Repare bem na foto acima. Ela traz em destaque Graham Taylor e Sir Elton John, treinador e presidente do Watford, mais de três décadas atrás. As duas lendas dos Hornets estão em um palco, rodeadas por milhares de torcedores. E o que mais impressiona não é a maré de gente, mas sim o motivo que levou todos a se reunirem. No dia anterior, o clube disputou a final da Copa da Inglaterra, a primeira de sua história. Ao contrário do que a imagem pode sugerir, os amarelos perderam o jogo. Mesmo assim, a multidão saiu às ruas. Não era questão de celebrar o triunfo. Era uma confraternização motivada pelo orgulho. Aquele Watford, afinal, é tão lembrado porque resgatava uma essência do futebol: a valorização da comunidade. Wembley nada mais era que a materialização do castelo onde se viveu o capítulo apoteótico de um conto de fadas. O final feliz, definitivamente, não dependeu de uma vitória.

Se o Watford que enfrenta o Manchester City na decisão da FA Cup deste sábado tenta negar o improvável, há 35 anos o clube tornou real um sonho visto como impossível. O futebol inglês não era o abismo financeiro que se nota atualmente, em que os pequenos serão uma vespa a zumbir no ouvido do bilionário time de Pep Guardiola, tentando impedir a inédita tríplice coroa nacional. Em 1984, todos tinham o direito de ambicionar. A ponto de uma equipe sair da quarta divisão e, seis anos depois, pisar em Wembley diante de 100 mil pessoas para disputar a taça mais antiga do esporte. Era este o Watford de Graham Taylor, um treinador de cabeça arejada e ideias que iam além das quatro linhas. Era este o Watford de Sir Elton John, o astro da música que se dedicou ao clube com todo o seu coração. É essa história fantástica que o retorno do Watford a uma final de Copa da Inglaterra, 35 anos depois, remonta.

“Não sabíamos disso na época, mas a final de 1984 provou ser o auge do passeio mágico na escalada que o magistral Graham Taylor nos conduziu. Para os torcedores mais velhos, pensar no Watford aparecendo em uma final de FA Cup era risível. Foi mais uma ocasião para se beliscar e acreditar que aquilo realmente estava acontecendo. Graham nos deu muitas dessas ocasiões”, descreveu o torcedor Richard White, em coluna dedicada ao jornal Watford Observer antes da nova final. Palavras definitivas, que se amplificam quando se pensa no peso que a Copa da Inglaterra ainda possuía naquele momento. Era o suprassumo da emoção, a grande final da temporada inglesa. O Watford pôde experimentar esta realidade especial.

A caminhada dos torcedores de Watford e Everton a Wembley (Peter Robinson/EMPICS via Getty Images)

Pertencimento é a palavra perfeita para descrever a epopeia do Watford rumo a Wembley. E pertencimento é o que levou Elton John ao comando do clube. O músico cresceu na região de Vicarage Road e frequentava as arquibancadas com seu pai durante a infância. Todavia, a ascensão à diretoria aconteceu somente depois de seu sucesso na música. Convidado inicialmente para um cargo figurativo, o astro passou a se envolver com a agremiação. Chegou a fazer um show para 30 mil pessoas no estádio, vestido de “zangão”, o mascote. Até que, em 1976, realizou seu ato mais enlouquecido. Tirou dinheiro do próprio bolso para comprar um time que acabara de cair à quarta divisão. A partir de então, seria ele o presidente dos Hornets.

Sir Elton John não era um mero aventureiro no futebol. Ele tinha conhecimentos sobre o esporte e sobre gestão. Investia em contratações, mas optando pelas promessas, sem torrar fortunas em medalhões. E não faria sua revolução sozinho. A mente pensava grande, mas ele também precisava de parceiros que concretizassem suas ideias. Encontrou uma solução em Graham Taylor, o treinador capaz de colocar a mão na massa. O músico aceitou o conselho de Don Revie, comandante da seleção inglesa. Segundo o veterano, Taylor seria o melhor nome para liderar a ascensão. Quando o astro ligou para o então técnico do Lincoln City, tudo soava como insanidade. O projeto de chegar às copas europeias era como um sonho impossível. Contudo, o presidente conseguiu convencer seu novo funcionário. Começavam uma parceria eterna. Uma fraternidade, a ponto de se tratarem como irmãos.

