África

Responsável pela ascensão do Mamelodi Sundowns e nono mais rico da África, Patrice Motsepe é o novo presidente da CAF

A Confederação Africana de Futebol teve pouquíssimos presidentes nas últimas décadas. Afinal, como outras tantas entidades esportivas, a CAF se tornou capitania de um dirigente a partir de 1988: Issa Hayatou, que chegou a ser acusado de corrupção durante o Fifagate, mas só deixou o cargo em 2017 após perder as eleições. Seu sucessor, Ahmad Ahmad, foi responsável por uma gestão caótica. Nesta sexta, ao menos, os africanos ganham uma nova perspectiva com o anúncio do mandatário pelos próximos anos, o sul-africano Patrice Motsepe. Dono da nona maior fortuna da África, segundo a revista Forbes, o empresário da mineração também lidera um dos projetos mais bem-sucedidos do futebol local, à frente do Mamelodi Sundowns.

Durante os últimos quatro anos, a CAF enfrentou diferentes problemas sob a direção de Ahmad Ahmad. O presidente nascido em Madagascar era visto como o representante de novos tempos na entidade, depois dos quase 30 anos sob as ordens de Hayatou. Se o antecessor rezava na cartilha de Sepp Blatter, seu sucessor foi apoiado por Gianni Infantino na eleição. Todavia, o caos imperou em diferentes sentidos.

As denúncias contra Ahmad Ahmad foram feitas inicialmente por Amr Fahmy, secretário-geral da CAF que foi demitido pelo mandatário logo depois de expor os problemas. O egípcio havia enviado documentos à Fifa indicando a corrupção e outros entraves na entidade continental. As acusações contra o presidente eram diversas e graves, incluindo má gestão financeira, pagamento de propinas, superfaturamento de contratos, assédio sexual e abuso de poder. A partir de então, o Comitê de Ética da Fifa iniciou sua investigação.

Em 2019, a Fifa já tinha ordenado uma intervenção na CAF. Na mesma época, Ahmad Ahmad havia sido detido na França para averiguações, mas acabou solto por não existir uma acusação formal. Em novembro de 2020, o malgaxe foi banido por cinco anos do esporte pela Fifa. O congolês Constant Omari assumiu interinamente a presidência da CAF, mas Ahmad Ahmad conseguiu voltar ao posto enquanto recorria da punição. Entretanto, não conseguiu concorrer à reeleição, deixando o caminho livre para Patrice Motsepe.

O próprio Infantino teria participado do processo eleitoral de Motsepe. O sul-africano não era o único candidato da oposição a Ahmad Ahmad e nem o favorito nas urnas, já que outros concorrentes tinham mais bagagem nos corredores da CAF. Segundo o site argelino DZfoot, Infantino viajou por 11 países africanos nas duas últimas semanas para fazer as articulações. Outros três candidatos desistiram do pleito, sob a promessa de ganharem cargos no alto escalão da CAF. Desta maneira, Motsepe foi escolhido sem disputa, após o bloqueio da candidatura de Ahmad Ahmad ser confirmado. Sua imagem como “empresário de sucesso” pesa dentro dessa movimentação. Além do mais, é um aliado de peso ao próprio Infantino nas próximas eleições da Fifa.

Advogado por formação, Motsepe iniciou seus negócios em mineração durante os anos 1990, pouco depois do fim do Apartheid. A partir de então, fez fortuna no ramo e se tornou o primeiro negro africano a figurar na lista de bilionários da Forbes. Já sua entrada nos esportes aconteceu em 2003, quando se tornou dono do Mamelodi Sundowns. Além da influência no mundo empresarial e no esportivo, Motsepe também possui laços estreitos na política local. Atual presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa é seu cunhado. Reconhecido também por suas iniciativas filantrópicas, Motsepe tem uma fundação ligada à luta contra o racismo e a favor da diversidade, além de apoiar projetos educacionais e se envolver no combate ao coronavírus.

O Mamelodi Sundowns, de qualquer maneira, servirá como cartão de visitas a Motsepe na CAF. Com um grande aporte financeiro e um projeto de longo prazo, encabeçado pelo técnico Pitso Mosimane, os “Brazilians” (como o clube é conhecido por suas cores) se tornaram uma força dominante na Premier Soccer League. O time, que havia vencido três títulos nacionais entre 1998 e 2000, conseguiu mais sete taças de 2006 a 2020. Além disso, faturou a Liga dos Campeões da África em 2016, após 21 anos de jejum dos clubes sul-africanos.

Ao ser eleito, Motsepe firmou o compromisso de visitar todos os países africanos para discutir o desenvolvimento do futebol. “É uma grande honra e privilégio ser eleito presidente da CAF. Gostaria de agradecer ao meu irmão Gianni Infantino pela visão e incentivo à unidade. Podemos lidar com os desafios da África e teremos sucesso, mas apenas quando estivermos unidos”, afirmou o novo presidente, de 59 anos. “A liderança que temos na África me dá confiança e me inspira. Estou confiante que, trabalhando juntos, teremos sucesso para fazer com que o futebol africano não apenas atinja o topo, mas esteja entre os melhores do mundo. Visitarei todos os países da África nos próximos meses, porque é importante eu me envolver com seu país, encontrar o setor privado e a liderança política para conversar sobre implementação”.

A curto prazo, Motsepe precisará conter as perdas financeiras da CAF e renovar a imagem da entidade, sobretudo após décadas de má gestão. No entanto, o sul-africano mira um processo de crescimento contínuo para fortalecer as seleções e os clubes, assim como o investimento em infraestrutura. O novo presidente publicou um manifesto com dez pontos, que também enfatiza a importância de apoiar o futebol feminino, o desenvolvimento da base, o profissionalismo dos árbitros e a eficiência da organização das competições. Também promete reformas nos estatutos e uma administração mais transparente.

Um dos projetos de Gianni Infantino é o de criar uma Superliga Africana, que envolveria os principais times do continente. A ideia causa controvérsias parecidas com a ideia de Superliga Europeia, que Infantino é contra, por estabelecer uma elite e aumentar a disparidade entre os clubes, inclusive entre os próprios países. Todavia, a justificativa é de que a nova competição poderá aumentar o dinheiro ao redor do futebol africano como um todo. Por sua trajetória como presidente do Mamelodi Sundowns, Motsepe tende a ser um aliado nesse processo.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo