Bundesliga

A superioridade do Bayern na Bundesliga não é só técnica ou financeira, ela é mental, e isso encaminha o eneacampeonato

A vitória sobre o RB Leipzig indicou certa diferença na maneira como os times sentiram o jogo decisivo e como o "saber ganhar" acaba pesando

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A Bundesliga aguardava ansiosamente o fim da Data Fifa para viver o seu “Dia D” da temporada 2020/21. O RB Leipzig vinha em ritmo forte o suficiente para acompanhar o Bayern de Munique até o quarto final da competição e o confronto direito na Red Bull Arena oferecia uma oportunidade enorme. A equipe de Julian Nagelsmann somava boas atuações recentes contra os bávaros, mesmo sem vencê-los, e o caminho parecia aberto para que encostasse nos líderes. A ausência do lesionado Robert Lewandowski, ainda mais, aumentava as chances dos Touros Vermelhos. O que se viu, porém, foi um eneacampeão ainda mais próximo. A mentalidade fez toda a diferença ao Bayern, assim como as suas referências em campo. Por mais que o Leipzig tenha sido melhor em boa porção do jogo, não soube concretizar sua superioridade no placar com a eficiência dos oponentes. A sete rodadas do fim, a Salva de Prata parece definida.

Desde que Julian Nagelsmann chegou ao RB Leipzig, o time não havia mais sido derrotado pelo Bayern de Munique. A sequência de confrontos reunia três empates. Na temporada passada, os Touros Vermelhos se sobressaíram pela maneira como conseguiram amarrar o poderoso ataque adversário, com placares de 1 a 1 e 0 a 0. Já na atual campanha, um festival de gols nos 3 a 3 do primeiro turno, em que os visitantes souberam aproveitar os espaços mais constantes na defesa bávara, mas não seguraram Kingsley Coman e Thomas Müller para preservar a vitória. De qualquer maneira, o cenário parecia aberto para o reencontro do último sábado, na Red Bull Arena.

É preciso ponderar que o Leipzig tinha desfalques importantes para o jogo, em especial no lado esquerdo, onde Angeliño e Marcel Halstenberg estavam ausentes. Apesar disso, Nagelsmann conseguiu imprimir grande intensidade na equipe, com uma formação que primava por jogadores mais leves nas posições ofensivas. Os Touros Vermelhos mal deixaram os bávaros passar do meio-campo na meia hora inicial, por mais que não tenham conseguido criar tantas chances claras de gol. Porém, no momento em que o ritmo caiu, uma jogada muito bem construída pelo Bayern abriu a contagem no placar.

Na volta ao segundo tempo, o Leipzig parecia pronto a empatar. Acelerou ainda mais e deixou a defesa do Bayern em apuros diversas vezes. As brechas apareceram, mas não a precisão necessária para anotar o gol. Foram quatro lances claros em que os Touros Vermelhos puderam finalizar e não acertaram o gol. A única defesa difícil de Manuel Neuer aconteceu num chute de longe executado por Marcel Sabitzer. Já no fim, quando Nagelsmann mudou o padrão e botou dois homens de área para buscar o prejuízo, o Leipzig já não tinha capacidade sequer para o abafa. Aí sim os escapes pelos lados, tão importantes nesta temporada, fizeram falta.

A atual campanha do Leipzig se caracteriza por uma equipe mais coletiva. Timo Werner saiu e os gols passaram a se distribuir mais pelo elenco, mesmo que tenham minguado um pouco. O sistema defensivo se fortaleceu e os Touros Vermelhos exibiam uma dose maior de equilíbrio, sobretudo no segundo turno. Vale lembrar que, para chegar em condições de brigar com o Bayern no confronto direito, os vice-líderes vinham de uma excelente sequência de sete vitórias e um empate nas oito rodadas anteriores. Sucumbiram exatamente quando não podiam, sentindo falta de um nome que fosse mais eficiente na hora de resolver.

