Bundesliga

Raio-X da história: Como Gerd Müller construiu o recorde em 71/72, suas marcas lendárias e a comparação com Lewa

Aproveitamos o recorde do final de semana para colocar os números em perspectiva e contar um pouco da trajetória de Gerd Müller, um dos melhores centroavantes de todos os tempos

Ao longo de 49 anos, um recorde da Bundesliga se sustentou com ares lendários: os 40 gols marcados por Gerd Müller na temporada 1971/72. Manter uma média de gols tão absurda para um campeonato de 34 partidas soava como algo praticamente irrepetível. Afinal, depois da Segunda Guerra Mundial, apenas seis jogadores tinham conseguido superar a marca de 40 gols numa das cinco grandes ligas da Europa: além de Müller, também Jimmy Greaves, Josip Skoblar, Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Luis Suárez – mas todos os outros cinco com mais oportunidades de entrar em campo. Se os três últimos tinham sido capazes de alcançar patamares inéditos na Espanha ao longo da última década, talvez fosse possível esperar por um fenômeno na Alemanha. E ele veio, com Robert Lewandowski. Neste sábado, o polonês fez história ao igualar os 40 gols de Der Bomber.

Lewandowski vinha ensaiando tal possibilidade há algum tempo. Em 2013/14, quando desfrutou de sua primeira artilharia pelo Dortmund, o centroavante chegou aos 20 gols. Repetiria o feito já no Bayern, com os 30 tentos de 2015/16. Já nas últimas três temporadas, foram três artilharia seguidas – um feito até então restrito, veja só, a Gerd Müller. Lewa fez 29 em 2017/18 e 22 em 2018/19. Em 2019/20, com seu ápice na Baviera, o matador parecia ir além. Registrou 34 gols e até especulou-se que poderia igualar o recorde, mas uma lesão no fim de fevereiro o barraria. Pois o craque conseguiu ir além em 2020/21, naquela que será a quarta artilharia consecutiva, algo inédito na Bundesliga.

O feito de Lewandowski é absurdo não apenas por pensar que ele se superou ou então que o próprio Bayern caiu de nível em relação à temporada passada. O mais impressionante é que nem mesmo as lesões foram capazes de brecá-lo. Quando o craque machucou o joelho na Data Fifa de março e precisou se ausentar por um mês, perdendo quatro compromissos, parecia que suas chances estavam em xeque. Só parecia, afinal, porque Lewa voltou com a mesma fome de gols e cumpriu a missão com uma rodada de antecedência, graças ao tento de pênalti diante do Freiburg. Seus 40 gols foram empilhados em somente em 28 aparições. Fica apenas na imaginação o que poderia ter conseguido com 34 partidas. No próximo final de semana, o polonês poderá se isolar no topo da história na rodada final contra o Augsburg. E ninguém duvida de seu potencial.

O mais legal foi o respeito demonstrado por Lewandowski a Gerd Müller. Em diferentes momentos, o polonês homenageou Der Bomber. Na ocasião do aniversário de 75 anos da lenda, em 2020, Lewa até confessou se inspirar no veterano: “O tamanho do que Gerd alcançou me motiva a trabalhar todos os dias para, ao menos, chegar um pouco mais perto de sua grandeza. Fique forte, Rei Gerd”. Há seis anos, a família revelou que Müller sofria com Mal de Alzheimer e, desde então, suas condições se deterioraram. Atualmente, o craque vive numa casa de repouso e não pôde comparecer à façanha de Lewandowski. Mas seu rosto esteve presente, estampado numa camiseta exibida pelo atual camisa 9. Uma reverência que fica a quem, para sempre, será parte da história.

Lewa homenageia Gerd Müller

Abaixo, aproveitamos a ocasião para relembrar como foi aquela temporada marcante de Gerd Müller e também para falar um pouco mais sobre o alemão, um dos melhores centroavantes da história do futebol.

