Tottenham de Mourinho abraçou o caos e tem feito alguns dos jogos mais divertidos da Inglaterra

Especialmente desde a lesão de Harry Kane, os Spurs trocam golpes incessantemente com seus adversários - e têm colhido bons resultados

José Mourinho dormiu na cadeira do barbeiro e, quando acordou, não gostou de como estava seu cabelo. Imediatamente pediu a máquina um para raspar a cabeça. “Espero que cresça novamente”, disse, ao relatar a simpática anedota que pode ser usada também para contar parte da história do começo do seu trabalho no Tottenham.

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Mourinho foi demitido do Manchester United com a péssima imagem de um treinador defensivista, que havia sido ultrapassado e usava as artes das trevas para impedir que houvesse futebol nos jogos em que considerava que seu time era inferior. Isso foi especialmente verdade em clássicos impossíveis de assistir, nos quais parecia que a principal missão do português era que todo mundo tivesse uma tarde horrível.

Ao deixar Old Trafford, Mourinho tirou alguns meses sabáticos e foi esperto ao escolher um próximo projeto que estava precisando de um dia no salão de beleza, desgastado após anos de sucesso com Mauricio Pochettino. E nessa junção de circunstâncias, ganhou a oportunidade de fazer crescer o cabelo de sua carreira de uma maneira diferente.

Ainda é cedo demais para saber se Mourinho está trocando um corte tigela por um moicano, com problemas de lesão, sem reformular o seu elenco, sem fazer uma pré-temporada completa, mas o fato é que o treinador que comandava os jogos mais chatos da Premier League agora está no banco de reservas dos jogos mais divertidos.

A vitória por 3 a 2 do último domingo sobre o Aston Villa teve de tudo – com contribuição do Villa que não teve um 0 a 0 até agora na temporada. Houve vilão virando herói, houve vilão virando herói e depois virando vilão de novo, uma virada, um pênalti defendido, um gol no rebote de um pênalti defendido, goleiro salvando a pátria do time da casa e uma vitória suada arrancada nos minutos finais.

A questão mais abrangente é que esse tipo de partida não tem sido exceção. Foi o quarto 3 x 2 do Tottenham de José Mourinho, placar mais comum de seu mandato no norte de Londres. O duelo anterior, contra o Southampton, na Copa da Inglaterra, teve esse placar e roteiro parecido. Ainda houve um 4 x 2 diante do Olympiacos e mais um punhado de 2 x 1.

Em uma de suas entrevistas quando foi apresentado, Mourinho descartou as acusações de que seria um ortodoxo do jogo feio. “Eu sou bem flexível. Sou flexível para às vezes ir contra minhas próprias ideias, mas para escolher a maneira certa de ter sucesso nesses países”, afirmou, ao ser questionado sobre seus títulos em nações diferentes como Portugal, Espanha e Itália, além da Inglaterra.

As circunstâncias do Tottenham sem dúvida obrigaram-no a se adaptar. Herdou um elenco que executava uma ideia quase diametralmente oposta à que ele apresentava no Manchester United e não teve cofres abertos para revolucioná-lo na janela de transferências de janeiro – e nem seria sábio fazer isso em um mercado mais difícil e inflacionado.

Faltam jogadores mais fortes no meio-campo para dar suporte ao camisa 10 que quase sempre brilha em seus times, talvez zagueiros em forma melhor do que os envelhecidos Vertonghen e Alderweireld, com certeza laterais mais confiáveis e, desde janeiro, falta Harry Kane. Quando Mourinho tinha um centroavante forte, muito técnico e com presença no campo de ataque, ainda dava para de vez em quando usar a ligação direta. Sem ele, o Tottenham tem precisado se adaptar.

“Um time sem Harry está encontrando dificuldades óbvias, dificuldades que são a natureza da Premier Legue, mas, em meio às dificuldades, estamos encontrando uma maneira diferente de jogar futebol. Estamos encontrando uma maneira diferente de criar oportunidades e marcar gols suficientes para nos colocar em posição de lutar por uma boa posição na tabela”, afirmou Mourinho, após a vitória contra o Villa, que ele considerou como o jogo em que seu time mais criou oportunidades.

E realmente deve ter sido. O gol de Son que garantiu a vitória aos 49 minutos do segundo tempo poderia ter saído antes, não fossem grandes defesas de Pepe Reina. A partida teve 41 finalizações, sendo 23 do Tottenham, um total bem acima da média dos jogos com Mourinho em um dos lados desde que ele retornou à Inglaterra para o Chelsea em 2013.

Essa não é uma métrica definitiva, mas ajuda a ilustrar a mudança. O total somado de chutes dados e sofridos dos Spurs comandados pelo português está em linha com as últimas temporadas de Mourinho no país, na casa dos 25 por partida, com uma campanha fora da curva, em 2013/14, que bateu em 28,5.

Uma diferença notável está nos números de finalizações sofridas pelo time do treinador que se notabilizou por não correr riscos.

O Tottenham tem levado, em média, 13,4 chutes por jogo da Premier League. Na meia temporada que representou o fim da sua passagem pelo Manchester United, essa estatística estava em 12,5, tirando o jogo que causou a demissão de Mourinho em que o Liverpool finalizou 36 vezes (e o United, seis). Com ele, fica em 13,9.

Nas duas temporadas anteriores em Old Trafford, foram 11,5 e 9,5. Nas duas primeiras campanhas completas do segundo trabalho à frente do Chelsea, respectivamente, 10,3 e 10,9.

Desde a lesão de Harry Kane, contra o Southampton, cinco rodadas atrás, o total de chutes por partida em jogos do Tottenham pela liga inglesa disparou para perto de 30, e isso porque ele conseguiu bater a gol apenas três vezes na vitória contra o Manchester City. Finalizou em média 14 bolas por jogo e sofreu 15,6 arremates, número defensivo bem pior do que os seus times costumavam registrar.

Um trio de ataque com Son, Lucas Moura e Steven Bergwijn precisa pegar velocidade para ferir os oponentes e, para isso, precisa de campo para correr. O efeito colateral é que os jogos do Tottenham acabam sendo menos controlados e mais caóticos. Não foi vazado em apenas três dos 20 sob o comando de Mourinho.

Mas vem dando certo. Apenas o Liverpool somou mais pontos que o Tottenham (26) desde a chegada de Mourinho. Subiu de 14º ao quinto lugar e agora está a apenas um ponto do Chelsea, no limiar da zona de classificação para a próxima Champions League, o que parecia improvável no momento em que Pochettino foi demitido.

Que essa maneira de jogar seja imposta pelas circunstâncias, podemos pelo menos torcer para que Mourinho use essa experiência até aqui positiva (embora tenha levado sorte em algumas partidas) para lembrar que dá para ganhar se divertindo um pouco mais e quando estiver decidindo se voltará para a próxima temporada com um novo visual ou o mesmo corte de cabelo batido dos últimos tempos.

Kick and rush 

– O Chelsea simplesmente derreteu. Por problemas pontuais, oscilação normal de jovens, falta de reforços em janeiro, limitações de repertório de Lampard, lesões ou tudo isso ao mesmo tempo, o fato é que de grande favorito para a quarta vaga na Champions League agora é difícil não imaginar que os Blues sejam ultrapassados. Tottenham, Sheffield United, Manchester United e até Wolverhampton e Everton estão bufando em seu cangote.

– Interessante como o VAR, especialmente o inglês, tem ajudado a nos ensinar as regras do futebol. Ninguém sabia que existia impedimento quando a bola era tocada para trás até o gol do Wolverhampton ser anulado na sexta-feira, no 0 a 0 contra o Leicester, porque Pedro Neto estava impedido quando saiu o passe para devolvê-lo uma cobrança de escanteio curta.

– Ainda não dá para ter certeza se Mikel Arteta no Arsenal dará samba, mas a evolução é visível. Embora tenha empatado demais, perdeu apenas uma vez desde que o espanhol assumiu a equipe, para o Chelsea, e a goleada sobre o Newcastle deu uma amostra do que este time pode fazer quando a identidade que está adquirindo amadurecer um pouco mais.