Bundesliga

Promessa do Flamengo, Kauã Santos será um raro goleiro brasileiro na Bundesliga

Kauã Santos se destacou nos juniores do Flamengo e o Eintracht Frankfurt não quis esperar para contratá-lo, transformando o garoto no segundo goleiro brasileiro na história da Bundesliga

O futebol brasileiro possui uma presença marcante na história da Bundesliga. Nada menos que 164 jogadores nascidos no Brasil atuaram na primeira divisão do Campeonato Alemão durante os últimos 60 anos. A lista de ídolos inclui nomes como Zé Roberto, Dedê, Naldo, Rafinha, Élber, Lúcio, Aílton, Grafite, Marcelinho Paraíba, Cacau e tantos outros. Entretanto, raríssimos são os goleiros brasileiros que se aventuraram na Bundesliga. Gomes é uma raríssima exceção, e nem deixou saudades, com apenas nove partidas disputadas pelo Hoffenheim num curto empréstimo. Já nesta terça-feira, o garoto Kauã Santos se tornou o segundo arqueiro brasileiro da história do Campeonato Alemão. A promessa do Flamengo e da seleção sub-20 ganhará uma chance de se aprimorar no Eintracht Frankfurt.

Kauã Santos não chegou a estrear pelo Flamengo. No máximo, frequentou o banco de reservas em raras ocasiões. O garoto também não entrou em campo pela seleção de juniores, reserva durante as campanhas no Sul-Americano Sub-20 e no Mundial Sub-20. Ainda assim, os olheiros do Eintracht Frankfurt identificaram o potencial do rubro-negro especialmente pelos feitos com o sub-20 do Flamengo. As Águias optaram por não esperar a ascensão do jovem como profissional para levá-lo à Alemanha.

O Eintracht Frankfurt acertou a contratação de Kauã Santos por €1,6 milhão. O garoto natural de Vassouras assinou com o novo clube por cinco anos. O Flamengo ainda preserva 30% dos direitos do arqueiro em caso de uma venda futura. Kauã Santos se torna o segundo goleiro mais caro já vendido pelo Flamengo, abaixo apenas da saída de Júlio César rumo à Internazionale em 2004/05. O novato vira também o sétimo goleiro revelado pela base do Fla a ser negociado diretamente com um clube europeu.

Júlio César é o grande exemplo de sucesso para Kauã Santos, pela história vitoriosa que construiu na Inter e pela boa passagem que teve depois no Benfica. Getúlio Vargas (Westerlo), Paulo Victor (Gaziantepspor) e Thiago Silva (Estoril) não estouraram em suas empreitadas. Mais sucesso teve Daniel Tenenbaum como campeão no Maccabi Tel Aviv, onde permanece como reserva. Mais recentemente, Gabriel Batista foi rebaixado com o Santa Clara e Hugo Souza chegou ao Chaves para tentar sua sorte no Campeonato Português – mas o início com três derrotas e 11 gols sofridos não anima. Kauã Santos tentará garantir um exemplo mais positivo.

A chance de Kauã Santos se desenvolver

Diretor esportivo do Eintracht Frankfurt, Timmo Hardung deu as boas vindas para Kauã Santos: “Estamos muito satisfeitos por termos conseguido contratar um grande talento como Kauã Santos. Há muito tempo que o acompanhamos através de nosso departamento de observação e também de goleiros. Estamos convencidos de seu grande potencial. Conosco, ele receberá o maior apoio possível, bem como oportunidades de se desenvolver ainda mais”.

Kauã Santos terá, de fato, excelentes chances de se desenvolver na Bundesliga. O jovem estará em contato com a escola de goleiros alemã, uma das mais qualificadas da Europa nesse sentido. Poderá agregar o conhecimento que teve no Brasil, onde o nível de preparação dos arqueiros está também entre os melhores do mundo. Além disso, o idioma tende a não ser uma barreira tão grande ao garoto. Seu grande professor no Frankfurt será Kevin Trapp, que se consolidou nas últimas temporadas novamente como um dos melhores goleiros da Alemanha. O veterano fala seis línguas, incluindo o português, influenciado por sua esposa, a modelo Izabel Goulart. Isso poderá auxiliar Kauã Santos por tabela.

