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Al Ahly conquista a África pela 8ª vez. O que explica a hegemonia?

Pela oitava vez, a África é pintada de vermelho e branco pelo Al Ahly. Maior campeão da história do continente, o clube egípcio levantou a taça da Liga dos Campeões Africana pelo segundo ano consecutivo. Na primeira vez em que o Cairo pôde ter um estádio lotado desde o massacre de Port Said, quando 74 pessoas foram assassinadas, os Diabos Vermelhos trataram de encher de orgulho os 60 mil presentes no Estádio al-Muqawilyn al-‘Arab e bateram o Orlando Pirates por 2 a 0 – no jogo de ida, na África do Sul, prevalecera o empate por 1 a 1.

O título assegura o Al Ahly no Mundial de Clubes, neste ano disputado perto de casa, no Marrocos. Os egípcios duelarão com o Guangzhou Evergrande para ver quem será o adversário do Bayern de Munique na semifinal. E o maior trunfo da equipe é a experiência: somente o Auckland City esteve presente tantas vezes quanto os africanos no torneio, cinco vezes cada.

Uma hegemonia que se reflete há um pouco mais de tempo na LC, com seis troféus conquistados desde 2001, além de um vice-campeonato neste período. Nenhum outro clube do mundo possui tantos títulos continentais no Século XXI e só o Real Madrid supera os Diabos Vermelhos na história, com nove taças da Champions.

Mas o que explica o sucesso tão grande do Al Ahly na África? Vale lembrar que, desde o ano passado, a única competição que o clube disputa é a Liga dos Campeões, já que o Campeonato Egípcio de 2012 foi cancelado após a violência em Port Said e, retomado neste ano, outra vez se interrompeu por causa da instabilidade política no país. Uma situação que atrapalha os Diabos Vermelhos, mas não diminui sua força. Abaixo, cinco pontos que ajudam a explicar essa supremacia continental:

Aboutrika comemora o gol que abriu a vantagem para o Al Ahly
Aboutrika comemora o gol que abriu a vantagem para o Al Ahly
A força do futebol egípcio

Embora a vaga na Copa do Mundo não venha desde 1990 (e não deva acontecer de novo, depois da derrota por 6 a 1 para Gana no jogo de ida das Eliminatórias), a qualidade do futebol egípcio dentro do contexto continental é inegável. Os Faraós são os maiores campeões da Copa Africana de Nações. E essa situação se reflete também entre as ligas. Dentre principais potências locais, os egípcios são os únicos que conseguem manter boa parte de seus astros atuando por equipes locais. O Al Ahly, com diversos nomes que servem à seleção, é o principal expoente deste quadro.

A base antiga do elenco

Uma questão diretamente relacionada ao ponto anterior. O Al Ahly não apenas conseguiu montar uma equipe forte, como também segurou seus jogadores por muito tempo. E o entrosamento é notável. Sete titulares do time neste segundo jogo da final estão no clube há pelo menos quatro anos.

A motivação após o massacre

A perda de 72 torcedores de maneira tão trágica mexeu com os jogadores. Na comemoração do título em 2012, o elenco vestiu camisas com o número na cerimônia de entrega da taça. E certamente a motivação perdurou neste ano, especialmente no segundo jogo da final, quando o time reviu a torcida no Cairo. A festa depois do jogo, com vários atletas correndo rumo às arquibancadas, demonstra isso.

O peso da camisa

A mística ajuda o Al Ahly a intimidar adversários e crescer nos momentos de decisão. Se a falta de ritmo de jogo não ajuda, contar com a pressão dos torcedores costuma empurrar os Diabos Vermelhos – mesmo quando estava jogando nas etapas anteriores do torneio em El Gouna, 430 km de distância de Cairo, por motivos de segurança. Um exemplo disso veio contra o próprio Orlando Pirates, que venceu o Al Ahly na fase de grupos e acabou engolido na final.

Mohamed Aboutrika

Não dá para negar a genialidade do craque do Al Ahly. Aos 35 anos, o meia ainda é um dos melhores jogadores africanos. E tão importante quanto sua qualidade técnica é o comprometimento com o clube. Em 2012, o camisa 22 cogitou até a aposentadoria ao ver um torcedor morrer em seus braços em Port Said. Continuou e chegou até a se rebelar a jogar se a justiça não fosse feita contra os culpados. Neste ano, passou alguns meses emprestado ao Baniyas, dos Emirados Árabes, mas voltou a tempo de recolocar o Al Ahly no topo. Foram cinco gols em 10 jogos na LC, dois deles nas finais. Na comemoração, vestiu outra vez a camisa em alusão aos ’72 mártires’.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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