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A bonita relação entre Eintracht Frankfurt e Chemie Leipzig, um dos clubes tradicionais da cidade que se contrapõe ao RB Leipzig

As torcidas de Eintracht e Chemie possuem quase 20 anos de amizade, enquanto o Frankfurt já realizou apoios institucionais ao time de Leipzig

Não estranhe se você perceber alguma menção positiva a Leipzig nas arquibancadas do Eintracht Frankfurt durante a decisão da Copa da Alemanha. Possivelmente adereços verdes estarão no meio da torcida tricolor dentro do Estádio Olímpico de Berlim. Os torcedores das Águias nutrem uma das amizades mais fortes do futebol alemão, com os seguidores do Chemie Leipzig. São quase 20 anos de relação direta entre as duas agremiações, com confraternizações entre os grupos de ultras e até mesmo auxílio do clube da Bundesliga para que os alviverdes tivessem melhores condições nas divisões de acesso do Campeonato Alemão. Além do mais, exaltar a tradição do Chemie é uma maneira pela qual as tribunas do Eintracht Frankfurt, por tabela, questionam o projeto da Red Bull à frente do RB Leipzig. É bem provável que isso se repita neste sábado, na final da Pokal.

A história do Chemie Leipzig

O Chemie Leipzig era um dos clubes mais tradicionais da cidade durante o século passado. A trajetória dos alviverdes nasceu a partir do antigo Britannia Leipzig em 1899. Após diferentes fusões, o TuRa Leipzig teve relevância nacional na virada das décadas de 1930 para 1940, quando disputou a elite regional dentro da estrutura do Campeonato Alemão. Entretanto, como a maioria das agremiações esportivas da Alemanha, o clube acabou sendo refundado após a Segunda Guerra Mundial, para afastar suas ligações com o período nazista. Dentro do regime comunista alemão-oriental, o TuRa foi apadrinhado pela nova estrutura governamental.

O reinício da equipe se deu como Leipzig-Leutzsch, que depois seria rebatizado como Industrie Leipzig e então viraria o Chemie Leipzig a partir de 1950. Os alviverdes estavam ligados à indústria química da cidade e figuraram na primeira divisão da Oberliga alemã-oriental desde seus primórdios. Era a principal potência de Leipzig: em 1950/51, o Chemie conquistou o título da liga, na quarta edição da competição. Honrava a tradição da cidade, um importante polo na história do futebol alemão, onde a federação nacional havia sido fundada no início do século e de onde também saíra o primeiro campeão do país ainda unificado em 1903.

O Chemie Leipzig seguiu competitivo no início da década de 1950, com a terceira colocação em 1951/52 e o vice-campeonato em 1953/54. Já em setembro de 1954, o futebol na cidade seria reorganizado e o Chemie se transformaria no SC Lokomotive Leipzig. Sob a nova alcunha, os alviverdes foram campeões da Copa da Alemanha Oriental em 1958 e registraram ainda mais duas campanhas no pódio da Oberliga, ambas na terceira colocação. A nova nomenclatura não duraria tanto: em 1963, o SC Lokomotive Leipzig deixaria de existir para que o Chemie Leipzig voltasse às atividades. Três anos depois, paralelamente, o então chamado SC Leipzig se tornou o 1. FC Lokomotive Leipzig – uma agremiação distinta do Chemie e do antigo SC Lokomotive. O novo Lok ficou realmente célebre com este nome, ligado à companhia ferroviária local.

Antes que o 1. FC Lokomotive Leipzig ascendesse como principal time da cidade, o Chemie Leipzig ainda conseguiu conquistar o Campeonato Alemão-Oriental pela segunda vez. O novo título da Oberliga veio em 1963/64, com o então chamado SC Leipzig na terceira posição da tabela. O Chemie conseguiu até mesmo vaga na Copa dos Campeões de 1964/65, eliminado pelos húngaros do Györ logo na primeira fase. Os alviverdes ainda tiveram uma terceira colocação em 1964/65, antes de se tornarem figurantes da Oberliga. A partir da segunda metade dos anos 1960, quem passou a receber o maior investimento na cidade era o rebatizado 1. FC Lokomotive Leipzig. Curiosamente, os auriazuis tiveram 11 pódios na liga, com três vices, mas nenhum título. Compensaram com quatro troféus na Copa da Alemanha Oriental, além de fazerem bons papéis nas copas europeias, com as semifinais da Copa da Uefa em 1973/74 e o vice da Recopa Europeia em 1986/87.

A transição após a unificação

Mesmo como um clube de menor projeção em comparação ao 1. FC Lokomotive, o Chemie Leipzig se manteve entre a primeira e a segunda divisão da Oberliga entre as décadas de 1970 e 1980. O enfraquecimento dos alviverdes só aconteceu após a queda do Muro de Berlim e a reunificação da Alemanha. O time se chamou por um breve período como Grün-Weiss Leipzig, antes de se fundir com o Chemie Böhlen e dar origem ao Sachsen Leipzig no início dos anos 1990. O novo time ingressou na terceira divisão do Campeonato Alemão após a unificação da Oberliga com a Bundesliga, mas despencou rapidamente ao quinto nível. Fechou suas portas em 2011, diante das dificuldades financeiras.