O Gerd Müller antes de 1971/72

Gerd Müller nasceu em Nördlingen, uma cidadezinha de 20 mil habitantes na Baviera. Foi por lá que o atacante iniciou sua trajetória no futebol, nas categorias de base do 1861 Nördlingen. E não importava muito o tamanho de seu pequeno clube, porque o centroavante logo faria fama em todo o país. Em seu último ano nos juniores, Der Bomber anotou incríveis 180 gols, logo alçado como profissional. Já na equipe principal, foram não menos expressivos 51 gols em 31 aparições nas divisões regionais. O garoto gostava de atribuir tamanho sucesso à “salada de batatas que sua mãe fazia”, dando energia para dinamitar as redes. E não demorou para que os dois principais clubes de Munique, Bayern e 1860, voltassem seus olhares para o jovem fenômeno. Melhor para os alvirrubros, menos expressivos na época, mas que conseguiram atrair o rapaz de 18 anos para a equipe que começava a despontar na Regionalliga Süd.

Aquele Bayern já contava com Franz Beckenbauer e Sepp Maier, amigos de infância que transformavam a história do clube. Porém, não seria exagero dizer que Gerd Müller foi até mais importante para a ascensão dos bávaros na década de 1960. Algo que o próprio Kaiser admitiria. “Muitas vezes me perguntam sobre a importância de Gerd Müller ao Bayern e ao futebol alemão. E minha resposta é que o futebol tem muito a ver com gols. Você pode jogar bem, mas não vence sem gols. Gerd foi simplesmente a maior garantia de gols na história do futebol. Ele lançou o Bayern na esfera internacional, na qual o clube se encontra. Gerd é a origem. Na minha visão, Gerd é o jogador mais importante da história do Bayern”, afirmou Beckenbauer, em 2020.

Curiosamente, Gerd Müller ainda levou um tempo para convencer no Bayern. O físico atarracado e um tanto quanto rechonchudo não parecia ideal a um jogador de futebol. Não à toa, o técnico Zlatko Cajkovski, figura fundamental na ascensão dos alvirrubros, diria aos dirigentes: “O que vocês acham que eu farei com um levantador de pesos?”. Pois aquele jovem de pernas curtas e tronco largo pesava muito, mas em gols. Depois de dez partidas frequentando o banco por resistência do técnico, Gerd ganhou sua primeira chance. Marcou dois gols numa vitória sobre o Freiburg – anedoticamente o adversário no marco de Lewandowski. A partir de então, a fonte não mais secaria.

Gerd Müller ainda garoto, em 1967 (Foto: Imago / One Football)

O físico de Gerd Müller, aliás, enganava sobre suas virtudes. Mesmo sendo relativamente baixo (1,76 m) para o que se pensava de um centroavante e também por sempre parecer acima do peso, ele não indicava sua enorme capacidade na área. Der Bomber tinha uma explosão fantástica, que o permitia estar centésimos à frente dos zagueiros no tiro curto. Sua velocidade de raciocínio auxiliava ainda mais nestes estalos. O artilheiro, além do mais, dominava o espaço e tinha um equilíbrio corporal muito grande para seus giros e fintas curtas, bem como possuía ótima impulsão para prevalecer no jogo aéreo. Mas, mais importante, sabia se posicionar com perfeição e tinha uma finalização tão potente quanto precisa. Era o matador ideal, mesmo que a primeira impressão fizesse muitos desdenharem disso.

“O que ele fazia conosco também nos treinos era um insulto. Às vezes Schwarzenbeck e eu dizíamos que íamos jogar duro, até bater nele se necessário. Mas ainda não o pegávamos. Gerd continuava partindo sozinho ao gol. Se eu não visse Gerd de perto todos os dias, não teria acreditado”, contaria Beckenbauer. E se os companheiros sofriam com Gerd Müller nos treinos, certamente ficavam felizes por ter aquele craque ao lado a cada jogo. Afinal, foram anos a fio que Der Bomber fez miséria nas mais diferentes competições, mas sobretudo na Bundesliga.

A primeira temporada de Gerd Müller no Bayern aconteceu em 1964/65, na Regionalliga Süd, equivalente da época à segunda divisão. Em tempos nos quais os alvirrubros não eram a principal potência na Baviera, precisaram batalhar pelo acesso à Bundesliga. Na primeira tentativa, em 1963/64, o time perdeu para o Borussia Neunkirchen nos playoffs de promoção. A história mudou com a presença de Der Bomber. Gerd seria responsável por 33 dos fantásticos 164 gols anotados pelo Bayern naquela campanha de 1964/65. A equipe subiria à primeira divisão, onde não demorou para o centroavante se estabelecer entre os melhores do país.

Gerd Müller e a Bola de Ouro de 1970 (Foto: Imago / One Football)

Gerd Müller estreou na Bundesliga em 1965/66. Os 15 gols marcados naquela edição até parecem uma marca modesta, considerando o que viria pela frente. E, de fato, o ano de adaptação seria um ponto fora da curva em sua ascensão. Foram 28 tentos em 1966/67, terminando como artilheiro da Bundesliga pela primeira vez. Também foi o máximo goleador na conquista da Copa da Alemanha Ocidental de 1966/67 e assinalou oito gols em nove jogos para o título da Recopa Europeia, o primeiro internacional dos bávaros. Neste momento, o Bayern se estabelecia como uma das equipes mais fortes do país. Em 1967/68, Der Bomber caiu um pouco com 19 bolas nas redes pela liga. Mas se recuperou em 1968/69, com 30 gols em 30 partidas, que possibilitaram a conquista inédita da Bundesliga aos bávaros – em seu primeiro título alemão em quase quatro décadas.

A fama de Gerd Müller já se espalhava pela Europa. Não foi campeão da Bundesliga em 1969/70, mas emendou a segunda artilharia consecutiva, a terceira de sua carreira. Empilhou 38 gols em 33 aparições, que também renderam sua primeira Chuteira de Ouro, como maior goleador das ligas europeias. Der Bomber chegou tinindo na Copa do Mundo de 1970 e sairia do México também como artilheiro, acumulando 10 tentos na campanha até as semifinais. A fase era tão impressionante que o rapaz de 25 anos também levou para casa a Bola de Ouro, a única de sua carreira.

Apesar da badalação, Gerd Müller interrompeu sua sequência de artilharias na Bundesliga 1970/71. O centroavante marcou 22 gols em 32 jogos, numa campanha em que o Bayern voltou a ficar atrás do Borussia Mönchengladbach no topo da classificação. O prêmio de consolação ficaria com a artilharia da Copa da Alemanha Ocidental, somando 10 gols em sete partidas, tornando-se o máximo goleador do certame pela terceira vez nas últimas cinco edições – com quatro títulos dos seis últimos disputados. Aquela temporada com números mais contidos indicaria que Der Bomber não era sempre arrasador. E por isso mesmo, valorizaria ainda mais o que viria a seguir.

A Bundesliga de 1971/72

Dirigido por Udo Lattek desde março de 1970, o Bayern de Munique entrou na Bundesliga de 1971/72 como principal candidato a desbancar o bicampeão Borussia Mönchengladbach. O maior esquadrão bávaro de todos os tempos estava montado com Sepp Maier, Franz Beckenbauer, Georg Schwarzenbeck, Paul Breitner, Franz Roth e Uli Hoeness formando a espinha dorsal. Exceção feita a Maier, todos os outros não passavam dos 25 anos, o que ainda dava garantias de continuidade. E ninguém seria tão decisivo naquela campanha, que iniciaria o primeiro tricampeonato nacional do Bayern, do que Gerd Müller.

Der Bomber até começou a campanha de maneira econômica. Nas primeiras cinco rodadas, só marcou um gol, num empate por 2 a 2 contra o Hertha Berlim. Depois de uma enfiada de Breitner, Müller se meteu entre os zagueiros e bateu de primeira para decretar o placar final na capital. Curiosamente, aquele seria um momento mais garçom do centroavante. Deu uma assistência nos 3 a 1 sobre o Fortuna Düsseldorf e emplacou três passes para gol nos 4 a 1 em cima do Eintracht Braunschweig. Aquela largada também seria importante aos bávaros, que deram provas de sua capacidade de almejar a Salva de Prata com o triunfo por 2 a 0 sobre o Gladbach no Estádio Grünwalder – onde a equipe mandava suas partidas antes da inauguração do Olympiastadion. Roth e Hoeness fizeram os gols.

