ÁfricaCopa do Mundo

Egito perdeu a chance de dar um grande orgulho a seu povo

O Egito tinha todos os motivos para se manter confiante na campanha rumo à Copa do Mundo. Por mais que não tenham se classificado para as últimas duas edições da Copa Africana de Nações, os Faraós faziam campanha irretocável nas Eliminatórias. Seis jogos e seis vitórias na competição, única seleção com 100% de aproveitamento na África. Até a visita a Acra enterrar as esperanças de voltar ao Mundial após 24 anos.

Os egípcios sabiam que o sorteio havia sido cruel demais com eles. Os tropeços constantes nos últimos anos manteve a equipe longe das melhores posições no Ranking da Fifa, o que colocaria um adversário de peso em seu caminho. Gana foi a melhor seleção africana nas duas últimas Copas do Mundo, o que tornava uma derrota no jogo de ida, fora de casa, até aceitável. Mas não da forma como aconteceu: 6 a 1 para os Estrelas Negras, em uma atuação desesperada da defesa e pouco efetiva dos homens de frente. Como ainda há o jogo de volta, a classificação ainda é possível, mas nem o torcedor mais confiante deve imaginá-la.

Venerado pelos torcedores, o técnico Bob Bradley tem à disposição uma geração envelhecida, que tentava finalmente concretizar o sonho de disputar a primeira Copa do Mundo. Seus principais jogadores são remanescentes do tricampeonato africano, conquistado em 2010. O dono do time é Mohamed Aboutrika, que, aos 34 anos, não deve continuar no time na tentativa de ir à Rússia em 2018. As esperanças agora se concentram em Mohamed Salah, que passa a carregar o fardo de ser o principal jogador egípcio aos 21 anos. Talento, ao menos, ele tem para repetir o feito de Hossam Hassan em 1989, quando classificou os Faraós ao Mundial da Itália.

A Copa do Mundo poderia ser uma válvula de escape para a população no Egito. O esporte já tinha sido uma ferramenta importante de manifestação diante das transformações vividas pelo governo. É certo que a instabilidade vivida e a descontinuidade do futebol no país atrapalhou, mas o caráter motivacional para os jogadores era maior. Se a classificação ao Mundial acontecesse, mais uma vez o futebol iria agitar as relações políticas que ainda estão sido tecidas no país. Agora, depois de uma goleada tão vergonhosa, o povo tem o direito de voltar a Praça Tahrir e manifestar. Desta vez, contra a seleção que ia enchendo a todos de orgulho nos últimos meses.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo