Turquia: Intensidade máxima

Quase três anos já se passaram, mas as cenas de hostilidades presenciadas no confronto entre Suíça e Turquia, em 15 de novembro de 2005, ainda não foram esquecidas. Nem por turcos, nem por suíços. Quando ambos se encontrarem pela Eurocopa, no próximo dia 11 de junho, a tensão promete ser grande em Berna – palco da revanche.
A rivalidade criada com os suíços é apenas mais um capítulo de hostilidade em que a Seleção Turca, ou o próprio futebol do país, acaba se envolvendo. Com uma mentalidade muito intensa e volátil, além de um patriotismo incomum, os turcos são essencialmente opostos ao pensamento frio, rochoso e linear dos alemães, que exercem significativa influência no país – metade europeu, metade asiático.
Uma mistura explosiva e que, graças a inúmeras situações, fez com que visitar Istambul, em qualquer circunstância, tenha se tornado uma temeridade para qualquer grande clube ou seleção do Velho Continente. A Eurocopa 2008, justamente disputada na Suíça – além da Áustria -, promete ser mais uma página entre essas.
O duelo de Berna
A rivalidade entre Suíça e Turquia tem uma justificativa recente. Em disputa na repescagem por vaga na Copa do Mundo da Alemanha, turcos e suíços se enfrentaram em 2005. Após vencer por 2 a 0 dentro de casa, os helvéticos saíram de Istambul com a classificação para o Mundial, embora perdendo por 4 a 2. Além disso, saíram agredidos e hostilizados por jogadores e torcedores presentes ao Sükrü Saraçoglu, casa do Fenerbahçe.
O fato provocou revolta entre os suíços. Stéphane Grichting, defensor que estava entre os reservas, precisou de cuidados médicos após ser agredido por turcos. Joseph Blatter, nascido na Suíça, fez declarações incisivas e prometeu punições pouco depois dos ocorridos, provocando reações intempestivas por parte de cartolas da Federação Turca.
Como conseqüência pela confusão, a Turquia precisou cumprir três mandos de jogos em campos neutros e com portões fechados. Serkan Balci recebeu duas partidas oficiais de punição, enquanto Emre Belözoglu – além do suíço Benjamin Huggel, levou gancho dobrado. A suspensão mais grave, porém, recaiu sobre o experiente zagueiro Alpay Özalan, que ficou punido por seis jogos.
Alpay foi acusado de liderar o ataque dos jogadores turcos aos suíços e tem uma ficha corrida que lhe condena. Poucos dias antes, havia sido banido por quatro jogos da Bundesliga – em que defende o Colônia – por acertar uma cotovelada em Guy Demel, do Hamburgo. Seu episódio mais famoso, porém, é a cusparada em David Beckham, também em Istambul, nas Eliminatórias para a Euro de 2004, provocando confusão entre os locais e os ingleses na ocasião.
Tal conjuntura propõe um confronto de muita animosidade para o próximo dia 11 em Berna. Ainda que a população suíça não tenha a mesma característica hostil dos turcos, é improvável imaginar uma recepção agradável no St, Jakob-Park, sobretudo dos jogadores da casa, agredidos naquele 15 de novembro de 2005. Isto porque, entre os 14 nomes utilizados por Köbi Kuhn naquela partida, só três não estão na Euro-08. A equipe de Fatih Terim, por sua vez, certamente não será amistosa para o duelo.
Nada mais natural para um povo como o turco, que vive o futebol com uma intensidade raramente vista nos gramados europeus e que, inclusive, tem em suas rivalidades locais laços fortíssimos de uma disputa clubística secular.
O inferno é aqui
A reputação hostil dos clubes de Istambul, por toda a Europa, é bastante disseminada. Afinal, episódios como o esfaqueamento de torcedores do Leeds United em 2000 se tornaram tão representativos como vitórias marcantes, como a do Galatasaray sobre o Real Madrid na Liga dos Campeões de 2000/01, ou do Fenerbahçe sobre a Internazionale na mesma competição, sete anos depois.
O ambiente de um estádio turco em grandes partidas é algo bastante incomum, sobretudo no futebol europeu. É normal ver as arenas cheias algumas horas antes dos jogos, com batucadas e cantos intimidadores, assim como os clubes estrangeiros, já em aeroportos turcos, são recebidos de maneira nada hospitaleira. Com orgulho, os torcedores locais costumam dizer que o inferno é em Istambul.
A força dos três clubes da capital é praticamente hegemônica no cenário futebolístico do país. Das 50 edições já disputadas, apenas seis fugiram das mãos de Fenerbahçe, Besiktas e Galatasaray, ficando com o Trabzonspor.
Entre as rivalidades, costuma-se dizer que Fenerbahçe e Galatasaray, por terem mais títulos e serem mais antigos que o Besiktas, possuem um ódio mútuo que é maior e fazem o principal clássico turco. Aos mais desavisados, não se recomenda passar por um dos estádios da capital caso se deseje ter uma noite tranqüila.