Gerd Müller marcou seu segundo gol apenas na sexta rodada, nos 2 a 0 contra o Kaiserslautern. Foi uma pintura, aliás, ao entortar o marcador e dar um toquinho sobre o goleiro. O terceiro saiu no compromisso seguinte, numa cabeçada que garantiu o empate por 1 a 1 contra o Arminia Bielefeld. Depois, seriam mais dois jogos de seca, o que não impedia o Bayern de sustentar sua invencibilidade, com cinco vitórias nos primeiros nove jogos.

A ascensão do Bayern ao topo da tabela coincidiu com o primeiro momento arrasador de Gerd Müller naquele campeonato. Foram oito gols nas quatro partidas seguintes. Começou calmo, com um tento nos 2 a 1 sobre o Werder Bremen. Depois, vieram dois gols nos 3 a 1 diante do Hannover 96, com direito a um de peixinho. No duelo com o Duisburg, Der Bomber contribuiu com duas bolas nas redes e uma assistência na goleada por 5 a 1. Foi um jogo em que infernizou os defensores com seus dribles curtos e marcou até deixando o goleiro no chão. Aquele resultado permitiu que os bávaros assumissem a liderança da Bundesliga após 12 partidas, ultrapassando o Schalke 04.

Gerd Müller e sua clássica comemoração, com os braços erguidos (Foto: Imago / One Football)

Já no 13° compromisso, Gerd Müller teve uma de suas atuações mais incríveis. Assinalou a sua primeira tripleta naquela edição do campeonato, conduzindo os 4 a 1 para cima do Hamburgo no Volksparkstadion. Foram dois gols de rebote, mas outro sensacional. Mesmo cercado por três adversários, o camisa 9 deu um corte para dentro e achou o espaço para mandar uma pancada de canhota, no cantinho do goleiro. Müller passou em branco no empate por 1 a 1 contra o Colônia e seus dois tentos não adiantaram para evitar a derrota nos 3 a 2 sofridos na visita ao Eintracht Frankfurt, no primeiro revés dos bávaros na campanha. Tal tropeço derrubou o time de Udo Lattek para a vice-liderança, ultrapassado novamente pelo Schalke.

O resultado pareceu provocar a fúria de Gerd Müller no próximo jogo. Pobre do Borussia Dortmund, que até havia vivido uma década de 1960 gloriosa, mas atravessava um momento de queda a partir dos anos 1970. Der Bomber anotou nada menos que quatro gols, num placar impiedoso de 11 a 1, o maior da história do confronto. O oportunismo foi evidente naquela noite em Grünwalder, punindo cada mínima brecha na defesa aurinegra. O artilheiro ainda contribuiu com uma assistência no massacre, que teve dois tentos de Franz Roth e dois de Uli Hoeness. Já na rodada final do primeiro turno, o Bayern fez a visita ao Schalke para definir a liderança. Perdeu por 1 a 0 em Gelsenkirchen, o que permitiu aos Azuis Reais abrirem três pontos de vantagem no topo da tabela. Àquela altura, Gerd já sobrava na artilharia, com 17 gols nas primeiras 17 aparições.

Gerd Müller voltou da pausa de inverno confirmando a vitória por 1 a 0 sobre o Fortuna Düsseldorf. O desempenho do matador, no entanto, oscilou no início do returno. Não balançou as redes contra Hertha, Braunschweig e Gladbach. Em compensação, meteu cinco diante do Oberhausen, numa goleada por 7 a 0 do Bayern. Aquela seria a primeira das quatro oportunidades em que Gerd assinalou cinco gols numa mesma partida de Bundesliga. Na carreira, registrou oito vezes a marca cinco tentos pelo clube. Ao mesmo tempo, os bávaros também se recuperavam na tabela, com uma nova série invicta na Bundesliga.