Graham Taylor precisou de apenas uma temporada para tirar o Watford da quarta divisão. Em duas, também emendou o acesso na terceira divisão. Passaria três campanhas na segundona, até concretizar sua terceira promoção em cinco anos. E os Hornets, de time pouco conhecido, fariam a sua estreia na primeira divisão do Campeonato Inglês em 1982/83. Mas sem nunca deixar de ser um “clube de bairro”. Essa era uma identidade inegociável em Vicarage Road. Um caráter diferente, em uma época na qual o futebol no país definhava com o hooliganismo.

Graham Taylor e Elton John fazem um brinde em Vicarage Road (Std/Daily Express/Hulton Archive/Getty Images)

O pertencimento no Watford não se limitava a Elton John sentado na tribuna de honra. O clube também abria os portões de Vicarage Road. Graham Taylor incentivava a aproximação com o público. A agremiação promovia eventos à comunidade dentro do estádio, abrindo os portões para confraternizações. Jogadores faziam apresentações “artísticas” para entreter os visitantes. Enquanto isso, o próprio gramado chegava a ser tomado por crianças, brincando em gincanas. Outro momento ímpar acontecia nas premiações de fim de ano, quando jogadores e torcedores brindavam em um bar da cidade. Já imaginou algum time de futebol fazendo isso hoje em dia? Pois os Hornets eram capazes, mesmo depois da escalada à elite inglesa.

Elton John costumava deixar o clima mais leve. Não tinha qualquer estrelismo diante dos jogadores e, com o tempo, eles se acostumavam com sua presença. O presidente levava outros amigos famosos aos vestiários, com menção honrosa a Rod Stewart, também doente por futebol. E as brincadeiras eram normais. Certa feita, um dos membros da comissão técnica se vestiu como o chefe num show de talentos organizado por Graham Taylor na concentração. Começou a cantar e todos riam muito, o que o levou a pensar que sua imitação era ótima. Quando olhou para trás, percebeu que o próprio Elton John entrara no palco e repetia seus trejeitos como uma sombra. O músico contribuía ao ambiente singular dos Hornets.

“Éramos conhecidos no mundo todo por causa de Elton. Havia vantagens. Todos os anos fazíamos viagens fabulosas: Jamaica, Tailândia, Cingapura, China. Elton era bem informado sobre o futebol, o víamos nos treinos e nos jogos. Ele foi aos vestiários em Wembley. Todos os anos fazia uma festa em sua casa, em Windsor. Todos no clube eram convidados, das senhoras da lavanderia aos jogadores. Acabávamos nos misturando com os outros convidados, como Rod Stewart e a mãe de Elton. Ele significa muito para o clube”, contou Les Taylor, capitão na decisão em Wembley, ao Daily Mail.

Elton John saúda a torcida em Wembley (PA Images via Getty Images)

Graham Taylor, por sua vez, tinha um brilho natural no olhar. O treinador era afável com os comandados e com o público. Sempre prezava pelo respeito com os seus fãs. Respondia as cartas enviadas a ele, inclusive por crianças, e, criticado pelos torcedores do Watford, chegou a entrar no gramado com uma bem-humorada placa pedindo desculpas. Uma empatia que não o fazia perder a franqueza, talvez sua grande virtude. Quando necessário, dava broncas nos atletas e mandava a real para o presidente Elton John. Além do mais, as ideias claras produziram um futebol eficiente dentro de campo. Valorizava as táticas, era um pioneiro ao privilegiar as estatísticas, garantia um reforço especial ao preparo físico. Cuidados que se refletiam em campo, não apenas nas divisões de acesso.

Com um estilo de jogo muito direto, o Watford também surpreendeu na primeira divisão. O “kick and rush” dos Hornets funcionava bem e entretinha, impulsionado pelos predicados ofensivos. Elton John sempre foi um exímio descobridor de talentos. Assim, Luther Blissett e John Barnes viraram jogadores de seleção. A promessa de classificação às copas europeias se cumpriu logo cedo. Na temporada de estreia, os nanicos foram vice-campeões nacionais, superados apenas pelo esquadrão do Liverpool. Garantiram vaga na Copa da Uefa.

