Van Breukelen: aqueles dois pênaltis…

Quando se fala em jogadores holandeses dos anos 1980, logo é lembrado o trio que fez história no Milan, Rijkaard-Gullit-Van Basten. Somente os mais esforçados, provavelmente, lembrarão de um goleiro, que foi um dos principais personagens da mudança – e da entressafra – entre a geração de Johan Cruyff e a dos três supracitados. Um arqueiro considerado por muitos o maior da história da Holanda. E que, já veterano, foi absolutamente fundamental para que o futebol do país tivesse em 1988 um dos mais célebres anos de sua história. Seu nome: Hans van Breukelen.

A promessa substitui uma lenda

Van Breukelen iniciou sua carreira no BVC (Biltse Voetbal Club), uma equipe de base, localizada em Utrecht, sua cidade natal, no início da década de 1970. Em 1975, foi pinçado para os times de jovens do Utrecht e, já no ano seguinte, subia para a equipe principal, atuando em uma partida dos Utregs pelo Campeonato Holandês da temporada 1976/77. O resultado não foi bom: derrota por 3 a 0 para o Sparta Rotterdam, em 19 de março de 1977.

No período seguinte, já atuou em sete partidas. Mas foi na temporada 1978/79 que se fixou de vez entre os titulares, atuando em 27 jogos. Na Eredivisie 1979/80, estaria em todos os 34 jogos da campanha. A boa campanha do Utrecht – quinto lugar – certamente ajudou para que o técnico da seleção holandesa, Jan Zwartkruis, prestasse atenção no arqueiro. E Van Breukelen foi premiado com a convocação para a Eurocopa de 1980, como terceiro goleiro, abaixo dos já veteranos Piet Schrijvers e Pim Doesburg. Ainda não jogaria ali, mas três meses depois já estreava como titular da Oranje, num amistoso contra a Alemanha, empatado em um gol.

Em 1982, se a Holanda não jogou a Copa da Espanha, Van Breukelen começou a tomar definitivamente o lugar da velha guarda debaixo das três traves, na seleção. E foi fundamental para que o Utrecht chegasse à final da Copa da Holanda. Mesmo com a derrota para o AZ, o jogador já mostrava condições de voar mais alto. A chance disso veio em setembro, quando o Nottingham Forest, à procura de alguém para substituir a lenda Peter Shilton, que se fora para o Southampton, apostou no holandês, contratando-o por duzentas mil libras.

Alegrias e tristezas na Inglaterra

No Forest, o arqueiro começou bem, ganhando os troféus Colombino e do Torneio de Nuremberg, na pré-temporada. Entretanto, logo sofreu uma contusão, que o tirou dos gramados por quatro meses. Voltando já em março de 1983, o holandês rapidamente recuperou o tempo perdido, sendo fundamental num período de nove partidas em que o time não perdeu pelo Campeonato Inglês, o que ajudou a conseguir uma vaga na Copa Uefa 1983/84. E os Reds não fariam feio na temporada seguinte: além de obterem o terceiro lugar no Inglês, conseguiram alcançar as semifinais do torneio continental, quando parariam no Anderlecht. Mas, tendo atuado menos do que poderia, Van Breukelen não resistiu e voltou para a Holanda, rumando para o PSV, em 1984. Aos 28 anos, poderia parecer o início do fim da carreira. Era apenas o começo da época de maior sucesso.

Entrando para a história

No clube de Eindhoven, Hans chegou para ser titular absoluto desde o princípio. Correspondeu plenamente às expectativas, além de retomar, na seleção, a titularidade, que voltara a ser ocupada por Schrijvers. A frustração de novamente ficar de fora da Copa do Mundo, após a eliminação para a Bélgica, na repescagem da qualificação para o Mundial de 1986, era amenizada pelo domínio que os Boeren exerciam na Holanda; a temporada 1985/86 marcou o início do tetracampeonato consecutivo, feito só igualado por outro PSV, campeão de 2004/05 a 2007/08.

A temporada inesquecível, mesmo, seria 1987/88, no entanto. Para começar, o PSV, comandado por Guus Hiddink no banco e tendo em Van Breukelen um de seus principais líderes no campo, consagraria-se como vencedor da Tríplice Coroa europeia na temporada. Na Tríplice, a Eredivisie e a Copa da Holanda vencidas foram importantes. Mas seriam eclipsadas por aquele que foi o momento máximo da carreira de Van Breukelen. Aliás, os momentos máximos.