Atualmente o Eintracht Frankfurt conta com quatro goleiros à disposição do técnico Dino Toppmöller. Kevin Trapp é o titular absoluto. Quem frequenta o banco é Jens Grahl, veterano de 34 anos que chegou do Stuttgart em 2021. Outro jovem à disposição é Simon Simoni, albanês de 19 anos comprado junto ao Dinamo Tirana em janeiro. O adolescente tende a ser o principal concorrente de Kauã Santos, embora atualmente integre o Eintracht Frankfurt II (o time B) na quarta divisão do Campeonato Alemão.

O Eintracht Frankfurt conta com outro brasileiro no elenco atual: o zagueiro Tuta, revelado pelo São Paulo e que também saiu da base diretamente para as Águias. O jovem de 24 anos, campeão da Liga Europa em 2021/22, mostra como o trabalho dos olheiros do clube nas visitas aos estádios brasileiros vem sendo bem feito. Outros brasileiros que passaram dos 100 jogos pelo Frankfurt são os zagueiros Anderson Bamba e Chris, menos conhecidos no Brasil.

A história dos goleiros brasileiros nas grandes ligas europeias

Dentre as cinco grandes ligas europeias, a Bundesliga é exatamente a mais fechada para goleiros brasileiros. O histórico nos demais campeonatos nacionais de primeira prateleira na Europa é maior. O melhor exemplo atual é o da Premier League. Alisson possui uma dimensão histórica no Liverpool, assim como Ederson é herói do Manchester City multicampeão. Neto também oferece seu talento atualmente, no Bournemouth. A lista de arqueiros do passado inclui Gomes como figura querida especialmente no Watford, além das efêmeras passagens de Doni pelo Liverpool e de Júlio César pelo Queens Park Rangers.

Historicamente, os goleiros brasileiros são mais bem sucedidos na Serie A. Ao todo, 16 arqueiros nascidos no país passaram pela elite italiana. Taffarel inaugurou uma era quando assinou com o Parma e se tornou o primeiro goleiro estrangeiro nos anos dourados do Calcio, na virada da década de 1980 para a de 1990. Dida é candidato a ser considerado o maior goleiro da história do Milan, enquanto Júlio César teve um auge excepcional na Inter. A longa lista ainda inclui ídolos de menos renome, como Rafael (Verona) e Rubinho (Genoa). Também vale ressaltar a ligação da Roma com os arqueiros brasileiros, incluindo Alisson e Doni.

La Liga tem uma abertura histórica muito grande aos goleiros estrangeiros. No entanto, os exemplos brasileiros não são tão numerosos assim. Cinco arqueiros do país atuaram na primeira divisão do Campeonato Espanhol. Diego Alves é de longe o mais importante, sobretudo pela ótima forma que manteve no Valencia, além dos bons momentos no início com o Almería. Neto também merece menção, como reserva do Barcelona por três temporadas, além da passagem pelo Valencia. Ainda há o caso especial de Vicente Biurrun, que nasceu em São Paulo, mas de família basca e voltou para a Espanha na infância. Passou por Athletic Bilbao, Osasuna e Espanyol entre os anos 1980 e 1990.

Já a Ligue 1 teve apenas quatro goleiros brasileiros, mas entre eles está o pioneiro do país na Europa: Jaguaré, lenda do Vasco que rodou por diferentes equipes do Velho Continente na década de 1930. Seu auge aconteceu com o Olympique de Marseille, pelo qual conquistou o título do Campeonato Francês em 1936/37. Na temporada seguinte, Jaguaré ainda ficou famoso por marcar um gol de pênalti contra o Sète, pela Copa da França. O carioca é lembrado também como um inovador, ao introduzir as luvas entre os arqueiros. Passou pelo Barcelona, mas sem atuar em competições oficiais, e também vestiu a camisa do Sporting.

Entre as demais ligas da Europa, a mais aberta aos goleiros brasileiros é o Campeonato Português. Figuras como Helton (Porto), Matheus (Braga) e Artur Moraes (Benfica) são importantes na história da competição. Há uma abertura considerável desde os anos 1980, que contempla veteranos como Zé Carlos, Acácio e João Leite. A Turquia tem Taffarel como lenda do Galatasaray, além de passagens de nomes de Seleção, como Carlos e Jefferson. Já a Holanda inclui entre as referências Gomes no PSV e Luciano no Groningen, este também pioneiro na Bélgica. Vale uma menção ainda a Guilherme, nome histórico do Lokomotiv Moscou e que acabou se naturalizando para atuar na seleção da Rússia.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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