Mundial de Clubes

O reconhecimento ao grande trabalho de Pitso Mosimane ficou ainda mais em evidência contra o Bayern

Antes do encontro pela semifinal do Mundial de Clubes, Hansi Flick guardou elogios especiais ao Al Ahly. Os egípcios não seriam um adversário desconhecido ao Bayern de Munique nesta quinta-feira. Pitso Mosimane, treinador dos Diabos Vermelhos, tinha sua qualidade reconhecida pelo vencedor da última Champions League. “O Al Ahly é um time que deseja jogar bem e atua de diferentes formas no ataque. Os laterais atacam bastante. Mosimane é ótimo. Sentei com ele por um rápido momento, mas gostei muito de seu estilo”, afirmou Flick. Um reconhecimento mais que merecido ao melhor treinador africano de clubes nos últimos anos e que, de fato, mostraria a capacidade de seu trabalho contra o Bayern.

Não, o Al Ahly não “jogou de igual para igual” contra os favoritos na semifinal. O Bayern dominou a partida e criou bem mais chances, sem aproveitar seu volume ofensivo para ir além dos 2 a 0 no placar. A inferioridade, porém, não significa uma partida ruim do Gigante Vermelho. O time egípcio fez uma atuação acima das expectativas. Conseguiu segurar bastante o ímpeto dos campeões europeus e teve bons momentos durante a noite, mesmo sem  causar tantos problemas diretamente a Manuel Neuer. Os campeões africanos não se apequenaram num jogo dessa importância e venderam caro a derrota, se permitindo sonhar até o final. Mosimane tem seu dedo aí.

Nos tempos de atacante, Mosimane teve uma carreira concentrada no Campeonato Sul-Africano. Participou da elite do país entre os anos 1980 e 1990, durante a transição do Apartheid (a liga rompeu a segregação antes mesmo do restante do país), e disputou quatro partidas pelos Bafana Bafana. Logo definiu seu desejo de se tornar treinador. E não demorou a demonstrar seu talento à beira do campo. Mosimane realizou uma longa passagem no SuperSport United no início dos anos 2000, eleito o melhor técnico do país em 2005, quando faturou a Copa da África do Sul. Já em 2007, ele seria convidado a se tornar auxiliar na seleção. Trabalhou ao lado de Joel Santana e depois de Carlos Alberto Parreira, mantendo-se no cargo até a Copa do Mundo de 2010.

A África do Sul não passou da fase de grupos no Mundial e o próprio Mosimane assumiu o processo de renovação dos Bafana Bafana depois da competição em casa. O novo treinador começou com bons resultados, mas atravessou uma seca e não conseguiu a classificação à Copa Africana de Nações de 2012 – eliminado ao lado do Egito para a surpreendente equipe de Níger. Assim, sua passagem pela equipe nacional não durou mais do que 17 partidas. Em compensação, logo depois Mosimane assumiu o Mamelodi Sundowns, pelo qual atuou nos tempos de jogador. Superou os 300 jogos e atingiu patamares inéditos.

Nos Sundowns, Mosimane conquistou cinco títulos no Campeonato Sul-Africano. Também faturou duas vezes a copa nacional e foi eleito cinco vezes como o melhor técnico do país. Nada comparado, ainda assim, ao que atingiu além das fronteiras. Em 2016, o Mamelodi Sundowns conquistou a Champions Africana pela primeira vez. Foi o primeiro título de um clube sul-africano no torneio continental em 21 anos. O comandante desbancou o Zamalek na decisão e ainda venceu a Supercopa Africana em cima do Mazembe. “Você alguma vez pensou, naqueles tempos, que a África do Sul pudesse ter um presidente negro como Nelson Mandela? É uma história incrível. Dá para acreditar que alguém de Soweto, como eu, que viveu durante o Apartheid, que tem origens humildes, pôde ser o primeiro negro sul-africano a ganhar a Champions Africana? E eu ganhei duas vezes, e me tornei o melhor treinador do ano no continente”, afirmou, à CNN.

Nas temporadas seguintes, Mosimane bateu cartão na Champions Africana. Seria semifinalista em 2018/19, goleando o Al Ahly por 5 a 0 nas quartas de final. Já em 2020, a campanha acabou exatamente diante dos egípcios, enquanto ainda renovava a dinastia do Mamelodi Sundowns no Campeonato Sul-Africano. Neste momento, o Al Ahly era dirigido pelo suíço René Weiler. O comandante ficaria no clube até outubro, deixando o cargo por razões pessoais, para retornar ao seu país. A solução dos egípcios, então, foi buscar o comandante dos Sundowns para o restante de 2020. Era o reconhecimento da magnitude do que o sul-africano realizava em seu país, levado ao time mais vitorioso do continente.