25 de maio de 1988, Neckarstadion, Stuttgart, Alemanha. Após empate sem gols no tempo normal e na prorrogação, PSV e Benfica vão disputar a cobrança de pênaltis para definir o campeão da então Copa dos Campeões. Na série regulamentar de tiros da marca penal, todos os dez convertidos: 5 a 5. O PSV faz 6 a 5, com Anton Janssen. Então, o zagueiro Veloso será o próximo cobrador dos Encarnados. Ele ajeita a bola. Van Breukelen, agachado, impassível, no centro do gol. A cobrança é boa, mas o goleiro voa para o canto direito e espalma. Levanta-se, incrédulo, ajoelha-se e ainda arranja tempo para o sinal da cruz antes de ser soterrado pelos abraços dos companheiros, como Ronald Koeman, Gerets, Heintze, Kieft… o PSV era campeão europeu. E Van Breukelen, o heroi da final.

Termina aí? Que nada. Na volta da seleção da Holanda a um torneio importante, a Eurocopa iniciada dali a dezesseis dias, o goleiro de 31 anos, com personalidade, impõe-se como o melhor do torneio, disputado também na Alemanha, e ajuda a Oranje a chegar à grande final, contra a União Soviética, em 25 de junho. Já com o placar em 2 a 0 para os holandeses, aos 30 minutos do 2º tempo, o francês Michel Vautrot aponta falta de Van Breukelen em Gotsmanov, dentro da área, numa bola perdida na linha de fundo.

Mais um pênalti. O cobrador era Igor Belanov, Bola de Ouro do continente em 1986. Um gol poderia reanimar os soviéticos na partida. Belanov parte, bate no canto esquerdo, rasteira… e Van Breukelen defende. Dois pênaltis em um mês. Dois pênaltis que empolgaram a Holanda e puseram o goleiro na história do futebol de seu país, como personagem importante nos títulos de seu clube e de sua seleção. A ponto de sua autobiografia, lançada após a Eurocopa, “Het engeltje” (“O Anjinho”, escrita em parceria com o jornalista Kees Jansma) ter vendido bem na Holanda, em 1988.

O fim

Enquanto ia imperando mais e mais como dono da camisa 1 do PSV, Van Breukelen acabou sendo tragado pelas crises internas que minaram as chances holandesas na Copa de 1990. Já com 33 anos, em seu primeiro Mundial, Van Breukelen até comete uma falha, no gol de Niall Quinn para a Irlanda, durante o jogo que terminou em 1 a 1. Mas nada disso tira dele a posição na equipe, nem mesmo a titularidade na Eurocopa de dali a dois anos.

Entretanto, os mesmos penais que fizeram sua fama quatro anos antes precipitaram seu fim de carreira na seleção. Após empate em 2 a 2 nos 120 minutos, Holanda e Dinamarca definiriam a vaga na final em mais uma decisão de tiros da marca penal. Van Breukelen não pegou nenhum, e teve de ver Peter Schmeichel defender o chute de Marco van Basten. A Holanda foi eliminada. Terminava ali uma carreira internacional de respeito, com 73 partidas em doze anos de seleção. Era a hora de abrir espaço, primeiro para o então reserva Stanley Menzo, depois para a nova geração personificada por Ed de Goey e Edwin van der Sar.

E o fim da Eredivisie 1993/94 marcou o encerramento definitivo da carreira profissional. Com seis campeonatos nacionais, duas Copas da Holanda e uma Supercopa da Holanda, além de quatro prêmios de melhor goleiro holandês do ano, Van Breukelen saía, com 308 partidas em dez anos, consagrado como um dos grandes da história do PSV, que o homenageia até hoje, como neste vídeo veiculado no site do clube. Após retirar-se dos gramados, o ex-goleiro passou um tempo como diretor-geral do Utrecht onde iniciara a carreira. Depois, aproveitando que tem o diploma do HAVO (Alto Ensino Geral Contínuo, espécie de Ensino Médio holandês), criou uma empresa de consultoria de empresas, a HvB Management. E hoje, além de vez por outra atuar nos masters do PSV, Van Breukelen dá palestras empresariais e motivacionais – quem sabe, lembrando a todos dos dois pênaltis que empolgaram a Holanda.

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Equipe Trivela

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