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É vergonhoso Messi se associar ao polêmico governo do Gabão, e pior se realmente ganhou para isso

Enquanto o Barcelona se prepara à pré-temporada, Lionel Messi ainda desfruta de suas férias. Está bem distante dos Estados Unidos, onde o time de Luis Enrique inicia seus treinamentos. Não que venha apenas descansando. No último final de semana, o camisa 10 fez uma visita um tanto quanto surpreendente ao Gabão. Oficialmente, para cumprir uma aposta a Samuel Eto’o, dono de uma academia de futebol no país, e lançar a pedra fundamental do novo estádio que receberá a Copa Africana de Nações de 2017. Mas, segundo a versão extraoficial, sua visita teve outro motivo bem menos nobre.

A revista France Football publicou nesta segunda-feira que Messi recebeu € 3,5 milhões do governo gabonês, embora o craque tenha negado a afirmação. Um oferecimento direto do presidente Ali Bongo (considerado por alguns como ditador), que esteve ao lado do craque durante boa parte da visita e aproveitou para alavancar sua própria imagem ao redor do mundo. Enquanto o argentino aparecia apenas de camiseta, os políticos pareciam receber um chefe de estado. A ponto do próprio presidente se tornar motorista do camisa 10 em um passeio pelas ruas de Libreville.

Não é nenhum problema em Messi ganhar um dinheiro com sua imagem. O que importa é a maneira como isso acontece. E sua visita ao Gabão gerou muitas críticas. A oposição acusou a manobra política de Ali Bongo. Em um país cujo IDH é apenas o 112º do mundo e no qual boa parte da população não passa nem perto dos royalties do petróleo (na última pesquisa, em 2005, quase um terço estava abaixo da linha da pobreza), a presença do argentino custou a construção de obras públicas. Ajudou um governo que tem usado o futebol para expor sua imagem fora do país e garantir a política de “circo” ao povo mais pobre.

Embora já tenha recebido a Copa Africana de Nações em 2012, cosediando com a Guiné Equatorial (do ditador Teodoro Obiang), o Gabão decidiu assumir por si a edição de 2017. Tomou o lugar da Líbia, que desistiu do evento por conta da guerra civil que vive. Algo que já tinha sido feito pelos próprios guinéu-equatorianos em 2015. Se há três anos os gaboneses torraram os seus milhões para levar para lá as seleções de Brasil e Portugal, além de Pelé, os planos desta vez passam por Messi. E dois novos estádios estão sendo construídos apenas para este novo evento, além do outro erguido e do outro reformado para a edição anterior da CAN.

Como se não bastasse, Ali Bongo é uma figura bastante controversa por si. É filho do Omar Bongo, que estabeleceu sua ditadura no Gabão entre 1967 e 2009 – e hoje, não à toa, dá nome ao principal estádio do país. Após anos como ministro e deputado, Ali assumiu a presidência após a morte de seu pai, no que foi considerado um golpe eleitoral pela oposição. Dono de um mandato de sete anos, o chefe de estado não indica que deixará o poder tão cedo, embora enfrente fortes acusações de corrupção e enriquecimento ilícito. Segundo Jack Blum, especialista da ONU, a família de Bongo desviou “cerca de 25% do PIB do país, e isso os fez incrivelmente ricos”. Em 2012, até mesmo Barack Obama foi criticado ao receber a visita do governante africano na Casa Branca.

Se Messi estivesse no Gabão por uma visita social, seria excelente. Mas a mera decisão de se aproximar de um governante considerado é um ditador já é altamente contestável. Pior se recebeu mesmo dinheiro por isso, sabendo das mazelas locais. E ainda mais para quem enfrenta na justiça espanhola um processo por evasão fiscal. Uma bola fora enorme do craque.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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