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A Recopa de 1967, o título que forjou a geração dourada do Bayern e antecedeu até mesmo o domínio na Bundesliga

O Bayern de Munique tentará conquistar em Lisboa seu sexto título na Champions League. A equipe tricampeã continental nos anos 1970, capitaneada por Franz Beckenbauer e com os gols aos montes de Gerd Müller, estabeleceu a grandeza dos bávaros. No entanto, há outra taça europeia que serve de “mito fundador” a esse time temível além das fronteiras: a Recopa de 1966/67. Em decisão contra o Rangers, o Bayern assegurou o primeiro troféu maiúsculo de sua geração dourada, consagrando-se antes mesmo da primeira conquista na Bundesliga. Um marco no passado bávaro que precisa ser lembrado além das façanhas na Champions.

Campeão alemão em 1932, o Bayern veria seu maior momento na primeira metade do século rapidamente ser destruído pelo nazismo. O clube concentrava a comunidade judaica de Munique e diversos membros passaram a ser perseguidos, num desmantelamento da instituição. A reconstrução aconteceria aos poucos após o fim da Segunda Guerra Mundial e, na década de 1950, o Bayern fazia campanhas modestas. A conquista da Copa da Alemanha em 1958 foi um ponto fora da curva. Em tempos regionalizados do Campeonato Alemão Ocidental, os bávaros chegaram a ser rebaixados, mas logo voltaram à elite e dariam sinais de melhora sobretudo no início dos anos 1960.

De qualquer maneira, a ausência do Bayern na primeira edição da Bundesliga foi compreensível. O clube ficou abaixo de Munique 1860 e Nuremberg na liga regional, precisando disputar a segundona na temporada inaugural da liga nacionalizada, em 1963/64. O acesso viria na segunda tentativa, com uma geração que não demorou a apresentar o seu potencial. Os bávaros estrearam na Bundesliga em 1965/66, mesmo ano em que reconquistaram a Copa da Alemanha. Venceram a decisão contra o Meidericher, rebatizado posteriormente como Duisburg, por 4 a 2.

O Bayern comemora o título da Recopa, com a taça nas mãos do técnico Cajkovski (Foto: Imago/One Football)

O sucesso levaria à Copa de 1966 dois jogadores do Bayern: os novatos Sepp Maier e Franz Beckenbauer, amigos de longa data desde a adolescência na Baviera. Da mesma turma ainda surgia Gerd Müller, que não demorou a apresentar um faro de gols apuradíssimo, embora não tenha sido levado por Helmut Schön ao Mundial da Inglaterra. Naquele momento, o trio não passava dos 22 anos. Seriam os pilares da construção de um esquadrão, pronto não apenas para chegar ao topo da Alemanha Ocidental, como também para gerar outros tantos frutos na Europa.

Terceiro colocado na Bundesliga de 1965/66, o Bayern acabava eclipsado por seu maior rival. O Munique 1860 era a força da Baviera naqueles tempos e levou a Salva de Prata. Os Leões também haviam conquistado a Copa da Alemanha dois anos antes e, em 1964/65, perderam a decisão da Recopa Europeia para um timaço do West Ham – com Bobby Moore, Geoff Hurst e Martin Peters formando a espinha dorsal, antes de integrarem a Inglaterra campeã do mundo. O Bayern participaria da mesma Recopa, vencida ainda em 1966 pelo Borussia Dortmund contra o Liverpool, naquele que foi o primeiro título europeu de um clube da Alemanha Ocidental.

O Bayern de 1966/67 via suas certezas aumentarem com a ascensão de seus craques. Sepp Maier ganhava moral como um dos melhores goleiros do país. Franz Beckenbauer vinha de uma Copa do Mundo estupenda e brilhava no sistema defensivo, com sua qualidade para sair jogando. Além disso, Gerd Müller faria sua primeira temporada realmente avassaladora, com 43 gols em 45 partidas disputadas – faturando a primeira de suas sete artilharias na Bundesliga. A eles se juntavam outros garotos que surgiam, como Georg Schwarzenbeck na defesa e Franz Roth no meio-campo. Seriam mais dois que acompanhariam todo o sucesso dos bávaros a partir de então. Já Dieter Brenninger, embora não tenha ficado às glórias dos anos 1970, contribuía à fome de gols na frente.

John Greig e Werner Olk, os capitães de Rangers e Bayern na final (Foto: Imago/One Football)

Entre os mais experientes, Hans Nowak chegou para a lateral em 1965, após disputar a Copa do Mundo com a seleção alemã-ocidental em 1962. A grande liderança da defesa, ainda assim, era Werner Olk. Trazido do Arminia Hannover em 1960, o capitão foi uma bandeira e um exemplo naquele momento de transição. Já no ataque, os gols de Rainer Ohlhauser também eram essenciais e ele inclusive terminaria a Copa da Alemanha de 1965/66 como um dos artilheiros do torneio. A montagem da equipe tinha méritos de Zlatko Cajkovski, antigo protagonista da seleção iugoslava que não demorou a emplacar na carreira como treinador.

Cajkovski viveu seu auge com a camisa do Partizan Belgrado, mas atuaria pelo Colônia no final da carreira, onde se tornou pupilo do lendário Hennes Weisweiler, então treinador dos Bodes. O clube alemão também abriria as portas a seus primórdios como técnico, participando da conquista do Campeonato Alemão em 1962. E seria a Cajkovski que o Bayern confiaria seu projeto ainda na segunda divisão, apostando na visão do iugoslavo para transformar o clube. O treinador é o responsável não apenas por lançar tantos pratas da casa e dar espaço a jovens talentos. Ele iniciaria as bases do que se firmaria como identidade dos bávaros, com uma defesa firme e um ataque voraz.

O Bayern não começou bem a Bundesliga 1966/67 e, com apenas duas vitórias nas primeiras oito rodadas, a equipe chegou a ficar uma posição acima da zona de rebaixamento. Assim, os esforços se concentrariam nas copas. A estreia na Recopa aconteceu diante do Tatran Presov, vice-campeão da Copa da Tchecoslováquia que herdou a vaga por causa da dobradinha nacional do Dukla Praga. O Bayern começou o confronto com um empate por 1 a 1 fora de casa, garantido por Franz Roth. E a classificação se confirmaria no Estádio Grünwalder, casa dos bávaros na época, com o triunfo por 3 a 2. Brenninger abriu o placar, antes que os tchecoslovacos buscassem o empate no segundo tempo. Então, Gerd Müller assinalou dois gols e tranquilizou a situação, com os visitantes só descontando no fim.

Beckenbauer é carregado nos braços com o troféu da Recopa (Foto: Imago/One Football)

O Bayern avançou às oitavas e mediu forças com o Shamrock Rovers, representante da Irlanda. De novo os bávaros apenas empataram na ida fora de casa, com o meio-campista Dieter Koulmann balançando as redes no 1 a 1 de Dublin. E a volta contou com um triunfo apertado dos alemães, em outro 3 a 2. Brenninger e Ohlhauser abriram dois gols de vantagem com oito minutos. No início do segundo tempo, o Shamrock Rovers buscou a igualdade. O herói seria Gerd Müller, com o tento de classificação aos 41 do segundo tempo. E o sarrafo aumentaria com o duelo diante do Rapid Viena, treinado na época por Rudolf Vytlacil – que comandara a Bulgária na Copa do Mundo de 1966.

O Bayern sofreu sua primeira (e única) derrota na campanha durante a visita ao Praterstadion. August Starek, meio-campista da seleção austríaca e que atuaria no próprio clube alemão pouco depois, garantiu o triunfo por 1 a 0 ao Rapid. A força dos bávaros se evidenciaria ao conseguirem reverter a situação em Grundwälder. Aos 14 minutos do segundo tempo, Ohlhauser garantiu a sobrevida ao seu time com o gol que valeu o troco da ida. O duelo precisou adentrar na prorrogação e, pela terceira fase consecutiva, Gerd Müller se incumbiria de salvar o time e colocá-lo na próxima fase. O tento do Panzer nos 2 a 0 saiu logo no primeiro minuto do segundo tempo extra.

A semifinal sugeria um adversário perigoso, no encontro com o Standard de Liège treinado por Milorad Pavic, treinador que acumulou títulos com o Estrela Vermelha. Craque da Iugoslávia nos anos 1960, Milan Galic comandava o ataque dos belgas, acompanhado por Roger Claessen, nome importante da seleção local. Os alvirrubros ainda tinham à disposição o brasileiro Germano, irmão mais velho de Fio Maravilha, que também começou no Flamengo – passando por Milan, Genoa e Palmeiras antes de desembarcar em Liège. O Bayern não tomou conhecimento desta qualidade e, confiante, eliminou os oponentes com duas vitórias. Gerd Müller e Peter Kupferschmidt anotaram os gols dos 2 a 0 em Munique com apenas dez minutos. Já na Bélgica, Galic até fez o seu, mas o triunfo por 3 a 1 veio com tripleta de Müller.

O Bayern alinhado na final da Recopa (Foto: Imago/WEREK/One Football)

O oponente do Bayern na decisão era o Rangers, numa temporada mágica ao futebol escocês, com o Celtic também alcançando a final da Champions. Os Teddy Bears foram os responsáveis por encerrar o sonho do bicampeonato no Borussia Dortmund, eliminando os aurinegros nas oitavas de final. Também superaram Glentoran, Zaragoza e Slavia Sofia – com a curiosa classificação diante dos espanhóis decidida na moedinha, após uma vitória por 2 a 0 para cada lado e a prorrogação sem gols na volta.

A equipe era dirigida por Scot Symon, comandante do clube desde 1954 e grande rival de Jock Stein pela hegemonia na Escócia. Nomes como Sandy Jardine, Ronnie McKinnon e Willie Henderson eram frequentes na seleção escocesa. O protagonismo, de qualquer forma, recaía a John Greig e Willie Johnston. Greig nunca vestiu outra camisa na vida e foi eleito o melhor jogador dos Gers no século. Era o capitão e o coração da defesa. Johnston, por sua vez, era um jovem ponta esquerda e garantia a qualidade no setor ofensivo. Recuperou-se de uma fratura naquela temporada para entrar em campo na final. Uma novidade foi o uso do zagueiro Roger Hynd como atacante, no lugar de Alex Willoughby.

Por mais que a torcida escocesa tenha promovido uma invasão, o Bayern jogava praticamente em casa: a decisão aconteceu ali pertinho, na Baviera, dentro do Estádio Städtisches – a casa do Nuremberg. Além disso, os ventos sopravam a favor. O Rangers entrou em campo pressionado, seis dias depois que o Celtic havia faturado a Champions e levado o troféu continental ao Reino Unido. Já o Bayern, apesar do sexto lugar na Bundesliga, avançara à decisão da Copa da Alemanha mais uma vez. O triunfo na semifinal aconteceu no clássico diante do Munique 1860, com vitória dos alvirrubros por 3 a 1 – com dois gols de Ohlhauser.

Beckenbauer e Maier em ação contra o Rangers (Keystone/Hulton Archive/Getty Images/One Football)

A decisão em Nuremberg veria dois times pautados na defesa. O Rangers foi melhor durante o primeiro tempo, enquanto o Bayern melhorou e tomou o controle na segunda etapa. Ainda assim, os principais lances no tempo normal foram do improvisado Roger Hynd, que teve um tento bem anulado por falta no goleiro e ainda perdeu grande oportunidade após passe de Dave Smith – num lance em que já ia comemorando o tento, até Maier fazer a defesa milagrosa. Beckenbauer era outro que sobrava em campo, com atuação muito segura.

O empate prevaleceu ao fim do tempo regulamentar e forçou a prorrogação. Então, o homem do título seria um dos garotos lapidados por Cajkovski: o meia Franz Roth. Aos 14 minutos do primeiro tempo extra, Ohlhauser deu um lindo lançamento e o jovem emendou uma finalização acrobática, encobrindo o goleiro Norrie Martin. Ao apito final, uma multidão invadiu o campo pra celebrar o feito.

“A bola veio tão alta para mim que o goleiro saiu em minha direção. No momento em que o zagueiro quase me derrubou, tentei bater por cima do goleiro. Ele não conseguiu pegar e o chute passou por baixo do travessão. Foi fantástico! Deixei o troféu durante toda a noite na cabeceira da minha cama e passei a madrugada o admirando. A madrugada inteira…”, recontaria Roth, à Deutsche Welle, anos depois.

Roth e o arremate que rendeu o título ao Bayern (Foto: Imago/One Football)

A temporada terminaria ainda mais positiva ao Bayern de Munique. O clube conquistou o bicampeonato da Copa da Alemanha, em decisão contra o Hamburgo de Uwe Seeler. E aquela partida no Neckarstadion seria determinante para mostrar quem era o novo melhor atacante do país: Gerd Müller fez dois gols, com Ohlhauser e Brenninger completando a goleada por 4 a 0. O Panzer também foi artilheiro da Pokal, com sete tentos. Só não seria mesmo o goleador da Recopa, apesar dos oito gols em nove partidas – acabou atrás de Roger Claessen, que havia maltratado os adversários nas fases iniciais, com dez bolas nas redes.

Na temporada seguinte, o Bayern passou em branco. Foi quinto colocado na Bundesliga e semifinalista na Copa da Alemanha. Também repetiu as semifinais na Recopa, eliminado por um fortíssimo time do Milan. Aquelas campanhas marcaram o fim do ciclo de Cajkovski à frente dos bávaros, após cinco anos na casamata. Seria substituído na temporada seguinte por Branko Zebec, seu antigo companheiro na seleção iugoslava, que reforçou a identidade da equipe e revolucionou os métodos de treinamento. Com um preparo físico melhor, os alvirrubros fizeram sua geração fantástica evoluir ainda mais. Logo na primeira temporada sob as ordens do novo comandante, o clube levou a dobradinha nacional, com seu primeiro título na era Bundesliga. O primeiro de muitos.

Franz Roth e o troféu da Recopa, numa homenagem aos veteranos 50 anos depois (Sebastian Widmann/Bongarts/Getty Images/One Football)

O Bayern faturou quatro títulos da Bundesliga entre 1969 e 1974, além de ter acabado com dois vices e com dois troféus na Copa da Alemanha. Já a partir de 1973/74, emendaria o tricampeonato na Champions – sob as ordens de Udo Lattek e Dettmar Cramer. Maier, Beckenbauer, Schwarzenbeck, Roth e Müller foram não apenas titulares em todas as três finais, como também assumiram papéis de protagonistas. Schwarzenbeck anotou o gol que forçou o jogo extra contra o Atlético de Madrid em 1974, antes que Müller destruísse os colchoneros ao lado de Uli Hoeness nos 4 a 0 definitivos. Em 1975, Müller e Roth balançaram as redes no triunfo sobre o Leeds por 2 a 0. Por fim, Roth também selou o tri com um tirambaço no 1 a 0 sobre o Saint-Étienne.

Neste momento, o Bayern carregava uma mística como o melhor time da Europa. Ao mesmo tempo, esses jogadores elevaram seus nomes com a participação nos títulos da seleção alemã-ocidental – a Euro 1972 e a Copa do Mundo de 1974, embora Roth fosse ausência em ambas as competições. A partir de então, renovando-se periodicamente e encontrando novos craques, o Bayern não saiu mais do topo na Alemanha. E aquela Recopa de 1967 tem muito a ver com a formação de um clube tão poderoso.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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