A partir de março de 1972, de novo, um grande momento de Gerd Müller impulsionou o Bayern. O centroavante faria mais 11 gols nos cinco jogos seguintes, numa série de cinco triunfos dos bávaros. O time tomaria a liderança do Schalke e não sairia mais de lá. A bonança começou com dois tentos nos 3 a 1 diante do Kaiserslautern. Depois, veio o gol solitário no 1 a 0 contra o Arminia Bielefeld. O Bochum sofreu mais uma tripleta do artilheiro nos 5 a 1 registrados pelo Bayern. Também seriam dois nos 4 a 1 em cima do Stuttgart e três nos 6 a 2 aplicados no Werder Bremen. Os gols saíam de todos os jeitos: de cabeça, de canhota, dando carrinho, aproveitando rebotes. A esta altura, com 27 rodadas realizadas, Der Bomber contabilizava 34 tentos. Já era a segunda melhor marca da carreira até então.

Contra o Hannover, Gerd Müller não deixou sua marca, mas deu duas assistências na vitória por 3 a 1. E logo depois o Bayern sofreu sua terceira derrota na campanha, os 3 a 0 diante do modesto Duisburg. O resultado surpreendente, ainda assim, não custou a liderança. O Schalke até igualou os 45 pontos dos bávaros naquele momento, mas o time de Udo Lattek levava a melhor no saldo de gols. Numa corrida tão apertada, os gols de Gerd seriam mais importantes na reta final. Pois ele faria miséria nas últimas cinco partidas.

Gerd Müller e Eusébio, ganhadores da Chuteira de Ouro em anos consecutivos (Foto: Imago / One Football)

Começou nos 4 a 3 sobre o Hamburgo, num resultado garantido só aos 45 do segundo tempo. Gerd faria dois gols, daria uma assistência e ainda sofreu o pênalti que permitiu a Franz Roth converter o tento decisivo. Depois, nos 4 a 1 sobre o Colônia, o camisa 9 deu sua forcinha com gol e assistência. Outro chocolate aplicado em Grünwalder ocorreu nos 6 a 3 diante do Eintracht Frankfurt. Müller assinalou uma nova tripleta (na sexta oportunidade na temporada em que balançou as redes pelo menos três vezes) e entregou duas assistências aos companheiros. Já na penúltima rodada, o herói foi Franz Krauthausen, no 1 a 0 durante a visita ao Dortmund.

A última rodada, por fim, previa o reencontro com o Schalke 04. Os Azuis Reais chegaram a Munique com três vitórias e um empate nas quatro partidas anteriores, o que permitiu ao Bayern abrir um ponto de diferença na liderança. Um empate já seria suficiente em Grünwalder, mas os bávaros fariam muito mais que isso. Apesar do bom time do Schalke (com Klaus Fischer, Stan Libuda, Klaus Fichtel e outros jogadores de seleção), os anfitriões não tomaram conhecimento dos visitantes: golearam por 5 a 1. Gerd Müller não fez seu gol no jogo do título. Seriam dele, todavia, as assistências para o segundo e para o terceiro tento. E sua estrela, de qualquer forma, estava bastante expressa naquela campanha.

O Bayern fechou a Bundesliga 1971/72 com 101 gols anotados, uma marca que permanece como a maior da história da competição – um a mais que em 2019/20, quando o time chegou mais próximo de batê-la. Gerd Müller teve participação direta em nada menos que 57 desses tentos, com os 40 gols feitos e também com impressionantes 17 assistências. Aquela foi sua temporada mais artilheira, mas também a maior como garçom, liderando o campeonato em ambas as estatísticas. Para se ter uma ideia, Hans Walitza terminou como vice-artilheiro, contabilizando 23 gols pelo Bochum. Já Uli Hoeness foi o segundo somando gols e assistências, mas não passou dos 29 entre os que marcou e os que assistiu.

E um detalhe mais sensacional na façanha de Gerd Müller: o atacante não marcou um gol sequer de pênalti. Na época, o cobrador oficial do time era Franz Roth. Foram quatro tentos do meio-campista na marca da cal. Lewandowski, vale lembrar, fez oito de seus 40 batendo penais. Seria assim, aliás, que superaria Gerd. Com bola rolando ou somando também as assistências, a lenda permanece intocável. E, desta maneira, parece difícil acreditar que alguém chegará tão longe quanto ele.