O elenco do Leipzig é muito bom e relativamente linear, com jogadores de destaque em todos os setores. Porém, careceu de um craque nesta “decisão” na Red Bull Arena. O clube possui como principal virtude desenvolver jogadores talentosos, mas acaba perdendo seus melhores nomes quando estes ficam prestes a atingir o ápice. Não houve ninguém com segurança o suficiente para resolver o jogo, mesmo com a superioridade da equipe em diferentes momentos. E a diferença disso se nota na tabela, com uma distância que poderia ser de um ponto, mas acaba em sete. Terão que se contentar com a busca pela Copa da Alemanha.

O Bayern, por sua vez, se mostrou um time bem mais talhado às decisões. Tomou pressão durante boa parte do tempo e nem por isso se desesperou. Nem por isso demonstrou que deixaria o resultado escapar com facilidade. Tal certeza parece se multiplicar ainda mais na Bundesliga, onde diversos adversários podem apresentar bom futebol e enfileirar talentos, mas nenhum exibe o mesmo nível de consistência e a mesma força para vencer. Nesta temporada, especialmente durante o primeiro turno, o time de Hansi Flick já encarou adversidades o suficiente, ao contar com uma defesa mais vulnerável e ao sair em desvantagem no placar com frequência. A imposição, uma hora ou outra, acaba acontecendo.

E acontece porque o Bayern possui jogadores capacitados e muito inteligentes para garantir os triunfos. Sobretudo, com uma mentalidade vencedora, à espreita do mínimo espaço. Foi o que aconteceu na Red Bull Arena. O triunfo acabou resolvido por três protagonistas deste grupo. Joshua Kimmich desbrava defesas fechadas com seus passes milimétricos e assim o fez, a partir de um lançamento primoroso. Thomas Müller não é o melhor jogador que já surgiu na Baviera, mas provavelmente é o mais inteligente, sabendo muito bem controlar o tempo da jogada e abrir o espaço na marcação. Leon Goretzka é um dos meio-campistas mais vorazes do futebol alemão e compareceu como um atacante na área para definir. A bomba ficava no colo do Leipzig e o time não soube desarmar.

O segundo tempo contou com uma dose de incompetência dos adversários, que não responderam com eficácia. Mas nem assim pareceu rolar um medo grande no Bayern de deixar o campeonato escapar. O time segurou o resultado e, depois das alterações, ganhando mais fôlego no setor ofensivo, cozinhou os minutos restantes até o apito final. O controle mental na tarde sempre esteve com os bávaros, e isso faz toda a diferença. Pareciam até se poupar, sabendo que a cobrança vem mesmo na Champions, e o Paris Saint-Germain exigirá muito mais dos atuais campeões.

A ausência de Lewandowski pesa, é claro. O centroavante é o principal responsável por potencializar o Bayern, com sua capacidade enorme de definição e de também abrir espaços aos companheiros. Eric Maxim Choupo-Moting pode ser um cumpridor, mas está anos-luz atrás do titular. Contudo, não é a falta do artilheiro que necessariamente custa caro aos bávaros. O time possui mecanismos suficientes para seguir vencendo, assim como outros protagonistas. Não é exagero dizer que a ausência de Neuer ou Kimmich seria muito mais custosa, já que é mais difícil reproduzir a funcionalidade de ambos. Sem Lewa, a voracidade ofensiva costuma aparecer de outras formas, ao menos na Bundesliga, onde ninguém consegue romper esse poder que vem da Baviera.

A tabela do Bayern nas sete rodadas restantes não é exatamente fácil, incluindo adversários como o Wolfsburg, dono da melhor defesa da competição, ou o renascido Mainz 05. Mesmo assim, parece impossível imaginar uma queda tão grande na corrida com o Leipzig, que permita aos Touros Vermelhos um milagre mesmo com a derrota no confronto direto. O assunto na Allianz Arena, a esta altura, já é pensar na Champions porque o eneacampeonato foi encaminhado neste final de semana.

Difícil vai ser apenas assegurar o recorde de gols para Lewandowski, que está a cinco tentos de superar a incrível marca de Gerd Müller em 1971/72, a maior da história do campeonato. Por conta de sua lesão, o centroavante deve perder até cinco jogos e assim só teria mais três rodadas para chegar aos 40 gols. É esse o nível de desafio que se propõe a um Bayern sem precedentes na Bundesliga. Um clube que, mesmo dominante, nunca tinha sido mais do que tricampeão até a década passada e agora triplica o próprio recorde. Os alvirrubros conseguiram driblar os problemas com Niko Kovac e, sob as ordens de Hansi Flick, reacenderam a chama de uma dinastia que parecia perder intensidade.

A discussão sobre a falta de concorrência na Bundesliga é natural e sempre volta à tona ao fim de cada temporada. Não à toa, os dirigentes do Bayern mostravam interesse sobre a Superliga Europeia, por mais que tenham mudado o discurso desde as revelações feitas pela revista Der Spiegel, diante da reação da opinião pública. Porém, mesmo que muitos clubes na Bundesliga tenham projetos interessantes e o nível técnico geral seja ótimo, falta muito para chegarem a um nível de organização e de força como o visto na Baviera. Além, é claro, da mentalidade em campo. O que consegue este grupo de jogadores também é único e, numa passagem de bastão contínua entre gerações vitoriosas, tal reinado se estende muito além do que a história do próprio Bayern conta. Mais difícil é criar tal força mental em um concorrente, que consiga peitar um clube tão acostumado a devastar o país.

Novidade, ao menos, na Champions

Vale pontuar que a rodada da Bundesliga também guardou um Dia D na corrida pelo G-4. E o Eintracht Frankfurt deu um passo imenso para retornar à Champions League depois de 61 anos. O confronto direto no Signal Iduna Park era a grande chance ao Borussia Dortmund. No entanto, os aurinegros também decepcionaram em casa. Fizeram uma partida bem abaixo e permitiram no final o merecido triunfo das Águias por 2 a 1, em tarde na qual os visitantes foram realmente superiores.

O Frankfurt vem de pelo menos quatro temporadas em alto nível e, nesta, a equipe de Adi Hütter parece menos suscetível às oscilações. E, assim como em outros momentos, os protagonistas das Águias estão bem claros. André Silva é o vice-artilheiro do campeonato, embora o melhor do time nesta altura talvez seja Kostic, com uma capacidade incrível na criação. São dez assistências e quatro gols nas últimas 12 rodadas. Mesmo com uma sequência de três tropeços após a vitória sobre o Bayern, o Frankfurt também abre sete pontos de vantagem no G-4 e só desperdiçará a vaga em caso de desastre. Ao lado do Wolfsburg, outro firme na terceira posição, deve ser a novidade da Alemanha na próxima Champions.

Neste momento, as emoções da Bundesliga devem se concentrar mesmo na luta pelas vagas às outras copas europeias e na corrida contra o rebaixamento. A Liga Europa e a Conference League reúnem uma série de candidatos que decepcionam – Dortmund, Bayer Leverkusen, Borussia Mönchengladbach. Quem supera as expectativas são Union Berlim e Stuttgart, se reestruturando após passagens recentes pela segundona, assim como o Freiburg, que teve uma guinada no meio da competição, mas ainda ressente as vendas da pré-temporada. Já na luta contra o rebaixamento, enquanto a degola do Schalke é questão de tempo, há uma briga de foice para escapar da segunda queda direta e dos playoffs contra o terceiro colocado da segunda divisão. Arminia Bielefeld, Colônia, Mainz 05 e Hertha Berlim são os concorrentes. Destaque ao Mainz, que fazia um primeiro turno tão ruim quanto o Schalke e renasceu – em breve, será assunto da coluna.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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