O projeto promissor de Unai Emery no Arsenal, que nunca decolou de fato, está acabado cerca de um ano e meio depois de ter começado. O técnico não resistiu à péssima sequência de sete jogos sem vitória, a pior do clube em 27 anos. Sua demissão, anunciada nesta sexta-feira (29), era tragédia, bom… anunciada. Incapaz de implementar o que ele mesmo determinara como objetivo de estilo de jogo, o basco deixa os Gunners sem muita lamentação da torcida.

Se Wenger gozava de grande prestígio no norte de Londres e por isso resistiu a uma série de temporadas sem resultados ou bom futebol, Unai Emery tinha um tempo muito mais curto para apresentá-los. Em sua chegada, delineou como queria fazer jogar o seu Arsenal.

“Nosso estilo com a bola é sermos protagonistas, fazer coisas com combinações, controlar a partida com o posicionamento da bola e, então, quando houver espaço, sermos agressivos no ataque. Defensivamente, a primeira coisa é ser organizado e recuperar a bola rapidamente”, projetou.

Apesar das duas derrotas nos dois primeiros jogos, contra Manchester City e Chelsea, o time lentamente mostrava um futebol de intensidade cada vez maior, buscando aprimorar a saída com passes da defesa. Pela primeira vez depois de anos de descarrilamento com Wenger, o Arsenal parecia trilhar um caminho rumo a uma nova identidade. Ele poderia ser longo, mas ao menos existia. Mas mesmo isso foi pelos ares.

Com o passar do tempo, Emery foi largando sua ideia de protagonismo e cada vez mais se encaminhando a um estilo mais pragmático, tentando adaptar a equipe a cada adversário, em vez de desenvolver sua própria identidade. Isso foi o começo do time perdido que vimos ultimamente. De positivo na primeira temporada, ficou o vice na Liga Europa.

Nessas últimas semanas, é difícil entender o que Emery buscava. Após todo esse tempo, a defesa segue sem qualidade para sair tocando a bola, e o meio de campo não consegue ajudar defensivamente. O ataque tem boas opções, mas, em um time desequilibrado como esse, não é o bastante.

É verdade que as peças que tinha à disposição para a defesa não eram as melhores, mas isso também aumenta a culpa de Emery em sua própria queda. Embora sua última janela de transferências tenha sido interessante, com a chegada de um promissor lateral esquerdo em Kieran Tierney, uma aposta que inicialmente se prova acertada em Gabriel Martinelli e o empréstimo do craque da Euro Sub-21 deste ano, Dani Ceballos, faltou reforçar a frágil zaga. O nome contratado, em cima da hora, foi David Luiz, que pouco fez sentido lá atrás e assim continua.

O desequilíbrio do mercado fica ainda mais acentuado quando acrescentamos à lista acima a contratação mais cara do Arsenal: Nicolás Pépé. Um ponta veloz, habilidoso e um dos melhores da Ligue 1 na temporada passada, é verdade. Ainda assim, mais um nome de ataque, e por nada módicos £ 72 milhões.

Por esse valor e sem ter se provado em uma grande liga, Pépé é o tipo de contratação que se faz quando se tem um time relativamente redondo com o qual trabalhar. Isso necessariamente passa por resolver suas maiores carências, e as do Arsenal estavam em seu sistema defensivo, seja na linha de defesa em si ou em nomes para o meio de campo capazes de auxiliarem a marcação.

Unai Emery no Arsenal

78 jogos – 43 vitórias, 16 empates e 19 derrotas
55,1% de aproveitamento

Com este equilíbrio, talvez pudéssemos ter visto outra história se desenrolar no Emirates. Em vez de se entregar ao pragmatismo e entrar nas partidas para não perder, uma equipe balanceada, com defesa forte, poderia justamente possibilitar a Emery implantar o estilo que desejava lá no início.

Saindo da questão técnica e indo à gestão de pessoal, o basco mais uma vez mostrou sua inaptidão. Se no PSG o episódio que ilustrou a falta de controle sobre o elenco foi o quão evasivo o treinador foi ao responder a questão da briga de Neymar e Cavani para ver quem bateria um pênalti, no Arsenal tudo girou em torno da faixa de capitão.

Em uma escolha que demonstrou falta de liderança, Emery não escolheu ele mesmo quem seria o capitão dos Gunners, mas, sim, abriu uma eleição no elenco para o que o dono da braçadeira fosse escolhido. Calhou que Granit Xhaka, uma figura controversa entre os torcedores e sem o perfil adequado, foi o eleito. Durou pouco: depois ser substituído sob vaias da torcida no Emirates e gesticular em provocação aos torcedores, perdendo, então, a faixa de capitão.

O caso foi apenas o mais emblemático da má gestão pessoal do técnico, que em suas últimas semanas à frente do clube teria perdido completamente a confiança de figuras importantes do elenco, que não entendiam suas escalações, suas táticas e suas alterações, segundo o Telegraph.

A priori, Emery tinha uma boa ideia de como recolocar o Arsenal entre os grandes. Mas foi tremendamente ineficaz e não justificou a sequência do voto de confiança. Por fim, a situação ficou insustentável no elenco, com a derrota para o Eintracht Frankfurt por 2 a 1, na quinta-feira (28), sendo a mais recente demonstração de que Emery havia perdido o grupo.

Depois do fracasso no PSG, Emery desperdiçou mais uma ótima chance de se provar como grande treinador. Com apenas 48 anos, tem ainda tempo de se reencontrar e reiterar o sucesso que alcançou no Sevilla, com o tricampeonato da Liga Europa entre 2013/14 e 2015/16. Mas terá que fazer bem melhor do que o que vimos em Londres.