Outras grandes marcas de Gerd Müller

Gerd Müller partiu com o moral altíssimo para a Eurocopa de 1972. E a Alemanha Ocidental conquistou o inédito título continental com grande papel do artilheiro. Der Bomber já tinha marcado seis gols em seis aparições nas etapas classificatórias do torneio – ajudando a Mannschaft a despachar adversários duros, como a Polônia e a Inglaterra. Já na fase final, foram dois tentos na semifinal contra a Bélgica e mais dois na decisão contra a União Soviética. Como era de se imaginar, o craque foi o artilheiro e terminou na seleção do campeonato. Ficou apenas dois pontos atrás de Beckenbauer na eleição da Bola de Ouro, mas levou sua segunda Chuteira de Ouro para casa. Vale lembrar ainda que Gerd terminou o ano de 1972 com 85 gols, outro recorde que só seria derrubado em 2012, por Messi.

O Bayern foi tricampeão alemão entre 1971/72 e 1973/74. Gerd Müller foi três vezes artilheiro, com 36 tentos na campanha do bi e 30 na campanha do tri. Depois disso, os bávaros perderiam forças na Bundesliga, numa época dominada pelo Gladbach e na qual também passaram a priorizar a Champions. Mesmo assim, Der Bomber faria pelo menos 23 gols nas quatro campanhas seguintes e seria artilheiro outra vez com os 24 tentos de 1977/78. Seria a sétima e última artilharia da lenda no campeonato. Somente em 1978/79, em sua última temporada na Baviera, ele não chegou aos dois dígitos. Foram nove gols em 19 partidas, arrumando as malas no meio da campanha para o Fort Lauderdale Strikers, da NASL.

Na história da Bundesliga, quem mais se aproxima das sete artilharias de Gerd Müller é Lewandowski, que registra sua sexta nesta temporada. De resto, nenhum outro jogador passa de três. Além disso, somando todas as outras cinco grandes ligas europeias, apenas Lionel Messi possui sete artilharias em seu currículo – e deve registrar a oitava nesta temporada, superando um recorde do alemão que durou por 43 anos. Cristiano Ronaldo, por exemplo, deve chegar à quinta nesta Serie A. Telmo Zarra e Jimmy Greaves têm seis cada. Na Itália (Gunnar Nordahl) e na França (Carlos Bianchi, Delio Onnis, Jean-Pierre Papin) os recordistas contabilizam cinco cada. Em Portugal, Eusébio tem sete.

Gerd Müller e a taça da Champions de 1973/74 (Foto: Imago / One Football)

De 1965/66 a 1978/79, enquanto Gerd Müller esteve ativo na Bundesliga, apenas três jogadores atingiram a barreira dos 30 gols: Lothar Emmerich, que conseguiu 31 tentos pelo Dortmund em 1965/66; Jupp Heynckes, com 30 pelo Gladbach em 1973/74; e Dieter Müller, com 34 pelo Colônia em 1976/77. Uwe Seeler também tinha registrado na edição inaugural da liga, com 30 tentos em 1963/64. Sozinho, Der Bomber repetiu tal feito em cinco oportunidades distintas. E, depois disso, somente Lewandowski (quatro vezes) e Pierre-Emerick Aubameyang (com os 31 de 2016/17) atingiram este ápice.

Gerd Müller contabiliza 365 gols totais pela Bundesliga, em 427 jogos com o Bayern. É o maior artilheiro da história da liga, com 89 tentos a mais que Lewandowski, o segundo colocado com 276. Sua média também é a maior entre os jogadores que passaram da marca centenária na Alemanha, com 0,85 gols por jogo. Na história das cinco grandes ligas, somente Cristiano Ronaldo, Messi e Jimmy Greaves possuem números totais superiores. Todavia, o português e o inglês ainda têm médias inferiores à do alemão.

E não que Gerd Müller se restringisse à Bundesliga. Pelo contrário, ele atacava em outras frentes. Em 1972/73, Der Bomber foi pela primeira vez artilheiro da Champions. Assinalou expressivos 11 gols em seis aparições. Até então, só José Altafini ‘Mazzola’ (14) e Ferenc Puskás (12) tinham feito mais gols numa única edição da competição. Levou 30 anos para a marca ser superada outra vez, com os 12 tentos de Ruud van Nistelrooy em 2002/03. E ainda que Messi e Cristiano Ronaldo tenham banalizado os dois dígitos de gols numa edição da LC ao longo da última década, foi somente em 2019/20 que Robert Lewandowski quebrou este recorde do Bayern, com os 15 gols que tanto ajudaram o novo título.

