Vannes: Fantasia de zebra

Vannes é uma cidade comercial e com forte apelo turístico, situada no leste francês, sem muitos habitantes (cerca de 45 mil), e que há mais de dois milênios existe no planeta. A população local não é muito aficionada por futebol, até pelo fato de não ter um clube com presenças freqüentes na elite. Embora isso ainda não seja realidade, a situação demonstra estar perto de uma mudança, provocada pelas atuações do pequeno time da cidade que, no próximo dia 25 de abril, disputa a decisão da Copa da Liga Nacional, igualando o feito do Gueugnon, em 2000, última equipe da Ligue 2 a alcançar a final. É a grande chance do Vannes Olympique Club, que, apesar de já ser alvinegro, não se furtou a se fantasiar (pegando a alusão ao carnaval) de zebra no torneio.

Do outro lado do campo, estará ninguém menos que o Bordeaux, cinco vezes vencedor da Ligue 1 e bicampeão do torneio. E não é apenas a história e tradição dos girondinos que supera – e muito! – a do VOC. Até porque, efetivamente, com a nomenclatura atual e a estrutura de hoje, a “zebra” alvinegra tem apenas onze anos, sendo fundada a partir da fusão de duas equipes locais, o Veloce Vannetais e o FC Vannes, clubes então na terceira divisão francesa. Em uma cidade pequena, ter dois clubes nem sempre é uma boa, e isso ficou insustentável na década passada. Com isso, apesar de rivais (Veloce e FC Vannes travavam duelos equilibrados, especialmente nos anos 80, quando viveram seus melhores momentos), as dificuldades financeiras surgiram e obrigaram a dupla a juntar forças em um único nome.

A ascensão

Dizer que um clube levou dez anos para subir da quinta para a segunda divisão pode parecer ironia, mas não o é quando se analisa a própria estrutura do clube. Como supracitado e, inclusive, comentado pelo presidente da equipe, Michel Jestin em uma entrevista ao L’Equipe, não se pode dizer que a cidade ‘respira’ futebol. A própria média de público da equipe não costuma ultrapassar as duas mil pessoas. Com isso, o trabalho, tal como definido pelo próprio Jestin, era realmente um grande desafio. Desafio esse que começou na temporada 1998/99 com o pé-direito: título da CFA 2 – quinta divisão –, com 19 vitórias, seis empates e apenas cinco derrotas.

No ano seguinte, já na CFA, como é chamada a quarta divisão, o clube alvinegro começou a traçar sua longa caminhada rumo à terceirona, conhecida como Championnat National. O objetivo era um acesso imediato, apesar das dificuldades. Foram seis tentativas, ainda que só em 2002/03 a equipe tenha passado longe do acesso. Em outras quatro oportunidades, as batidas na trave foram mais sentidas, sendo duas delas, em 2001/02 e 2003/04, com um quinto lugar que, por pouco, não acarretou na histórica promoção. Ela chegaria, contudo, com direito ao primeiro título da história da equipe, e de maneira avassaladora: 100 pontos conquistados em 34 jogos e o título da CFA em 2004/05. Pela primeira vez, a equipe disputaria uma divisão profissional.

Para sair da National e ir para a Ligue 2, foram necessárias mais duas temporadas, muito mais complicadas e disputadas que as anteriores. Em 2005/06 e 2006/07, duas campanhas fracas deixam em dúvidas a ascensão da equipe. Nesta última temporada, entretanto, o Vannes deu uma primeira amostra de que era um time de chegada, ao menos, em mata-matas. Foi o que provou ao surpreender e alcançar as quartas-de-final da Copa da França, superando, dentre outras equipes, o Montpellier, caindo, porém, para o poderoso Olympique de Marselha, fora de casa.

Mas a torcida local (que começava a crescer, aos poucos) viveria um momento especial na temporada 2007/08, quando, em atuações decisivas, especialmente do sistema defensivo, um dos menos vazados da competição, com apenas 31 gols sofridos em 38 jogos, a equipe surpreendeu ao conquistar seu segundo título: campeã da National e alcançando pela primeira vez a Ligue 2, ficando a um passo da elite. Curiosamente, defender se mostrou uma das qualidades da equipe, bem maior, ao menos, que as atacar. Tanto que, apesar do título, não colocou nenhum jogador entre os artilheiros, e mesmo em campanhas anteriores pelas divisões inferiores, a média de gol não chegava a dois por partida…

Aqui é trabalho!

Já diz o treinador do São Paulo, Muricy Ramalho, quando perguntando sobre o segredo do Tricolor para avançar nas competições que disputa, que “aqui é trabalho, pô”. De certa forma, pode-se dizer o mesmo, em suas devidas proporções, evidentemente, quando se transfere o foco para o Vannes. Trabalho esse que, especialmente, desde 2002, vem sendo realizado em conjunto, tendo como pilares o presidente Michel Jestin e o jovem e promissor treinador Stéphane Le Mignani. O comandante assumiu em novembro de 2002, sendo promovido da equipe reserva do clube, e é hoje, aos 34 anos, o mais jovem técnico da Ligue 2.

Le Mignani, que no ano passado foi citado na lista dos melhores treinadores do país (ficou em 12º lugar, enquanto Arséne Wenger foi o vencedor), já declarou que o grande objetivo da temporada é a manutenção da equipe na segundona. Até o momento, porém, o clube vem apresentando ótimos resultados, ocupando o sétimo lugar e estando a apenas seis do terceiro colocado (atualmente o Angers) e até sonhando com um possível acesso. Para tal sucesso, realiza uma “amálgama” (ou “maionese”, como ele mesmo define), entre atletas jovens, recrutados pelo próprio VOC, e outros mais experientes e com mais tempo de clube. Além disso, manteve-se a comissão técnica dos últimos anos, e que vinha tendo êxito. “Antes, ninguém queria jogar em Vannes, mas o discurso de Le Mignani fez a diferença e trouxe bons reforços”, finaliza a reportagem do L’Equipe sobre o clube.

O trabalho também é exercido no ponto de vista gerencial, sob o comando de Jestin, cujo projeto de promover o crescimento e a popularização do clube local (o que o próprio julga como “masoquista”, devido às dificuldades) é o que mantém, inclusive, Stéphane Le Mignani no cargo (disse que iria abandonar o barco se houvesse alguma alteração no ideal inicial, mesmo com os acessos). E segundo o presidente, na mesma reportagem, começa-se a ver os resultados colhidos quando a torcida lota o estádio e empurra o time como o fez contra o Metz, nas quartas-de-final da Copa da Liga. Vale lembrar, ainda, que o time é dono de um dos menores orçamentos da divisão, e detentor de um estádio cuja capacidade máxima é não chega a oito mil pagantes — embora se planeje ampliar o número de assentos.

Financeiramente e no que diz respeito à visibilidade, a Copa da Liga já trouxe muito para o Vannes. E o mais impressionante pode estar por vir, em caso de título, que é uma histórica vaga para a Liga Europa (ex-Copa Uefa). De qualquer maneira, em apenas onze anos de história e com um orçamento limitado (o que, na Europa, é bem mais fatal do que por aqui), é evidente que o VOC foi mais longe do que seus recursos permitem. O futuro? A julgar pelo pensamento de técnico e presidente, será de mais “trabalho, pô!”.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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