Em sua despedida da África do Sul, Mosimane declarou que estava disposto a deixar sua zona de conforto. Além disso, acreditava que a linguagem do futebol era internacional, sem depender do lugar onde trabalhasse. A decisão seria amplamente compartilhada por sua família, até por uma gestão pouco comum de carreira: a representante do treinador é exatamente sua esposa, Moira Mosimane. Ela auxilia o marido de maneira bem próxima em seu trabalho e se faz presente no próprio dia a dia dos clubes que ele dirige. É uma das bases de seu sucesso.

“Você sente que é uma grande oportunidade em relação ao tamanho do time, em relação a você trabalhar fora do país pela primeira vez. Você precisa sair da sua zona de conforto. Com essa escolha, também tenta mostrar aos outros técnicos do país que é possível sair e dirigir um grande time do continente. O Al Ahly, na África, é como o Real Madrid ou o Barcelona na Europa. É como Santos, Flamengo, River Plate ou Boca Juniors na América do Sul. É grande deste tamanho. Você sabe dos riscos e que não será fácil, porque os técnicos não duram muito lá. Mas eu poderia dizer o mesmo sobre o Mamelodi Sundowns e passei quase oito anos no clube”, afirmaria Mosimane, na época de sua mudança ao Egito.

Com a temporada na reta final, Mosimane aproveitou as bases deixadas por René Weiler e potencializou as chances de título Al Ahly. Conquistou o Campeonato Egípcio e a Copa do Egito, embora o grande feito tenha ocorrido mesmo na Champions Africana. Mosimane conduziu o time a duas vitórias sobre o Wydad Casablanca nas semifinais, antes da histórica decisão diante do Zamalek. Pela primeira vez, o Al Ahly levou a taça num clássico, com uma emocionante vitória definida aos 41 do segundo tempo. Pela segunda vez, o técnico levava a taça continental.

O Al Ahly chegou ao Mundial de Clubes com uma invencibilidade de 31 partidas. Mosimane dirigiu a equipe em 21 desses compromissos, com 17 vitórias. Diante do Al Duhail, nas quartas de final, os Diabos Vermelhos não impressionaram tanto. Mas, apesar da derrota para o Bayern, saíram com moral pela qualidade apresentada. Conseguiram se segurar na defesa, tiveram seus momentos de buscar o ataque e apresentaram ótima intensidade, entre o fim do primeiro tempo e o início do segundo. Os recursos dos bávaros eram obviamente superiores e os egípcios também sentiram o desgaste no final. De qualquer maneira, caíram dignamente no embate.

Mosimane é um treinador que gosta de colocar seus times como protagonistas. Preza pelo jogo ofensivo e pelo bom trato com a bola, mas também cobra intensidade sem a posse. Foi um pouco o que se viu contra o Bayern. Além disso, é descrito como um técnico bastante meticuloso na preparação às partidas. Gosta de estudar os adversários e garantir variações dentro de campo, mesmo que a agressividade seja sempre exigida. E a paixão do sul-africano pelo jogo também se nota por sua postura frenética à beira do campo.

Com seus atletas, Mosimane mantém uma relação bastante próxima. Tenta transmitir uma ideia de que jogam não apenas pela vitória, mas por transformar as próprias vidas e a realidade ao redor. A quem veio de Soweto e realizou trabalhos sociais como treinador na cidade que tanto simbolizou a luta contra o Apartheid, tais palavras ressoam. Ele mesmo é um exemplo, ao se tornar o primeiro treinador negro à frente do Al Ahly e logo emplacando com seguidos títulos à frente dos Diabos Vermelhos.

Mosimane poderá construir uma dinastia no Al Ahly, e o início positivo garante confiança à sequência de seu trabalho. O comandante de 56 anos pensa além. “Temos de ser realistas para dizer que a Europa não tem muitos treinadores africanos. Não quero politizar ou falar em racismo, mas algumas coisas precisam ser ditas como são. Eu acredito que um médico na África do Sul é o mesmo na Europa. Acredito que um arquiteto que se qualificou na África do Sul é um arquiteto na Europa. Então não entendo porque isso é visto de uma forma diferente quando o assunto são treinadores de futebol”, comentou Mosimane, em entrevista à CNN.

“Você não pode me dizer que todos esses grandes jogadores africanos ganharam a Champions na Europa e nenhum deles pode ter a oportunidade de ser técnico. Talvez na geração de nossos filhos as coisas possam mudar. As coisas mudam… Mas primeiro a Europa deve aceitar e dar oportunidades aos técnicos africanos nascidos na Europa, antes de falarmos sobre uma chance a quem sai da África. É um longo caminho”, complementa. Mosimane faz sua parte para conquistar o respeito além das fronteiras. As palavras de Hansi Flick e o próprio jogo contra o Bayern garantem também um certo pioneirismo ao sul-africano, ao menos em termos de reconhecimento. Sua coragem de sair da zona de conforto precisa ser ressaltada. Acima disso, seu talento para dirigir um time e tirar o melhor do coletivo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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