Os austríacos encantaram o mundo do futebol na primeira metade da década de 30. Os artífices do time, Hugo Meisl e Jimmy Hogan, montaram a estratégia da equipe em um café vienense. A liderança na equipe caberia ao brilhante Matthias Sindelar, que ficou conhecido como o “Der Papierene (feito de papel)”, pela leveza de suas jogadas precisas e por sua incrível agilidade com a bola. Dono de um estilo clássico, inteligente, era um centroavante rápido, extremamente difícil de marcar e exímio goleador. Chamado de “Mozart do futebol”, pelos jornalistas e Motzl pelos os companheiros de equipe, Matthias Sindelar permanece como o jogador de futebol mais brilhante que a II Guerra Mundial roubou do futebol.

História

Único filho homem de uma família proletária judia de imigrantes tchecos, Sindelar nasceu em 10 de fevereiro de 1903, na Vila de Kozlov, na Moravia, atual República Tcheca. A difícil situação econômica do pai, que era pedreiro, obrigou-o a se mudar, ainda garoto, com a mãe e as três irmãs para Viena, capital do Império Austro-Húngaro. O futuro craque cresceu em Favoriten, um subúrbio industrial repleto de fábricas de tijolo.

Em terrenos baldios, com uma bola de trapos, Sindelar ensaiou os primeiros dribles que, mais tarde, resultariam em um estilo apurado, cerebral, marcado por jogadas imprevisíveis e gols de rara beleza. A morte de seu pai na Primeira Guerra Mundial, em 1917, tornou o garoto em um adulto precoce. Aos 14 anos, Sindelar já cuidava da família e paralelamente à atividade de mecânico, jogava futebol no time de meninos do Hertha, de Viena.

Permaneceu no clube por seis anos até se transferir, em 1924, para o poderoso Áustria Viena. No entanto, o início foi doloroso. Sua fragilidade física gerou desconfiança e na primeira temporada, sofreu uma grave lesão de meniscos. Submetido a uma operação inédita na época, o atacante se recuperou em poucos meses. Em seu primeiro jogo pela seleção austríaca, em 1926, marcou dois gols na vitória por 7 a 1 sobre a Suíça. Era o início de uma era de partidas memoráveis, como a goleada de 5 a 0 sobre a Escócia, em 16 de maio de 1931, que deu origem ao termo “Wunderteam” (time maravilhoso). Sob o comando do técnico Hugo Meisl, considerado o pai do futebol austríaco, Sindelar, Schall, Vogl e seus companheiros apresentaram ao mundo um estilo inconfundível de jogar futebol, em que trocavam passes até o adversário abrir espaços para uma investida fulminante ao gol.

De 1931 a 1933, com o mundo divido em blocos e sob nova fase de tensão, desencadeada pela crise de 1929, o “Wunderteam” disputou 16 jogos, marcou 63 gols e sofreu 20. Foram 12 vitórias, todas com momentos históricos, como o 6 a 0 na Alemanha, em Berlim, e um 8 a 2 na Hungria, em Viena; houve dois empates e duas derrotas: uma para os tchecos, por 2 a 1; outra para a Inglaterra, em Wembley, por 4 a 3, lembrada até hoje por um gol antológico de Sindelar.

Em fevereiro de 1934, um golpe militar instalou uma ditadura fascista na Áustria e mergulhou o país no caos econômico. O campeonato nacional terminou quase que simultaneamente ao início da Copa do Mundo da Itália. O “Wunderteam”, apesar do favoritismo, viajou esgotado, física e emocionalmente. Após vencer a França (3 a 2, um gol de Sindelar) e a Hungria (2 a 1), a Áustria chegou à semifinal contra a Itália. Machucado, Motzl não evitou a derrota por 1 a 0.

Nazismo e o fim trágico

A carreira do maior jogador da época começou a ruir com a anexação da Áustria à Alemanha em março de 1938. Matthias Sindelar manteve-se fiel às suas convicções políticas e se negou a defender o time de Adolf Hitler. Ficou marcado como opositor do regime e foi perseguido pelas tropas alemãs. No jogo comemorativo pela unificação, perdeu chances de propósito até marcar, no segundo tempo, um dos gols da vitória por 2 a 0 do Ostmark (Áustria) sobre o Altreich (Alemanha). A atitude foi encarada como um desafio ao Terceiro Reich.

Em 23 de janeiro de 1939, Sindelar se suicidou em um quarto de hotel com a amiga italiana Camila Castagnola. Ambos envenenaram-se com monóxido de carbono. Quarenta mil pessoas compareceram ao funeral sob os olhares de tropas nazistas, enquanto o Áustria Viena recebeu 15 mil telegramas de condolências. O nome de Mathias Sindelar está gravado na história do futebol e sua atitude contra o Nazismo virou um exemplo de coragem. Em dezembro de 1998, 60 anos depois de sua morte precoce, foi eleito o atleta austríaco do século 20.