Uma lição para o futuro

Um presidente corintiano perpetuado no poder abandona o barco quando o time está a caminho da segunda divisão do Brasileiro. Um novo presidente, antigo aliado de seu antecessor, é eleito. O time é rebaixado, passa por mudanças e só retoma o caminho da glória após o envolvimento de seus jogadores em todas as decisões relativas ao clube.

Não. Não se trata de uma obra sobre Dualib e Sanches na era pós-MSI, nem de uma nova postura política de Finazzi e seus amigos. O trecho acima se refere a um dos momentos mais importantes da história do Corinthians e responde pelo nome de Democracia Corintiana.

Para falar com propriedade sobre o movimento, ninguém melhor que o Doutor Sócrates, um de seus idealizadores e o maior representante daquele grupo. Contextualizando esse momento, o jornalista Ricardo Gozzi fornece dados históricos, políticos e estatísticos sobre a época, realizando um bate bola envolvente com o Magrão.

A estrutura do livro é simples: todo capítulo abre com a palavra de Sócrates, seguida pela descrição dos fatos por Gozzi. As informações do jornalista são bastante precisas, envolvendo o acompanhamento do desempenho do Timão através dos resultados dos jogos à época e uma narração exata dos movimentos políticos no conturbado comando do clube.

O livro explica como o então presidente alvinegro, o folclórico Vicente Matheus, na impossibilidade de se manter no cargo pelo décimo ano seguido, lançou uma chapa com o nome de Waldemar Pires para a presidência. Sem influência no clube, Pires só conseguiu se firmar no cargo quando seu vice, Matheus, aos poucos se afastou do dia-a-dia do Corinthians, em uma época em que os resultados no Paulistão o classificavam para a disputa da Taça Prata (o equivalente à segunda divisão do Brasileiro) em 1982.

Com o distanciamento do ex-presidente, Waldemar nomeou o sociólogo Adilson Monteiro Alves para diretor de futebol do clube. O novo diretor reconhecia que não sabia nada de futebol, então conversava com os jogadores para saber o que o grupo precisava para se manter motivado.

Juntando a possibilidade de diálogo com a consciência política de Sócrates, Casagrande, Wladimir e companhia, nascia a Democracia Corintiana, onde os jogadores decidiam tudo através de votação, da escalação do time ao trajeto do ônibus para o estádio. Nessa época, o grupo conquistou títulos e direitos como o fim da concentração para os jogadores casados e participação nos lucros da renda de uma partida, com uma porcentagem dividida entre o grupo.

Apesar de toda a riqueza de detalhes, realmente interessante são os trechos narrados pelo Doutor, onde exibe seu discurso utópico e politizado.

Em suas palavras, fala sobre a condição submissa do jogador de futebol em relação aos dirigentes de clubes, explica o papel do atleta como agente de transformação social e até propõe uma lei pela qual jogadores só poderiam ser profissionalizados se concluíssem o estudo do segundo grau, de forma a estimular o jovem a prosseguir seus estudos.

A Democracia foi um movimento político de projeção nacional em plena época em que o país pedia pelas eleições diretas.

Se foi publicado em 2002 e fala sobre uma época há vinte anos passados, ainda assim é um livro muito atual, ilustrando uma passagem da história muito parecida com a conjuntura atual do clube.

Recomendo sua leitura, ao menos pelo senhor Andrés Sanches. Quem sabe não percebe que, muitas vezes, a melhor opção é partilhar poderes com aqueles que realmente podem decidir uma partida.

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Equipe Trivela

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