Ainda em 1997, os antigos torcedores do Chemie Leipzig resolveram fundar um novo time. A ideia inicial do novo Chemie era a de garantir os direitos sobre o antigo nome do clube e também de fomentar o Sachsen Leipzig. A nova entidade seria importante inclusive para apoiar financeiramente o Sachsen na virada do século, diante das intensas crises. Porém, com o passar dos anos, uma cisão interna ficou mais clara. A torcida não concordava com as tomadas de decisão da direção do Sachsen e mesmo com a supressão dos antigos símbolos ligados ao Chemie. Depois de uma briga generalizada em 2007, o novo Chemie decidiu seguir um caminho próprio, diferente do Sachsen, e passou a disputar as divisões regionais da Saxônia a partir de 2008/09 – o equivalente ao 12° nível do Campeonato Alemão.

Com o apoio da torcida, o novo Chemie Leipzig logo registrou seus primeiros sucessos, ao passo que o Sachsen afundava até fechar as portas. Foram três acessos seguidos dos alviverdes na liga regional, até um salto para a sexta divisão nacional através da compra da licença de outro time de Leipzig, o Blau-Weiss. Ainda levou um tempo para que o Chemie se acertasse no novo nível, mas voltaria a dar passos maiores a partir de 2016. Os alviverdes estrearam na quinta divisão em 2016/17 e logo conseguiram o acesso para a quarta divisão em 2017/18. Apesar da queda imediata, voltaram a conquistar o acesso na quinta divisão em 2018/19. Desde então, o Chemie se mantém na quarta divisão, brigando na parte de cima da tabela. A equipe ainda desfrutou de outro momento importante em 2017/18, quando ganhou a Copa da Saxônia. Participou da Copa da Alemanha na temporada seguinte, eliminada na segunda fase pelo Paderborn.

A amizade entre Eintracht e Chemie

Já a relação entre o Chemie Leipzig e o Eintracht Frankfurt tem raízes na década de 1980, quando torcedores trocavam por correio fanzines dos clubes. Todavia, os laços se fortaleceram de verdade em 2004 – muito antes do surgimento do RB Leipzig, vale ressaltar. Naquela ocasião, as duas agremiações participaram de um torneio para promover a luta contra o racismo na Itália. Os dois grupos de ultras possuem visões políticas parecidas, com o Chemie sendo um raro clube da antiga Alemanha Oriental com uma ala mais progressista, quando parte considerável dos ultras tende mesmo ao neonazismo. Tal amizade entre os torcedores se manteve ao longo dos anos e se celebrou de diferentes maneiras, com visitas costumeiras dos alviverdes a Frankfurt e dos tricolores a Leipzig. Os ultras do Chemie passaram a embarcar em viagens internacionais do Eintracht, presentes até em jogos de pré-temporada realizados no Vietnã em 2010.

As instituições também se aproximaram. Em setembro de 2016, o Eintracht Frankfurt disputou um amistoso de início de temporada contra o Chemie Leipzig, para celebrar o acesso dos alviverdes à quinta divisão. A partida aconteceu no histórico Alfred Kunze Sportpark, estádio construído ainda em 1920 e que abrigou os anos áureos do Chemie na década de 1950. O Eintracht aproveitou a ocasião para fazer uma doação aos anfitriões, em dinheiro direcionado para a manutenção do estádio.

“É uma questão de honra para nós ajudar o Chemie, um clube tão tradicional de Leipzig, com a reforma de seu estádio. Nos últimos anos, vários torcedores do clube nos acompanharam repetidas vezes em nossas viagens – mesmo para os cantos mais distantes da Europa. Agora temos a oportunidade de apoiar esse projeto de manutenção, que é fortemente apoiado pelo comprometimento de seus torcedores. Está dentro de nossas possibilidades, como clube tradicional da Bundesliga”, explicou Axel Hellmann, membro da diretoria do Eintracht.

As arquibancadas tiveram lotação máxima, com 5 mil espectadores no Alfred Kunze Sportpark, para ver o empate por 2 a 2. A bola rolando, porém, era o de menos ao redor de tudo o que acontecia. Nas tribunas, havia uma grande confraternização entre as duas torcidas. Destaque do Eintracht Frankfurt naquela época, Alexander Meier ressaltou o caráter do encontro: “O jogo foi um belo evento. Estamos aqui por uma boa causa, o que é o mais importante”.

Outro momento importante aconteceu em 2018, quando as duas torcidas celebraram em conjunto seus títulos. O Chemie conquistou a Copa da Saxônia, enquanto o Eintracht voltava a faturar a Copa da Alemanha. Já em setembro de 2019, durante a Data Fifa, os alviverdes retribuíram a visita e foram até Frankfurt para mais um amistoso. O duelo com o Eintracht aconteceu em Bornheimer Hang, estádio construído em 1931 e casa do FSV Frankfurt nas divisões de acesso. O evento foi realizado sob o mote de “Refletores para Leutzsch”, com uma campanha de arrecadação de dinheiro para a instalação de novos refletores no Alfred Kunze Sportpark, em Leipzig. O Chemie tinha acabado de conquistar o acesso de volta à quarta divisão.

