A rica história das Eliminatórias na América do Sul possui diversos capítulos memoráveis, mas poucos tão intrincados e grotescos quanto aquele ocorrido em 3 de setembro de 1989. O Brasil x Chile decisivo do Maracanã, que valia uma vaga na Copa de 1990, possui um enredo digno de filme. O confronto já vinha recheado de animosidades entre as seleções e até antecedentes violentos, insuflados pela irresponsabilidade do técnico Orlando Aravena. Depois de uma verdadeira batalha em Santiago, o reencontro decisivo no Maracanã carregava uma evidente tensão. Acabaria desencadeando um dos maiores escândalos que o futebol sul-americano vivenciou.

Por coincidência, um rojão que estourou no gramado se tornou a deixa perfeita para o goleiro Roberto Rojas pôr em prática a armação arquitetada antes mesmo de entrar em campo. O arqueiro chileno simulou uma lesão seríssima, mas que terminou facilmente comprovada como farsa, numa tentativa frustrada de classificar sua seleção. E que o Brasil tenha com justiça garantido sua vaga no Mundial da Itália sem precisar terminar o jogo, aquela noite teria desdobramentos bem mais dramáticos ao outro lado da história. Privou o Chile de disputar as Eliminatórias à Copa de 1994, suspendeu membros da equipe, baniu Rojas do futebol e até mesmo promoveu a fugaz fama da torcedora responsável por atirar o sinalizador em campo. Se a “fogueteira do Maracanã” hoje é relembrada como folclore, a realidade há 30 anos foi bem mais problemática.

OS ANTECEDENTES DA CONFUSÃO

Ao longo dos anos 80, o futebol brasileiro viveu confrontos marcantes contra equipes chilenas em Santiago, sempre (para nós) num sentido negativo. Em 1981, entrou para a história da Copa Libertadores a batalha enfrentada pelo Flamengo no segundo jogo decisivo diante do Cobreloa no Estádio Nacional, com todo o tipo de intimidação – da polícia, da torcida, da arbitragem e sobretudo dos jogadores adversários, agredindo os rubro-negros até com pedras.

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Quatro anos depois, uma derrota por 2 a 1 para a Roja no mesmo estádio motivou o rompimento dos jogadores da Seleção Brasileira dirigida por Evaristo de Macedo com a imprensa, o que logo levaria à demissão do treinador. E em 1987, de novo pela Libertadores, foi a vez do São Paulo sofrer com as pedras e garrafas atiradas pela torcida do Colo Colo no empate em 2 a 2 pela última rodada da primeira fase da competição sul-americana.

Por isso, quando o sorteio das Eliminatórias para a Copa de 1990 colocou os chilenos de novo no caminho do Brasil, temeu-se por esse histórico recente. E havia ainda uma coincidência curiosa e incômoda: o Grupo 3 da América do Sul seria formado pelas mesmas seleções da chave da Copa América de 1987: Brasil, Chile e Venezuela. E naquela ocasião, a Seleção de Carlos Alberto Silva havia sido eliminada com uma humilhante goleada de 4 a 0 para a Roja.

UM TÉCNICO FALASTRÃO

Dirigia aquela seleção chilena de 1987 um certo Orlando Aravena, 44 anos, ex-meia de Deportes La Serena, Colo Colo e Palestino, e que fizera bom trabalho como técnico neste último, levando ao vice nacional um ano antes. Os 4 a 0 sobre o Brasil elevaram sua trajetória até então um tanto discreta ao status de semideus no país. E ele tratou de vestir o personagem, com declarações de efeito – antes da goleada, chamara aquela Seleção Brasileira de “um leão manso”.

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Colocado no cargo quase como um tapa-buraco naquele primeiro momento, Aravena levaria o Chile à final da Copa América realizada na Argentina, perdendo o título para o Uruguai por 1 a 0. Efetivado no início de 1988, seus resultados no primeiro ano não foram convincentes. Mas os empates com a Argentina campeã do mundo em Santiago e com a Inglaterra em Londres trouxeram de volta o otimismo ao treinador. Até em excesso.

Em junho, durante a fase de treinamentos da seleção em seu país visando à Copa América no Brasil, o treinador afirmava abertamente que seu “terceiro momento histórico” no comando do Chile estava chegando: depois dos 4 a 0 sobre a Seleção em 1987 e do 0 a 0 com a Inglaterra em Wembley, o próximo feito – algo que tinha como uma certeza – seria “entrar para a história como o primeiro adversário a tirar o Brasil de um Mundial”.