O fenômeno ocorrido em Vicarage Road tornou o Watford mais visado. Artilheiro do Campeonato Inglês, Luther Blissett terminou vendido ao Milan. De qualquer forma, cérebro e coração estavam preservados, com a continuidade de Graham Taylor e Elton John. Os Hornets não conseguiram repetir seu ritmo na liga, terminando num já razoável 11° lugar, e também não foram longe na Copa da Uefa, eliminados pelo Sparta Praga nas oitavas de final, após despacharem Kaiserslautern e Levski Sofia. Em compensação, daria para sonhar um pouco mais na Copa da Inglaterra. Se os britânicos gostam tanto de exaltar a magia da competição, plural entre seus participantes e propensa aos milagres, aquele time do Watford ajudou a alimentar um bocado o imaginário dos compatriotas.

John Barnes é o mais exultante, após seus dois gols contra o Birmingham (PA Images via Getty Images)

O destino foi matreiro naquela FA Cup. O primeiro compromisso do Watford no torneio guardou logo um confronto com o Luton Town, seu maior rival. Dois clubes da região de Londres, que se estabeleciam na elite do Campeonato Inglês. Os torcedores precisaram aguardar até a prorrogação do replay para que o escocês Mo Johnston definisse a vitória por 4 a 3 em Vicarage Road. Apesar das doses de estrelismo, o reforço ao ataque suplantou bem Luther Blissett e se tornou ídolo da torcida. Na sequência, os Hornets superariam Charlton, Brighton e Birmingham – este, em outro jogo duro, resolvido por dois gols de John Barnes. Nas semifinais, cumpriram o favoritismo contra o surpreendente Plymouth, da terceira divisão. O triunfo por 1 a 0 no Villa Park assegurou a passagem inédita a Wembley. Uma ocasião histórica não só para o clube, mas para toda a comunidade de Watford.

Uma comoção tomou as ruas no noroeste da metrópole. Entre a classificação nas semifinais e a decisão em Wembley, a região viveu 35 dias intensos de expectativas. Bandeirinhas foram penduradas entre as árvores e postes, enquanto as lojas se enfeitavam com as cores do clube. Acima da vontade de vencer, estava o orgulho por tudo o que aquela gente ajudava a construir. Elton John era um filho querido, Graham Taylor se tornou um velho amigo, os jogadores se mantinham abertos aos fãs. Era uma chance única e a população se abraçou ao momento. Até que o esperado 19 de maio chegasse.

“O Watford não tinha ‘eles’, era ‘nós’. E esse ‘nós’ se estendeu por toda a cidade. Fizemos competições das melhores decorações nas casas e o gerente da loja do clube estava vendendo tudo que era relacionado à FA Cup. Houve uma genuína e palpável ‘febre de copa’. A final da competição era ‘O Jogo’ no calendário doméstico. Era a única partida em que víamos os bastidores dos jogadores no hotel e em que acabavam entrevistados enquanto passeavam admirados na grama bem cuidada de Wembley. O país parava naquele dia, se reunia e se alegrava com a rivalidade esportiva”, relatou Ed Coan, antigo relações públicas do Watford, em entrevista recente ao site da Football Association.

Graham Taylor comemora com seus comandados a classificação à final ( S&G/PA Images via Getty Images)

Nunca o Watford tinha jogado em um estádio tão grande. Pois a sua gente ajudou a tornar a ocasião tão espetacular. Lotaram o seu setor nas arquibancadas, com bandeiras e outros tantos adereços nas três cores do clube. Era uma grande família. E ninguém poderia estar mais orgulhoso que o presidente, Elton John. O astro vestiu um terno bem cortado, usando também um extravagante chapéu. A gravata trazia as cores do time, assim como as flores na lapela. Ele daria uma volta olímpica para saudar os torcedores antes do pontapé inicial, exibindo um largo sorriso, no que era chamada “A Final da Amizade”. Porém, o cantor também não escondeu as suas lágrimas nas tribunas. Seu choro desabou quando a multidão entoou em uníssono “Abide With Me”, canção que serve como hino da Copa da Inglaterra desde 1927.

Apesar das sensações ao seu redor, o Watford não teria uma missão grata naquela final. Encararia o Everton de Howard Kendall, que começou a despontar como uma potência nacional justamente a partir daquele momento. Pior, os Hornets jogariam sem o seu capitão, o lateral Wilf Rostron, expulso durante um clássico recente contra o Luton Town pelo Campeonato Inglês. E as lesões também atrapalhariam Graham Taylor, obrigado a escalar uma defesa com média de idade de 20 anos. No fim das contas, os Toffees garantiram a vitória por 2 a 0. Graeme Sharp abriu o placar pouco antes do intervalo, enquanto Andy Gray arrematou o triunfo durante a etapa complementar – em tento sobre o qual os Hornets até hoje se queixam, quanto à falta não marcada em cima do goleiro Steve Sherwood. Seria necessário aplaudir os oponentes, na primeira de suas oito taças erguidas até 1987.

Uma cena inesperada, aliás, poderia ter ocorrido se o Watford fosse campeão. É o que revelou o capitão Les Taylor ao Telegraph: “Tudo o que eu conseguia pensar era no que faria quando fosse levantar a taça. Sabia que eu era o capitão só porque os outros não estavam disponíveis. Eu era a quarta escolha. Não queria passar por egoísta, como se todos os holofotes se concentrassem em mim. Então, eu decidi que iria pedir para que Elton John subisse no palco e erguesse o troféu no meu lugar. Claro, isso nunca aconteceu”.

Os torcedores do Watford agradecem aos torcedores em Wembley (Peter Robinson/EMPICS via Getty Images)

O que aconteceu, e as fotografias provam, é uma comemoração além do resultado. A comunidade de Watford não queria necessariamente celebrar a taça. O desejo era exaltar a epopeia ao redor de um clube pequeno, que em seis anos saíra da quarta divisão e do anonimato, para protagonizar a final mais prestigiosa do futebol inglês. O ápice a qualquer time nanico. Os jogadores desfilaram em carro aberto pelas ruas da cidade. Já no palco armado, Elton John e Graham Taylor comandavam a festa em meio à erupção popular. Um ambiente que dificilmente se repetirá ante uma derrota. A partir de então, aos poucos, os Hornets começaram a arrefecer. Chegaram ainda a outra semifinal da copa, em 1986/87, a última temporada sob as ordens de Graham Taylor. O time terminou rebaixado no ano seguinte. Já em 1990, Elton John, que vinha diminuindo sua participação, vendeu suas ações e deixou a presidência.

A dupla ainda voltaria a outras jornadas em Vicarage Road. De certa maneira, se o Watford hoje aparece como um clube de Premier League, há um longo legado iniciado por aquela ascensão meteórica nos anos 1980. E os antigos bastiões continuam presentes. Elton John, vez ou outra nas arquibancadas, também servindo de presidente honorário e até recomendando contratações. Graham Taylor, no coração de cada torcedor, imortalizado em forma de estátua após sua morte, há dois anos. O espírito de 1984 prevalece, rumo a uma nova jornada em Wembley.

Os antigos jogadores foram convidados pelo clube para esta final da Copa da Inglaterra. Já nas ruas de Watford, novamente as cores do time predominam, entre decorações especiais e grafites nos muros. A comunidade se redescobre, em outros tempos eufóricos. Sir Elton John certamente não perderá a oportunidade de se emocionar com “Abide With Me”. E quem carregará a herança do passado, sobretudo, é o capitão Troy Deeney – um cara que alimenta a essência de outros tempos do futebol inglês. A realidade é distinta em relação a 35 anos atrás: os Hornets possuem um grupo bem mais cosmopolita, o Manchester City representa um desafio maior. A permissão para sonhar, ainda assim, é a mesma. O conto de fadas de 1984 serve de inspiração.

A final da Copa da Inglaterra entre Watford e Manchester City será realizada neste sábado, às 13h (Brasília), e transmitida exclusivamente pelo site e pelos aplicativos do DAZN. Aproveite o mês grátis oferecido pelo serviço de streaming, em parceria com a Trivela, para assistir a este jogaço, clicando aqui.