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Escolhido a dedo por Guardiola, Ederson cresce na reta final da temporada e se consagra em Istambul

Goleiro teve ótima atuação na final e manteve a boa sequência após impedir as poucas chances do Real Madrid, na semifinal

Poucos goleiros podem se gabar de ter a pecha de revolucionários. Ao menos para o diretor do Manchester City, Txiki Begiristain, o brasileiro Ederson Moraes tem enormes credenciais para ser visto como tal. Responsável por defesas importantes na partida de volta da semifinal contra o Real Madrid, o arqueiro celebrou neste sábado (10) o ponto alto de sua carreira, com momentos de protagonismo.

“Éderson é um dos melhores goleiros do mundo. Ele se encaixa perfeitamente na nossa filosofia aqui no Manchester City e sua habilidade com a bola nos pés o torna fundamental no nosso estilo de jogo”, comentou Begiristain, em 2021, na renovação de contrato com o goleiro, válida até 2026.

O Manchester City finalmente pôde comemorar a cereja de seu milionário bolo, após mais de uma década de projeto. Enganou-se, porém, quem apostou no óbvio destaque de Erling Haaland contra a Internazionale. O gol do título, marcado por Rodri, divide as atenções do público que acompanhou a final em Istambul com as defesas de Ederson.

Contratado em 2017 pelo Manchester City, junto ao Benfica, Ederson chegou mais por suas habilidades na recomposição de bola e no jogo com os pés do que propriamente por sua incontestável capacidade de saltar para buscar chutes no canto superior. Escolhido por Pep Guardiola ainda no início do trabalho do treinador, ele não decepcionou. Seis anos depois da contratação, provou-se um grande acerto para garantir a segurança debaixo das traves e também como o primeiro homem de ataque em uma jogada ofensiva do City. Aos 29 anos e com muito chão pela frente no futebol, o cidadão de Osasco escreveu seu nome nas páginas mais importantes do futebol continental.

Produto de uma fábrica de goleiros

Revelado pelo São Paulo, em meados dos anos 2000, o goleiro teve Rogério Ceni como espelho para trilhar sua carreira. Embora jamais tenha defendido a equipe profissional do Tricolor ao lado do icônico capitão são-paulino, Ederson contou com essa referência. Com perseverança, precisou lidar com problemas de adaptação e a própria frustração para vingar no esporte. Dispensado do São Paulo, saltou para seguir sua formação na base do Benfica. Mas a estreia entre os profissionais, de fato, ocorreu só no Ribeirão, equipe de divisões interiores em Portugal, que ele recomeçou a experimentar a redenção. De lá até Istambul, foram 12 anos de espera.

Para tanto, o osasquense vestiu as camisas do Rio Ave e do Benfica B até finalmente bater novamente à porta dos Encarnados. O novo contrato foi lucrativo e colocou Ederson como uma grande promessa no futebol europeu, somando a inteligência na construção ofensiva com a sua elasticidade e reflexos. Bastaram duas temporadas para que o trabalho fosse reconhecido no continente. Um novo convite se fez inevitável e irrecusável: era Guardiola do outro lado da linha, lhe chamando para o ambicioso projeto do Manchester City.

A noite de Eddy

Cinco títulos ingleses e duas participações em Copa do Mundo depois, cravado dentro do coração da torcida dos Citizens, Ederson teve sua frieza posta à prova em um duro jogo contra a Internazionale, no Ataturk. O City era amplamente favorito, mas a bola contou outra história: a de um adversário mentalmente mais pronto para o jogo e com maior ímpeto. O poderoso ataque de Guardiola bem que tentou, mas acabou barrado pela defesa de Simone Inzaghi. Tanto que o gol foi marcado pelo volante Rodri, em uma sobra de passe feito para trás.

Desde o início, Ederson viu que não poderia dar bobeira. Um chute estranho para a lateral chegou a preocupar o goleiro do City, que ainda no primeiro tempo saiu mal do gol em dividida pelo alto com Lautaro Martinez. Foram os únicos lances em que ele titubeou. Ao todo, foram cinco defesas imprescindíveis para manter o placar estável no 1 a 0 para os ingleses. Três delas para colocar em qualquer clipe que se preze sobre seus melhores momentos da carreira.

A primeira grande intervenção foi no minuto 58′, numa falha defensiva do City em que Lautaro dominou sozinho na ponta esquerda e saiu de cara para o gol. Ederson saiu bem para fechar o ângulo e impedir o gol do argentino. Aos 87′, a defesa que se falará por anos: em cruzamento para a esquerda, Robin Gosens escorou de cabeça e acionou Lukaku pelo alto. O belga fez o gesto técnico perfeito e ajeitou para cabecear no chão. Parado em cima da linha, Ederson defendeu com o joelho e frustrou a ofensiva interista, que estava pelo tudo ou nada nos instantes finais.

Ainda houve tempo para que, nos acréscimos, uma nova chance da Inter aterrorizasse os corações celestes em Istambul. Um escanteio cobrado no primeiro pau achou Gosens de novo para cabecear. O alemão iria ter acertado o canto superior do gol não fosse o salto espetacular de Ederson para interromper a trajetória da bola. Depois disso, foi só correr para o abraço.

O homem dos mais de 100 jogos sem levar gol na Premier League também agarrou a Europa, provando que um grande time sempre começa por um goleiro que transmita confiança para os colegas de defesa. Se olharmos atentamente ao VT da final de hoje, é possível ver vários momentos em que a zaga deixou a desejar e ficou nas mãos do brasileiro para escapar do pior. Se veremos Ederson falhar em uma partida grande, ninguém pode dizer, mas não terá sido dessa vez.

O título foi merecido para alguém que teve uma Champions tão impecável quanto ele: foram apenas cinco gols sofridos em todo o torneio, sendo dois na fase de grupos e apenas três no mata-mata, passando por RB Leipzig, Bayern, Real Madrid e Internazionale. Um feito para ficar na história, não só de Ederson mas como da competição, em termos gerais.

Foto de Felipe Portes

Felipe Portes

Felipe Portes é zagueiro ocasional, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes
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