Mais uma vez, o Eintracht Frankfurt realizou uma doação institucional ao Chemie Leipzig. Os tricolores entregaram um cheque no valor de €100 mil, que juntava a bilheteria do amistoso, arredondado para cima a partir de um acréscimo feito pela diretoria. Além disso, os alviverdes usaram uma camisa comemorativa que trazia no peito os escudos de ambos os clubes entrelaçados. Na barriga, as faixas verdes do Chemie se misturavam com o vermelho e o preto do Eintracht.

Mais de 9 mil torcedores estiveram nas arquibancadas para celebrar a ocasião, incluindo 1,6 mil seguidores do Chemie que pegaram 400 quilômetros estrada desde Leipzig. As torcidas fizeram diversos bandeirões em conjunto. Um deles trazia a inscrição “BSGE”, juntando as siglas SGE (do Eintracht) e BSG (do Chemie), assim como combinava as cores das duas agremiações. Outro bandeirão representava a Águia, mascote tricolor, cumprimentando o Leão, símbolo alviverde, sob a luz de refletores. Sinalizadores e chuvas de papel picado embelezavam a festa.

O ambiente era tão impressionante que André Silva, que fazia sua estreia pelo Eintracht Frankfurt, perguntou aos companheiros se “aquilo era mesmo um amistoso”. Conforme contou Gelson Fernandes, companheiro de equipe, depois do duelo: “Foi inacreditável e realmente bacana. André Silva me perguntou se era mesmo um amistoso. Eu disse: ‘Sim! Bem-vindo!'. Depois comentei também com Djibril Sow que tinha mais gente nas arquibancadas do que víamos no Campeonato Suíço”. Desta vez, o Frankfurt impôs a sua força. As Águias golearam por 5 a 1, com dois gols de André Silva. O atacante se firmou como grande destaque ofensivo do Eintracht nas duas temporadas seguintes, até se mudar para Leipzig, onde passou a vestir a camisa do RB.

Depois da partida, o técnico do Chemie, Miroslav Jagatic, exaltou a oportunidade: “Foi um grande festival de futebol para nós. Mal podíamos esperar por essa partida, todo mundo se divertiu. Espero que um dia os dois clubes voltem a se enfrentar, quando nossos novos refletores forem instalados”. Todavia, com a pandemia, o projeto para a instalação dos refletores só foi concluído neste ano de 2023. A inauguração da iluminação aconteceu em janeiro, sem que os clubes tenham se encontrado em campo desde então.

Isso não impediu, porém, que as referências entre as torcidas se notassem nas arquibancadas ao longo dos últimos anos. O Chemie continuou presente no Deutsche Bank Park, o estádio do Eintracht Frankfurt, durante as últimas epopeias do clube. Os ultras tricolores levaram faixas em referência aos alviverdes principalmente nos duelos com o RB Leipzig pela Bundesliga. Nesta temporada, por exemplo, foi exibida uma mensagem com a inscrição “Frankfurt e Chemie” em meio à queima de sinalizadores. Também relembravam como o Chemie carregava a tradição do futebol de Leipzig, contraposta com o comercialismo da equipe da Red Bull.

Também nesta temporada, mais um momento significativo aconteceu quando os ultras do Eintracht Frankfurt exibiram um bandeirão com o escudo do clube ao lado do emblema do Chemie Leipzig. A ação ocorrida na partida contra o Union Berlim era um sinal de apoio aos torcedores alviverdes. Semanas antes, a torcida do Chemie tinha sido alvo da violência policial e a massa do Eintracht queria condenar os atos, assim como representar sua solidariedade.

Mesmo nas ruas das cidades, é possível ver referências à amizade entre os dois clubes. Existem grafites e adesivos espalhados por Frankfurt com o escudo do Chemie, assim como o Eintracht aparece representado nas ruas de Leipzig. A união de grupos de ultras pode ter um viés mais violento em certos aspectos, no caso de ocasionais brigas com outras torcidas. No entanto, neste caso, a aproximação entre alviverdes e tricolores se nutre muito mais por um questão de bandeiras parecidas, especialmente no que concerne defender aquilo que entendem como essência do futebol alemão.

Neste sábado, o Chemie Leipzig fará parte da festa na decisão da Copa da Alemanha, ainda mais sendo contra o RB Leipzig. A tendência é que os torcedores do Eintracht Frankfurt exibam bandeiras e faixas com menções aos alviverdes, assim como torcedores do Chemie devem se juntar ao contingente das Águias nas arquibancadas. Pode soar até como uma mera provocação ao time da Red Bull, mas não deixa de ser parte da própria identidade dos tricolores. A relação com a equipe mais modesta e mais tradicional de Leipzig vem de anos, com uma série de episódios solidários que são maiores do que qualquer birra com o RasenBallsport.

 

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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