E não parava aí: Aravena não se furtava a encher a própria bola (“Sei como organizar taticamente uma seleção para liquidar com o adversário”) e a de seus comandados. Não se conformava com o fato de clubes italianos preferirem atletas brasileiros e argentinos aos de seu país: “O Chile tem gente muito melhor. No entanto, nossos jogadores só conseguem contratos na Grécia, Turquia, França e outros países sem um campeonato tão forte”, protestava.

Mas o Chile tinha problemas. Além de nem sempre poder contar com os “estrangeiros”, seu ataque se mostrava tímido. Se por um lado segurara o 0 a 0 com os ingleses, por outro havia marcado apenas um gol na excursão (1 a 0 na Irlanda do Norte). Nos outros jogos, derrotas por 2 a 0 para Escócia e Egito. Aravena minimizava: “A delegação só pensava em ir para casa. Era o fim de uma viagem vitoriosa onde só interessava o resultado de Wembley”.

Na chegada a Goiânia, onde sua equipe jogaria a primeira fase da Copa América, Aravena seguiu alfinetando a Seleção: “O Brasil não precisa se preocupar. Se ganharmos a vaga nas Eliminatórias, seremos campeões do mundo e a vergonha não vai ser tão grande”. Porém, a campanha fraca no torneio sul-americano indicaria o primeiro abalo no prestígio de Aravena junto à própria imprensa chilena, apesar de alguns desfalques de atletas não liberados por seus clubes.

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Na estreia, o time perdeu para a Argentina por 1 a 0 num jogo de baixo nível técnico. Depois, caiu por 3 a 0 para o Uruguai com Letelier expulso no primeiro tempo ao acertar um pontapé por trás em Rubén Sosa. Ensaiou uma reação goleando a fraca Bolívia por 5 a 0 e, na última rodada, precisava vencer o Equador por três gols de diferença para ir ao turno final. Fez apenas 2 a 1 e foi eliminado. Não sem novas polêmicas por parte de seu treinador.

“A expulsão de Letelier no começo do jogo com o Uruguai foi um absurdo”, irritou-se Aravena após aquela partida. Na mesma coletiva, o treinador tentava desviar-se das críticas às quais vinha sendo submetido pela imprensa chilena acusando abertamente a existência de um complô contra sua seleção: “A Confederação Sul-Americana de futebol tem interesse em classificar o Brasil para a Copa”. Dali a algumas semanas, as Eliminatórias teriam início.

Para tentar a vaga na Copa da Itália, os chilenos fizeram questão de trazer todo o seu contingente que atuava no exterior: o goleiro Roberto Rojas (São Paulo), o zagueiro Fernando Astengo (Grêmio), os meias Alejandro Hisis – que jogava de lateral – e Jaime Vera (OFI Creta), o armador Jorge Aravena (Puebla) e os atacantes Hugo Rubio, Iván Zamorano (St. Gallen), Patrício “Pato” Yañez (Betis), Ivo Basay (Stade de Reims) e Osvaldo Hurtado (Charleroi).

O Brasil do técnico Sebastião Lazaroni manteve praticamente o mesmo grupo que conquistara a Copa América, com poucas mudanças: dos 22 convocados para o torneio, os atacantes Baltazar e Charles foram excluídos e cinco outros nomes foram chamados: o lateral Jorginho, o atacante Careca (ausentes da competição por lesão), o zagueiro Mozer (que não havia sido liberado por seu clube, o Olympique de Marselha), o meia Bismarck e o ponteiro Edivaldo.

COMEÇA A GUERRA DAS ELIMINATÓRIAS

E a Seleção começou aproveitando o embalo da conquista. Se na primeira fase da Copa América o Brasil havia derrotado a Venezuela sem brilho por 3 a 1 na Fonte Nova, a atuação na abertura do Grupo 3 das Eliminatórias foi muito mais convincente, mesmo jogando em Caracas. Branco abriu o placar com um chutaço de fora da área no primeiro tempo e, na etapa final, Romário fez o segundo e Bebeto anotou mais dois para decretar a goleada de 4 a 0.

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A atuação fez com que Aravena pela primeira vez se mostrasse preocupado com o Brasil: “Este time de agora está mais compacto. Não havia a mesma movimentação pelo meio, nem pelas laterais”, avaliou, comparando com a equipe de 1987. Mesmo assim, seguia confiante em seu time, que enfrentaria a Venezuela em Caracas dali a uma semana: “Vamos ganhar de 5 a 0 para passarmos para o nosso lado a vantagem que hoje tem o Brasil”, previa.

Não foi o que aconteceu, com o triunfo por 3 a 1. Sobrinho do treinador e jogador mais técnico do meio-campo chileno, o armador Jorge Aravena marcou dois gols e foi o melhor em campo. Mas o time sofreu mais que o esperado. A Venezuela descontou na metade da etapa final, e a Roja só saiu do sufoco graças a um gol do jovem atacante Iván Zamorano, seis minutos depois. No saldo de gols, os chilenos já saíam atrás na disputa pela vaga no Mundial.

O próximo ato seria a batalha de Santiago entre chilenos e brasileiros. Quem esperava hostilidade por parte do público chileno na chegada da Seleção a Santiago, no entanto, se surpreendeu. Com muitas crianças presentes, os treinos no campo do Universidad Católica aconteceram em clima de cordialidade. Lazaroni retribuía as gentilezas com elogios à Roja – a qual considerava um bom conjunto com ótimos valores individuais – para a imprensa local.

Aravena ainda tentou continuar com as provocações. Na quarta-feira, disse a jornalistas que “o Brasil vai cair tão feio como Maguila caiu”, numa alusão à derrota do boxeador brasileiro para o norte-americano Evander Holyfield, um mês antes. Porém, o técnico recebeu uma “enquadrada” da federação chilena e logo depois mudou o tom: apressou-se em negar ter batido boca com Romário pela imprensa e apontou o Brasil como favorito.

Assim, quase nada indicava a guerra que se transcorreria no Estádio Nacional de Santiago naquele domingo, 13 de agosto de 1989. E que começara antes mesmo do pontapé inicial e levaria à expulsão de Romário com apenas três minutos de partida. O atacante recebeu uma mordida no peito dada pelo chileno Hisis e empurrou de volta o adversário, que caiu. O goleiro Rojas correu para o auxiliar, que delatou ao árbitro a “agressão” do brasileiro.

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Romário se justificava: “Queriam o que? Na hora doeu muito. Eles armaram uma jogada contra mim. Antes mesmo da partida, o oito (Ormeño) meteu o dedo no meu olho. Assim é demais. Agora estou calmo, lamentando a expulsão, mas na hora não deu para pensar. A expulsão foi correta, mas ele (Hisis) deveria ter sido expulso também”, protestou o atacante após o jogo. Não seria a primeira polêmica de arbitragem naquela tarde.

Pouco antes, Ormeño havia se lançado numa voadora contra Branco, atingindo o joelho esquerdo do lateral e tirando-o da partida. Levou cartão amarelo, e seria expulso aos 13, ao acertar um pontapé em Valdo após perder a bola e iniciar um contra-ataque brasileiro. Furioso, o chileno ainda tentou agredir o árbitro colombiano Jesús Díaz Palacios, tendo de ser contido pelos próprios colegas. Entre expulsos e feridos, o primeiro tempo terminaria empatado em 0 a 0.

Na etapa final, o Brasil abriria o placar logo aos 11 minutos após grande jogada de Mazinho e uma trapalhada da defesa chilena. O lateral desceu pela esquerda, tabelou com Silas, deu um drible da vaca em Astengo e tentou o cruzamento rasteiro buscando Bebeto. Puebla interceptou, mas Astengo rebateu em cima de González, e a bola foi morrer no fundo das redes, num gol contra patético, mas que já fazia justiça ao bom jogo do Brasil.

Mas os chilenos, que já haviam tentado um gol à força empurrando Taffarel e toda a defesa brasileira para dentro da meta em meio a um bate-rebate na pequena área aos 27 minutos, acabariam chegando ao empate num lance ainda mais grotesco, que começou com uma boa defesa em dois tempos de Taffarel numa finalização de Basay. O árbitro Jesús Díaz Palacios, no entanto, apitou um sobrepasso do goleiro brasileiro.

Enquanto os jogadores brasileiros questionavam a marcação, Jorge Aravena tomou a bola das mãos de Taffarel, colocou na grama e, de dentro da pequena área, rolou para trás para o chute de Basay, que estufou as redes. Lance completamente irregular, mas que acabou validado pelo árbitro. Revoltado, Lazaroni levantou-se do banco e foi à beira do campo protestar. Foi cercado por policiais chilenos e chegou a levar um chute de um deles.

No desembarque da Seleção, em meio à revolta geral do elenco e comissão técnica, até mesmo Lazaroni deixava a diplomacia de lado: “Trata-se de um imbecil”, comentou sobre Aravena. “Ele é perigoso. Insuflou os jogadores chilenos de maneira criminosa contra a nossa Seleção”. Houve críticas até à Fifa, que abriu mão de realizar o exame antidoping, delegando a tarefa à federação chilena, que não cumpriu com a obrigação.

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Os chilenos, do outro lado, retrucavam. Após o jogo, Aravena culpou a imprensa brasileira de ter fomentado o clima tenso do jogo e afirmou que o Brasil se salvou graças a um “gol fortuito”, com o que concordava o meia Hisis: “A Seleção Brasileira deu sorte porque jamais teria feito um gol no Chile”. Para os chilenos, sua seleção merecia ter vencido. E a imprensa local chegou a colocar Lazaroni como responsável pela confusão “por ter tentado invadir o campo”.

Na sexta-feira após o jogo, a Fifa anunciou as punições: Romário e Ormeño foram suspensos por um jogo, enquanto Orlando Aravena ficaria duas partidas de fora do banco chileno. O Estádio Nacional foi interditado até ordem em contrário, e o Chile perdeu o mando de campo da partida que faria em Santiago contra a Venezuela. Também pegaram gancho o massagista brasileiro Nocaute Jack e o goleiro reserva Zé Carlos, acusado por Palacios de tê-lo ofendido.

Em entrevista à revista Placar, o meia Jorge Aravena criticava o fechamento do estádio, afirmava irritado que “não houve nada” no jogo de Santiago e que a partida havia sido disputada “num clima normal”. Ainda qualificava como correta a marcação do sobrepasso de Taffarel, e atribuía as provocações de seu tio Orlando à “mentalidade vencedora própria da equipe chilena”. E também confiava em obter a classificação para a Copa no jogo do Maracanã.

“Estou convencido de que o Brasil teme o Chile dentro de campo – percebi isso em Santiago. Por isso estou plenamente convencido de que o Brasil não participará, pela primeira vez em sua história, de uma Copa do Mundo. Vai ter de assistir pela televisão. Uma derrota no Maracanã só é tratada em nossas rodinhas de brincadeiras”, afirmou o meia, que vivera no ano anterior um trauma pessoal: a morte de seu filho Jorgito, de quatro anos, vítima de leucemia.

A HORA DA DECISÃO

As Eliminatórias seguiram. Uma semana depois do jogo de Santiago, o Brasil goleou novamente a Venezuela, agora no Morumbi. Em melhor forma física, Careca substituiu o suspenso Romário e marcou quatro vezes na vitória por 6 a 0, com um gol de Silas e outro contra de Acosta fechando a contagem. No domingo seguinte, em Mendoza (Argentina), foi a vez da Roja golear a Vinotinto, mas por “apenas” 5 a 0, ficando mesmo atrás no saldo.

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Ao Brasil, portanto, bastava o empate na decisão da vaga, no dia 3 de setembro, no Maracanã. Mas jogadores e comissão técnica não se satisfaziam com um ponto. “Tenho certeza que vamos realizar uma grande atuação e dar um chocolate neles. Nossa resposta será no campo”, afirmou Lazaroni após o jogo de ida. Antes do último jogo, ele dava a receita para a vitória: “Tranquilidade, confiança, atenção e aplicação nos 90 minutos”.

Sem poder contar com Mozer, a quem Lazaroni considerava o líbero ideal em eu 3-5-2, mas que fora chamado de volta pelo Olympique de Marselha antes do início das Eliminatórias, o técnico escalou à frente de Taffarel o trio de zagueiros formado por Aldair, Mauro Galvão (na função de líbero) e Ricardo Gomes. Nas alas, devido a uma distensão sofrida por Mazinho em Santiago, jogavam Jorginho pela direita e Branco pela esquerda.

No meio, Dunga atuava mais recuado, com Valdo e Silas criando as jogadas para Bebeto e Careca. Pelo mesmo motivo de Mozer, os chilenos também não contariam com o titular Rubio e o reserva Zamorano, mas confiavam no talento de Jorge Aravena, no faro de gol de Letelier e na segurança do goleiro Rojas, que dizia antes do jogo: “O Brasil é um time completo. Mas a campanha hostil que fizeram contra a gente mostra que eles nos respeitam”.

E Rojas de fato foi um dos destaques do primeiro tempo, mostrando ótimos reflexos ao defender uma cabeçada de Careca e outra de Branco, além de espalmar um chute venenoso, de curva, do lateral-esquerdo. A violência chilena também deu as caras quando Puebla – repetindo um gesto que havia feito sobre Júnior no jogo entre Cobreloa e Flamengo em 1981 – derrubou Bebeto e pisou de propósito sobre o atacante caído.

Mesmo precisando do empate, o Brasil era o único que atacava. Mas a torcida teve de esperar até o início do segundo tempo para comemorar a abertura do placar: aos cinco minutos, Bebeto deu um belo passe a Careca, que se livrou da marcação e chutou cruzado e rasteiro da entrada da área. Nem Rojas, nem o zagueiro chileno que correu em direção à meta conseguiram deter a bola que entrou lentamente e foi parar nas redes. Brasil 1 a 0.

A GRANDE FARSA

O alívio brasileiro, porém, transformou-se em tensão, não pela pressão chilena em busca do empate, mas por um incidente que marcaria para sempre a história da partida. Aos 23 minutos, um rojão foi lançado da arquibancada e pousou perto de Rojas. Em meio à fumaça, o goleiro caiu e o jogo foi interrompido. Enquanto os chilenos carregavam para os vestiários seu herói ferido, com o rosto coberto de sangue, os brasileiros se mostravam apreensivos.

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O árbitro argentino Juan Carlos Loustau permaneceu em campo, aguardando a volta dos chilenos, pelos 20 minutos regulamentares. Informado de que os jogadores não voltariam, comunicou ao zagueiro e capitão Astengo que o Maracanã oferecia condições satisfatórias de segurança e que, portanto, a saída chilena seria considerada abandono de campo na súmula, com possível punição. Entre jogadores e dirigentes do Chile, porém, o clima era de revolta.

“Quero ver se a Fifa terá coragem de punir o Brasil”, atacava o meia Hisis. O zagueiro Astengo, jogador do Grêmio, culpava os brasileiros pelo incidente: “Eles criaram esse clima”. O presidente da federação chilena, Sergio Stoppel, ainda remoendo as consequências da batalha de Santiago, também subia o tom: “Vou exigir a anulação da partida. Vou pedir a realização de outra partida em campo neutro. Quero a punição da CBF e a interdição do Maracanã”.

A imprensa chilena também carregava nas tintas: “O petardo explodiu no rosto de Rojas”, afirmou o jornal Las Últimas Notícias. O La Tercera chamava os brasileiros de “mafiosos” em sua manchete e prosseguia: “Selvagem agressão pode deixar Rojas cego”. A revista Minuto 90 estampava na capa “Criminosos” e trazia declarações do goleiro sobre o incidente: “Só vi uma luz azul, senti o impacto e nada mais. Só fui despertar no vestiário”.

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A farsa, no entanto, durou pouco: no dia seguinte, imagens publicadas na imprensa brasileira mostravam que o rojão, um sinalizador marítimo, havia caído a alguns metros do goleiro e que o sangue de Rojas só aparecia depois, quando o arqueiro havia levado as mãos ao rosto. Para completar, o laudo médico apontava não haver qualquer sinal de queimadura, como seria lógico, e sim cortes provocados por algum instrumento pontiagudo.

Roberto Rojas, 32 anos, começara a carreira no pequeno Deportes Aviación, de Santiago, em meados dos anos 70. Com a dissolução do clube, fez testes em outras equipes até conseguir um lugar no poderoso Colo Colo, em 1982. Pelo Cacique, havia vencido dois campeonatos nacionais e uma Copa Chile, além de debutado na Roja em junho de 1983. E não demorou a se estabelecer como dono da posição na seleção ao longo da década.

Na Libertadores de 1987, teve atuação espetacular na vitória do Colo Colo sobre o São Paulo de Müller, Silas, Pita e Neto em pleno Morumbi por 2 a 1. Três meses depois, em agosto daquele ano, era contratado pelos tricolores. Sua adaptação, no entanto, seria difícil, e ele logo perderia o lugar para Gilmar. Quando veio ao Maracanã com a seleção chilena para enfrentar o Brasil pelas Eliminatórias, seu contrato com o clube havia expirado há quatro dias.

Rojas não compactuava da confiança aparentemente inabalável de seus companheiros em vencer o Brasil no Maracanã e conquistar a vaga na Copa. “Eu sabia que nossas chances eram iguais a zero”, declararia anos depois. Teve então a ideia de forjar algo para melar a partida. Pensou em levar uma gilete dentro da luva, para se cortar simulando ter sido atingido por algo, e começou a planejar junto com o capitão Astengo e o massagista Alejandro Kock.

A “FOGUETEIRA DO MARACANÔ

A secretária Rosenery Mello Nascimento da Silva, 24 anos, torcedora do Fluminense, moradora de São Gonçalo e funcionária da Light (companhia de energia elétrica da capital carioca), tinha ido ao Maracanã pela primeira vez naquela tarde, com o marido e uma amiga. Na entrada do estádio, recebeu, a pedido de um desconhecido, um saco plástico que continha dois foguetes de sinalização da Marinha para fugir da revista policial.

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Rosenery enfiou os rojões no casaco e entrou. Mas em um Maracanã com cerca de 140 mil pessoas, não conseguiu reencontrar o dono. No intervalo, procurou descobrir do que se tratava e como funcionava. Depois do gol de Careca, pensou em lançar o sinalizador de luz verde, o que só faria aos 23 minutos. Achando que tinha atingido Rojas, estava em choque ao fim da partida: “Eu não podia adivinhar que o foguete ia cair na cabeça dele”.

Para a farsa de Rojas, o sinalizador no gramado era o álibi perfeito. Prontamente, o goleiro caiu e levou as mãos ao rosto – foi o momento em que tirou do velcro da luva a gilete que havia colocado lá no intervalo. Revoltados, acreditando que o goleiro havia realmente se ferido, os demais atletas chilenos levaram-no ao vestiário junto com o médico da seleção, Daniel Rodríguez, que deu dez pontos no corte e disse oficialmente que ele havia sido causado pelo foguete.

Uma semana após o jogo, a Fifa anunciou sua decisão, com base em deliberação do Comitê Organizador do Mundial: diante do abandono de campo pelos chilenos, o Brasil era declarado vencedor por 2 a 0 e, portanto, classificado para a Copa. Pelo sinalizador que caiu em campo, a CBF foi multada em 20 mil francos suíços, quantia que seu presidente, Ricardo Teixeira, pretendia ter ressarcida numa ação judicial por perdas e danos contra Rosenery Mello.

Mas o desfecho não ficou só nisso. Semanas depois, o Comitê Disciplinar da Fifa convocou Rojas para prestar esclarecimentos. No dia 25 de outubro, saía a sentença: o goleiro estava suspenso por três meses do futebol e eliminado de competições internacionais de clubes e seleções. Com base em fotografias e no laudo médico, a entidade concluiu que o jogador simulou a contusão, aproveitando-se da queda do sinalizador.

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Na mesma reunião, a Fifa anunciou uma multa de US$ 31 mil à federação chilena, e declarou que consideraria novas sanções. E elas viriam em 8 de dezembro: Rojas teve seu caso reavaliado e acabou banido por completo do futebol, assim como o médico Daniel Rodríguez, por ter assinado o falso laudo. Já o ex-presidente da federação chilena Sergio Stoppel, o técnico Orlando Aravena e o zagueiro Fernando Astengo foram suspensos por cinco anos.

A seleção do Chile, por sua vez, foi excluída das Eliminatórias da Copa do Mundo de 1994, o que definitivamente tiraria de uma geração inteira de jogadores a chance de disputar um Mundial. Outros, como Iván Zamorano – que em 1993/94 começava a viver seu auge no Real Madrid –, teriam o sonho adiado. O Chile só retornaria a uma Copa em 1998, na França, 16 anos depois da última participação, no Mundial espanhol, em 1982.

Em maio de 1990, Rojas revelaria toda a trama ao La Tercera. Nos anos seguintes, viveria quase como um pária em seu próprio país. Por ironia, foi salvo pelo futebol brasileiro. Mais irônico ainda: por um técnico que reprovava com veemência o antijogo. Em 1994, Telê Santana estendeu a mão ao ex-goleiro, convidando-o para trabalhar como treinador de goleiros no São Paulo. O perdão oficial viria em 2001, quando seu banimento foi retirado pela Fifa.

Rosenery teve o processo da CBF contra ela arquivado. Ainda naquele ano, em novembro, posou nua para a revista Playboy, recebendo US$ 40 mil de cachê, rapidamente torrados. Dois anos depois, separou-se do marido e foi tentar a vida em Brasília. Sem sucesso, voltou ao Rio e, com o dinheiro que restava, virou dona de sacolão em São Gonçalo. Em junho de 2011, aos 45 anos, a “Fogueteira do Maracanã” faleceria vítima de aneurisma cerebral.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.