‘Na minha época, a safra era muito boa’: Por que hoje há tão poucos brasileiros na Bundesliga
Há 10 anos, Brasil tinha 19 atletas do País na elite alemã, que constitui um dos principais torneios do Velho Continente; agora número despencou
A Bundesliga é tradicionalmente um palco onde brasileiros brilham. Nomes emblemáticos como Zé Roberto, Giovane Élber, Bordon, Paulo Sérgio, Lucio e Grafite pavimentaram terreno para os atuais representantes do Brasil na liga: Arthur (Bayer Leverkusen), Arthur Chaves, Bernardo (Hoffenheim), Kauã Santos (Eintracht Frankfurt), Rogério (Wolfsburg), Vini Souza (Wolfsburg), Rômulo (RB Leipzig) e Yan Couto (Borussia Dortmund).
Tuta e Léo Scienza também integravam o grupo, mas o primeiro se transferiu do Eintracht Frankfurt ao Al-Duhail e o segundo trocou o Heidenheim pelo Southampton, ambos na janela do meio deste ano. Tais movimentações deixaram o Campeonato Alemão com apenas oito atletas brasileiros em 2025/26.
De preços ao momento: As hipóteses para a redução no número de brasileiros na Bundesliga
O número de jogadores do Brasil na Bundesliga não é o pior dos últimos anos — foram cinco em 2022/23 — e pode significar certa estabilização, ao considerar que tem se repetido — como em 2021/22 e 2024/25 — ou variado pouco — vide os sete brasileiros registrados em 2023/24.
Contudo, há 10 anos, eram 19 jogadores do País na primeira divisão alemã, e o dado permaneceu com dois dígitos até 2020/21, quando totalizou 11. A redução neste caso tem razões financeiras, na opinião de Zé Roberto.
O ex-jogador acredita que atletas brasileiros estão cada vez mais valorizados, e o preço fica menos viável se comparado ao de representantes de nações dos Bálcãs, como a Croácia, ou asiáticas.
Ele conversou com a Trivela em nome da bet365, parceiro Global Oficial da Champions League.
— O jogador brasileiro sai daqui já formado, e quando ele sai formado, é porque já se destacou em alguma competição, e quando vai (para exterior), vai caro. É um preço caro para os clubes alemães, que não estouram orçamento, por exemplo — analisa.

Zé Roberto tem lugar de fala no assunto. Construiu história de sucesso no futebol alemão com as camisas de Bayer Leverkusen, Hamburgo e Bayern de Munique. A carreira no país europeu começou em 1998 e se estendeu até 2006, e houve outra passagem posteriormente, entre 2007 e 2011.
Ele dividiu o cenário com vários compatriotas nos dois períodos e relembrou os velhos tempos na conversa com a Trivela. Para o ex-jogador, parte da razão para a liga ter menos brasileiros é a safra recente.
— Tem o lado também de a gente não ter, nos últimos anos, tantos destaques. Na minha época, a safra era muito boa — pondera.
Zé Roberto explica que equipes alemãs costumam ir ao mercado em busca de atletas fundamentais, que cheguem aos times para criar impacto imediato e positivo. “Lembro de muitos nomes que fizeram a diferença”, diz ele antes de mencionar os casos de Dedé (Borussia Dortmund), Giovane Élber (Stuttgart e Bayern), Marcelo Bordon (Stuttgart e Schalke 04) e Lúcio (Bayer Leverkusen e Bayern).
Lúcio, inclusive, é uma das inspirações de Arthur Chaves. O zagueiro ex-Avaí deixou o Viseu, de Portugal, para se transferir ao Hoffenheim em agosto de 2024, e acredita que o número menor de compatriotas na Bundesliga se justifica pelos novos mercados.
O defensor ressalta à Trivela que o futebol europeu se tornou ainda mais “globalizado” nos últimos anos.
— As ligas passaram a olhar para mercados diferentes e dar oportunidades a jogadores de diversas origens. Além disso, muitos brasileiros hoje acabam indo para outros centros como Portugal, Espanha e até países emergentes, o que naturalmente reduz um pouco essa presença na Alemanha — explica Chaves.

O atleta projeta ser possível aumentar o número de representantes do País com a força das categorias de base dos times brasileiros e por meio de bons desempenhos dos que já figuram no torneio.
— Passa por manter a tradição do jogador brasileiro de se adaptar bem em qualquer lugar. Quando os atletas chegam, mostram rendimento, profissionalismo e conseguem se destacar. Isso abre portas para outros.
Chaves, portanto, exerce papel importante neste contexto, assim como o compatriota Rômulo. Revelado no Athletico-PR, o atacante afirmou ter recebido “algumas propostas” enquanto estava no Goztepe, da Turquia. Dentre elas, a do RB Leipzig.
Mesmo com outras equipes na disputa, o camisa 40 optou pelo projeto do clube alemão. “A Bundesliga está entre as principais ligas do mundo e era minha vontade nesse momento”, conta à Trivela.
Rômulo desembarcou em Leipzig no começo desta temporada com o status de “novo Sesko” e, assim como Arthur Chaves, se espelha nos brasileiros que fizeram história na liga. O jogador acredita que o número menor de representantes do País é apenas momentâneo.
— Agora é um momento diferente, de termos poucos (brasileiros), mas talvez seja algo cíclico, que logo mude. Quem sabe eu não possa escrever minha história agora aqui e ajudar a fazer com que outros brasileiros venham e aumente este número já no próximo ano — ambiciona ele.

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Cresce interesse pela Bundesliga no Brasil
Apesar da queda no comparativo dos últimos 10 anos, o Brasil ainda é o país estrangeiro a ser mais representado na história da Bundesliga, com 176 jogadores ao todo. Em segundo lugar está a Dinamarca (155), seguida por Croácia e Áustria (150).
A ligação entre alemães e brasileiros ultrapassou os gramados e conquistou os fãs de futebol no nosso País, que passaram a acompanhar cada vez mais a competição.
A base de aficionados pela elite alemã no Brasil em 2018 era de cerca de 12 milhões de pessoas, número que subiu para 24 milhões em 2024, segundo dados da liga que o “ge” teve acesso. O levantamento considera pessoas engajadas diretamente com a Bundesliga, que assistem aos jogos, acompanham por meio de canais digitais ou participam de ativações de marketing.
Dada a proporção, as equipes enxergam o País como um mercado interessante e se aproximam cada vez mais dos brasileiros. O Bayer Leverkusen trouxe o troféu da Bundesliga e da Copa da Alemanha (ambos da temporada 2023/24) para uma turnê de exibição em São Paulo em novembro de 2024.
O RB Leipzig se tornou o primeiro time da história da competição a fazer uma intertemporada no Brasil ao realizar amistoso contra o Santos em maio deste ano. Na ocasião, superou o time da Vila por 3 a 1 em Bragança Paulista.
Recentemente, o Leverkusen voltou a ressaltar o carinho com os brasileiros ao ser o pioneiro entre clubes alemães a realizar pré-temporada no nosso território, mais especificamente, no Rio de Janeiro.

O Leverkusen também inaugurou o “Bayer 04 Football Academy” em São Paulo, projeto liderado por Paulo Sérgio, para contemplar cerca de 300 crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos.
— Se queremos ampliar nossa base global de torcedores, precisamos estar presentes onde o futebol é parte da cultura. E o Brasil é esse lugar — reconheceu Fernando Carro, CEO do clube.



