Veneno Remédio – O Futebol e o Brasil

Por Guilherme Amorozo

Se há um jogador no futebol brasileiro a quem o ensaísta, músico, e professor de literatura José Miguel Wisnik pode ser comparado, segundo os critérios que ele mesmo expõe em seu livro “Veneno Remédio”, é Ronaldinho Gaúcho. O repertório do craque, segundo o autor, é uma antologia de tudo de genial que o futebol brasileiro já produziu: vai dos chapéus de Pelé ao elástico de Rivelino, das cobranças de Zico ao calcanhar de Sócrates, e por aí afora. Pois em matéria de literatura, música, história, e, claro, futebol, o acervo de Wisnik não fica atrás.

É por meio de sua imponente coleção de referências – que partem de Machado de Assis e chegam a Sérgio Buarque de Holanda – que ele constrói um ensaio inspirador ao longo de 450 páginas. Suas intenções fundamentais são duas: observar como o Brasil entendeu e reinventou o futebol; e, sobretudo, apontar como é possível entender o Brasil pela observação de seu futebol. Em outras palavras, o que o autor propõe é uma forma original de pensar por que o país é do jeito que é, por meio do estudo da evolução do esporte bretão aqui dentro, de sua chegada pela mão dos ingleses no século XIX até os dias da “capitalização do futebol” que ele diz vivermos hoje.

Com métodos emprestados da crítica de arte, Wisnik não se contenta em analisar o jogo somente pelo seu entorno, pelos bastidores – aquilo que influencia o esporte, mas que, em última análise, não entra em campo. O escritor faz questão de enfatizar, como no clichê repetido por muitos jogadores, que o que interessa é o que acontece “dentro das quatro linhas”. Para Wisnik, a tarefa é fácil: não só ele ostenta todo o conhecimento acumulado em décadas de vida acadêmica na USP, como cresceu freqüentando a Vila Belmiro nos anos 50 e 60, onde assistiu a incontáveis partidas do lendário time do Santos, entendendo tudo aquilo “como uma coisa natural, como o morro e o mar” (há um capítulo impagável de reminiscências da infância do autor na Baixada Santista que vale, sozinho, a leitura do livro).

Pelada

Dentre todos os esportes, o futebol, segundo Wisnik, é aquele que possui a maior gama de acontecimentos possíveis. As razões são várias: o fato de ser jogado com os pés, em princípio mais frágeis para controlar a bola; a extensão do campo e a quantidade de jogadores, que não permitem que o jogo seja uma simples alternância de ataques e defesas; a incorporação do acaso como força determinante de seu destino; a aceitação aberta do tempo produtivo, mas também do improdutivo, gratuito, daqueles momentos e lances em que nada de “útil” acontece. A margem de narrativas que resulta disso é enorme, maior do que a de qualquer outro esporte, diz o escritor. Ou, como no dito de Nelson Rodrigues repisado por ele, “a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”.

No Brasil, essas características essenciais do jogo foram apropriadas e transformadas quando o esporte saiu dos campos exclusivos das elites urbanas que o importaram, para ser praticado nas várzeas e bairros populares que sequer gramados abrigavam. A própria origem da palavra “pelada”, esmiuçada no livro, vem daí: do campo de terra (ou pedras, cascalho, areia…), pelado, sem grama. E, mais importante, sem limites definidos. Jogado dentro de linhas imaginárias, flutuantes, o jogo perdeu um pouco de sua vocação finalista – a busca objetiva (e obcecada) pelo gol – e ganhou novas dimensões – saídas pela tangente, dribles sem função, molecagens diversas. O centro do campo é onde a bola está. E ela está em toda parte.

Vira-latas

Tudo isso é invenção brasileira, que não tardou a desaguar nos estádios do país, e que teve sua mais completa expressão na figura de Garrincha. Antes dele, diz Wisnik, nas copas de 38 e especialmente na de 50, o futebol já tinha se tornado o palco principal de uma das mais recorrentes síndromes do imaginário brasileiro: a oscilação entre uma “ambição de grandeza máxima e a impotência infantilizada de um povo periférico” – o famoso “complexo de vira-latas” que carregamos, como povo, em nossas mais diversas atividades. A diferença, como o autor ressalta ao final, é que dentro de campo o Brasil conseguiu muitas vezes superar esse complexo, enquanto fora dele a história foi outra. E isso sempre aconteceu, sobretudo em 58 e 70, quando o futebol brasileiro equacionou as questões que estavam lá em sua formação – eficácia e gratuidade, produtividade e ócio, trabalho e brinquedo.

No fim das contas, o que o livro de Wisnik faz é construir um elogio monumental ao estilo brasileiro de se jogar bola. Não à toa, ele tece um de seus mais poderosos argumentos em cima da figura de João Saldanha, o responsável por Pelé e Tostão atuarem juntos na copa de 70, para quem os craques não podiam ser submetidos a esquemas pragmáticos pré-concebidos. Ao aproximar o futebol da arte, e ao identificar o futebol-arte como uma criação brasileira, “Veneno Remédio” é um lembrete, de que o Brasil precisa ser ele mesmo se quiser voltar a vencer dentro (e fora) de campo.

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