Gerd Müller e o troféu do Mundial de 1974 (Foto: Imago / One Football)

Gerd Müller conquistou a Champions pela primeira vez em 1973/74, quando novamente foi artilheiro, com oito gols marcados – incluindo dois no jogo-desempate da decisão contra o Atlético de Madrid. Repetiria a dose como bicampeão e goleador pelo terceiro ano consecutivo em 1974/75, marcando mais um na final contra o Leeds, num total de cinco tentos do matador. E se não deu para levar a artilharia no ano do tri em 1975/76 (um gol atrás do companheiro de seleção Jupp Heynckes), foi possível ser outra vez artilheiro da Champions em 1976/77, mesmo sem taça.

Com quatro artilharias de Champions, Gerd Müller só possui menos que Cristiano Ronaldo (7) e Messi (6). Além disso, as três vezes em que foi artilheiro de forma consecutiva são um recorde no formato antigo da competição, igualado a Jean-Pierre Papin – e depois repetido por Cristiano Ronaldo, bem como superado por Messi. O alemão aparece atualmente como o 20° maior goleador da Champions, com 34 gols em 35 partidas. Sua média é a melhor entre os jogadores que balançaram as redes 21 ou mais vezes. Só Erling Braut Haaland parece disposto a superar os 0,97 tentos por jogo de Der Bomber.

Por fim, não dá para ignorar os feitos de Gerd Müller pela seleção. Se em 1970 ele foi artilheiro, em 1974 ele acabou como campeão do mundo, com quatro gols. Fez o tento que garantiu o título de virada em cima da Holanda, por 2 a 1, e também o que valeu a vaga na final, com o 1 a 0 sobre a Polônia. Seus 14 gols em 13 partidas o mantém como terceiro maior goleador dos Mundiais. No total pela Mannschaft, foram 68 gols em 62 partidas, ultrapassado apenas por Miroslav Klose como máximo artilheiro – e o camisa 11, ainda assim, precisou de 129 jogos para atingir tal sarrafo, terminando com 71 em 136 aparições. Dos 66 jogadores que anotaram pelo menos 50 gols ou mais por suas seleções na história, apenas o dinamarquês Poul Nielsen e o húngaro Sándor Kocsis possuem médias superiores à de Gerd Müller.

A comparação dos números

E se Lewandowski conseguiu superar Gerd Müller, tal façanha ganha mais valor por tudo o que Der Bomber fez na carreira. O mais impressionante é como, de suas 28 aparições, o polonês só passou em branco em quatro oportunidades – contra 15 jogos sem marcar de Gerd na sua campanha de 49 anos atrás. Abaixo, um breve comparativo de alguns números do alemão na Bundesliga 1971/72 com o polonês em 2020/21.

Total de gols: Müller 40 / Lewa 40
Partidas: Müller 34 / Lewa 28
Média de gols por jogo: Müller 1,17 / Lewa 1,42
Minutos por cada gol: Müller 76,5 / Lewa 59,3
Assistências: Müller 17 / Lewa 7
Gols com bola rolando: Müller 40 / Lewa 32
Gols de pênalti: Müller 0 / Lewa 8
Percentual dos gols do time: Müller 40% / Lewa 43%
Participação nos gols do time (com assistências): Müller 56% / Lewa 50%
Gols no primeiro turno: Müller 17 / Lewa 22
Gols no segundo turno: Müller 23 / Lewa 18
Gols como mandante: Müller 25 / Lewa 26
Gols como visitante: Müller 15 / Lewa 14
Jogos com três ou mais gols anotados: Müller 6 / Lewa 5
Jogos sem marcar (estando em campo): Müller 15 / Lewa 4
Jogos que não disputou na campanha: Müller 0 / Lewa 5

A progressão comparada entre Gerd Müller e Lewandowski (Fonte: Vizzlo)

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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