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As homenagens a Graham Taylor, um homem que cultivou aquilo que é mais apaixonante no futebol

A morte costuma ser um momento natural de homenagens. As controvérsias muitas vezes ficam de lado para que as boas lembranças perdurem. No entanto, você sabe a grandeza do caráter de uma pessoa quando as histórias de generosidade não param de surgir. É assim com Graham Taylor, falecido na última quinta, aos 72 anos. Sim, ele foi o técnico da seleção inglesa que fracassou na tentativa de classificar o país à Copa do Mundo de 1994. E, por mais que tenha errado em decisões profissionais, os ataques foram desmedidos com um dos personagens (ainda assim) mais queridos do futebol inglês. Praticamente todos que tiveram oportunidade de cruzar seu caminho o aclamaram. Afinal, o treinador prezava por aquilo que sonhamos no futebol: proximidade com as pessoas, alegria, simplicidade. Sobretudo, humanidade.

VEJA TAMBÉM: Adeus, Graham Taylor, o técnico que fez maravilhas com o Watford da quarta à primeira divisão

Sua primeira passagem pelo Watford é marcante não apenas pelos resultados, tirando a equipe da quarta divisão e colocando na segunda posição do Campeonato Inglês, mas também pelos conceitos que defendia. Em campo, os Hornets apresentavam um futebol simples e direto, mas bastante ofensivo. De certa maneira, era um resgate ao tradicional ‘kick and rush’. Mas não só isso, diante da inteligência atravessar o campo em poucos toques e encontrar as brechas nas defesas adversárias – se você pensou em algo semelhante ao que o Leicester fez na temporada passada, dá mesmo para traçar um paralelo. “Eu acredito em jogar a bola ao ataque o máximo possível e o mais rápido possível, sabendo do risco de perder a posse fazendo isso. Mas, embora seja um anátema para tanta gente o que vou dizer, os gols vêm dos erros, não da posse”, analisava. Para o treinador, o futebol tinha que ser jogado para a gente nas arquibancadas, para empolgá-la, e não por sofisticação. E assim se manteve em outros trabalhos.

Taylor também tinha uma ótima mão para descobrir talentos. Em seu Watford, os principais destaques eram dois atletas talentosíssimos – e negros, em tempos nos quais o racismo criava uma atmosfera de segregação no futebol inglês. Luther Blissett era o atacante potente fundamental ao estilo, referência desde a quarta divisão, e vendido ao Milan após o vice de 1982/83, quando foi artilheiro do Campeonato Inglês. Já a parte artística do jogo ficava por conta do ponta John Barnes, um dos melhores jogadores ingleses dos anos 1980 e 1990, que posteriormente se tornaria ídolo do Liverpool e disputaria duas Copas do Mundo. No Aston Villa, que também levou da segundona ao vice-campeonato, lapidou jogadores como David Platt e Martin Keown, além de ter descoberto Dwight Yorke. Já na seleção, ofereceu a primeira convocação a craques como Alan Shearer, Paul Ince e Ian Wright.

Além disso, Taylor era um entusiasta da aproximação com o público. Não era raro que ele promovesse eventos à comunidade dentro do próprio clube. Em alguns dias sem jogos, abria os portões de Vicarage Road para criar um clima de confraternização. Jogadores faziam apresentações “artísticas” para entreter os visitantes. Enquanto isso, o próprio gramado chegava a ser tomado por crianças, brincando em gincanas. Algo impensável no pomposo futebol da Premier League, mas que ocorria há três décadas.

Neste sentido, Taylor sempre prezava pelo respeito com os seus fãs. Respondia as cartas enviadas a ele, mesmo quando era uma criança pedindo uma vaga na seleção inglesa. Nos anos 1980, criticado pelos torcedores do Watford, entrou com uma placa no gramado pedindo desculpas. Já em outra oportunidade, quando estava no Aston Villa, fez questão de acompanhar a visita de um torcedor com fibrose cística, que já não podia frequentar os jogos por causa da grave doença, ao CT do clube. O treinador apresentou o local e seus jogadores. Seis meses depois, quando o rapaz morreu, Taylor foi até seu funeral.

E, ao mesmo tempo em que era gentil, Graham Taylor não deixava de encarar questões sérias. Ídolo do Manchester United e do Aston Villa, Paul McGrath costuma agradecer pela vida ao ex-treinador, depois que ele e a esposa, Rita Taylor, o auxiliaram na luta contra o alcoolismo. Já nos tempos de seleção, em pleno banco de reservas, o comandante chegou a repreender um torcedor racista nas arquibancadas, depois de ouvir insultos a John Barnes, que seguiu como um de seus homens de confiança. Era pai de tantos atletas, irmão de tantos colegas. Até mesmo de Elton John, seu chefe no Watford.

Diante de tudo isso, é até natural que as homenagens a Taylor tenham sido amplas neste final de semana. Não só os jogos da Premier League, mas também de divisões inferiores na Inglaterra respeitaram um minuto de silêncio ao treinador e exibiram sua imagem nos telões. As maiores emoções, logicamente, aconteceram em Vicarage Road. Torcedores do Watford levaram camisas, cachecóis e flores para depositar na entrada do estádio. O programa do jogo contra o Middlesbrough foi todo para homenagear ‘o maior técnico da história dos Hornets’, enquanto as bandeiras de escanteio eram negras. Nas arquibancadas, a torcida ainda fez um bandeirão e um mosaico. Rita, a viúva de Taylor, não conteve as lágrimas. Já na segunda divisão, coincidentemente, Wolverhampton e Aston Villa se enfrentaram, dois ex-clubes do técnico. Uniformes feitos com flores serviram para o tributo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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