruno Labbadia, Ô ôôôô” (no ritmo de “Vamos a La Playa”) e apoiou o time todo na estreia do treinador na Bundesliga, contra o Bayern Munique. Todo esse incentivo, no entanto, não foi suficiente para impedir a goleada aplicada pelos bávaros por 5 a 3, que poderia ter sido ainda maior se os comandados de Louis van Gaal não tivessem relaxado no fim da partida.
Quatro dias depois, novo duelo entre as duas equipes em Stuttgart pela Copa da Alemanha, e, numa partida que teve uma história completamente oposta, o fim foi praticamente o mesmo: nova surra do Bayern, que dessa vez construiu a goleada por 6 a 3 no final da partida. O único alento dos Schwaben até agora é a campanha na Liga Europa: os 5 a 1 contra o Odense, na primeira partida de Labbadia, classificaram o time para os 16 avos de final da competição, mas o Benfica, adversário, é o favorito do confronto.
A queda de rendimento da equipe em relação à temporada passada certamente foi causada por vários fatores, e seria muito simplista atribuí-la somente à saída de Sami Khedira para o Real Madrid. O volante, que certamente era um dos pontos de equilíbrio do time, poderia ter tornado as coisas um pouco melhores, mas a equipe passa por um momento tão caótico que, em um exercício cretino de especulação, não seria nenhum absurdo supor que o hoje galáctico sucumbiria a esse mau momento.
O time todo não vem rendendo bem, e vive de alguns lampejos do trio formado por Cacau, Pavel Pogrebnyak e Christian Gentner. Em números absolutos, o ataque parece eficiente, com 32 gols em 17 jogos, mas é fácil observar que as estatísticas são mentirosa quando constatamos que metade desses gols foram marcados em apenas três partidas: 13 nas vitórias por 6 a 0 e 7 a 0 contra Werder Bremen e Borussia Mönchengladbach, e três no último confronto contra o Bayern Munique. A defesa, por sua vez, foi vazada 35 vezes e de maneira mais regular.
Os números atestam o péssimo desempenho da dupla defensiva formada por Serdar Tasci, que foi à Copa do Mundo com a seleção alemã, e Georg Niedermeier, que apesar de ser um dos artilheiros do time com quatro gols marcados, faz uma temporada sofrível. O lateral esquerdo italiano Cristian Molinaro, que chegou a ser disputado por outros clubes antes de acertar com o Stuttgart, também não vem correspondendo na função.
Quem parece se salvar um pouco do fracasso completo é o meia Christian Träsch, outro selecionável, que só não foi à Copa do Mundo por causa de uma lesão. O lateral marfinense Arthur Boka é outro que tem feito exibições razoáveis, assim como o meia Timo Gebhart. O melhor jogador da equipe na temporada é o atacante Julian Schieber, mas, emprestado ao Nürnberg, ele pouco pode fazer para melhorar a situação.
Os jogadores supracitados são competentes, mas estão longe de serem craques capazes de tirar, através da individualidade, o Stuttgart do abismo em que o clube se encontra no momento. Será necessário, portanto, um grande esforço coletivo nessa pausa de inverno para que essa situação mude e o clube não corra sérios riscos de cair para a segunda divisão. E cabe a Labbadia, como comandante desse processo, identificar os problemas e encontrar as soluções que possam, na medida do possível, levar o Stuttgart a uma situação menos desconfortável, mesmo com o elenco apenas mediano que possui.
Salvador da pátria?
Arjen Robben voltará ao time titular do Bayern Munique logo após a pausa de inverno, e a expectativa sobre o desempenho dele é grande, muito em função do que ele fez na temporada passada. O próprio holandês, porém, é bem cauteloso em relação ao seu retorno: “Não esperem milagres. Estou há seis meses sem jogar, e o meu retorno não resolverá todos os problemas do Bayern Munique”, afirmou recentemente ao site oficial do clube.
É certo, porém, que o retorno do meia traz ao técnico Louis van Gaal uma opção a mais. Com Robben, Ribéry e Thomas Müller em perfeitas condições físicas, os bávaros se tornam favoritos no confronto contra a cambaleante Internazionale pelas oitavas de final da Liga dos Campeões, além de forte candidatos ao posto de vice-campeões nacionais, já que o Borussia Dortmund disparou na tabela e só perde esse campeonato para ele mesmo.
Quem vem ganhando espaço no time é o ex-são paulino Breno, que tem atuado nas últimas partidas como titular, e, em que pese uma falha ou outra, tem se mostrado eficiente na função e conquistado a confiança de Louis van Gaal. A prova disso é que o outrora titular Martin Demichelis foi emprestado ao Málaga e Daniel Van Buyten, que foi humilhado por Diego Milito na final da Liga dos Campeões, tem ficado no banco de reservas em alguns jogos.
Se concretizada, a afirmação de Breno poderá levantar algumas discussões interessantes. Quem vaticinou o fracasso definitivo dele em função de uma primeira temporada ruim, terá de rever os próprios conceitos. E mais uma vez o dogma de que Van Gaal “odeia brasileiros” cairá por terra, embora muita gente ainda seja capaz de cair nesse clichê vagabundo.



