Torino: Paixão reconstruída
A próxima temporada do campeonato italiano promete um cenário inédito. O caso do Moggiopoli (o escândalo de negociação de resultados que envolveu um grande dirigente da Juventus e colocou toda a Serie A sob suspeita) está revelando a tendência de rebaixar a Juventus para a Serie B, fato que jamais aconteceu na história do Calcio. A situação que se avizinha é o Torino na primeira e a Juve na segunda divisão – fato jamais ocorrido na história e que seria a maior das glórias para os torcedores granata.
A fundação e o primeiro estádio
O Torino foi criado por dissidentes da Juventus e do FC Torinese, assumindo o nome de Football Club Torino. Entre os fundadores estavam os suíços Alfredo Dick e Hans Schoenbrod (primeiro presidente). O primeiro técnico foi o lendário Vittorio Pozzo, campeão do mundo pela Itália em 1934 e 38, sendo o único treinador até hoje bicampeão da Copa. Pozzo dirigiu o Torino por dez anos, tendo como marcas uma excursão vitoriosa pela América do Sul e uma ótima jornada na temporada 14/15, na qual não ultrapassou o Genoa por que o campeonato foi interrompido pela Primeira Guerra.
Na década de 20, o Torino se estabeleceu como uma das forças do futebol italiano, inaugurando o seu primeiro estádio particular – chamado Filadélfia – e encantando a Itália com um meio-campo conhecido como “trio maravilha” : Libonatti, Baloncieri e Rossetti. Em 1927, conquistou seu primeiro scudetto, que fora revogado por uma suspeita de corrupção do jogador Allemandi, da Juventus. Anos depois, no funeral de Superga, a Federação Italiana suspenderia a decisão e confirmaria o título deste ano. Na temporada seguinte, o clube grená também seria campeão.
Um lento declínio se iniciou a partir das Olimpíadas de 1928 – nas quais o Torino foi a base da conquista da medalha de bronze italiana – depois da saída do presidente Enrico Cinzano. Em 1936, porém, o clube venceria a sua primeira Copa Itália, derrubando a Alessandria na final por 5 a 1. No ano seguinte, o Torino mudaria seu nome para Associazione Calcio, de acordo com os preceitos fascistas de proibir nomes estrangeiros.
O Grande Torino
A época mais gloriosa do clube grená iniciou-se na temporada 1942/43. No período da guerra, o Torino teve o maior time da sua história, no qual dez dos 11 jogadores faziam parte da seleção nacional. Foram cinco ´scudetti´ consecutivos até 1949 (considerando que entre 43 e 45 não foi disputado o campeonato). A formação era: Bacigalupo; Ballarin, Maroso; Grezar, Rigamonti, Castigliano; Menti, Loik, Gabetto, Mazzola, Ossola. Valentino Mazzola era o grande craque dessa geração, considerado o maior jogador da história do clube – foram 109 gols em 231 partidas vestindo a malha granata, 29 deles apenas na temporada 46/47. Era o próprio símbolo do time, como capitão, líder e principal goleador.
Era um time para manter a supremacia por muitas temporadas mais. Porém, no dia 4 de maio de 1949, tudo se encerrou na colina de Superga. Às 17 horas daquela tarde, o avião que trazia de volta a esquadra chocou-se contra o muro da basílica, matando todos os tripulantes – o time inteiro do Torino, mais os reservas, o treinador e três jornalistas acompanhantes. Milhões de pessoas choraram no funeral, que enterrava consigo a esperança de renovação diante de um povo sofrido pelos dissabores da guerra. O campeonato de 1949 teve seguimento, mas o Torino atuou com os seus juvenis – em respeito, os adversários também colocaram os juvenis em campo. Certamente o mais amargo scudetto do futebol italiano. Diante do impacto da tragédia, a seleção italiana disputou o mundial do Brasil com uma exigência: a viagem seria de navio.
1976: voltando aos tempos de glória
O clube demoraria quase trinta anos para se recuperar da tragédia. Em 1959, foi rebaixado para a segunda divisão, da qual voltaria no ano seguinte. O velho estádio Filadélfia seria aposentado nesta época, com os jogos do Torino passando a ser hospedados no Comunale. O grande futebol dos velhos tempos só foi recuperado na década de 70, sob a direção do presidente Orfeo Pianelli, ao vencer o scudetto de 1976.
Foi uma grande virada: a Juventus tinha cinco pontos de vantagem já no segundo turno, mas uma série de três derrotas consecutivas – uma delas em um dérbi – garantiu ao clube grená uma vantagem de um ponto na última rodada. O empate contra o Cesena em casa poderia não ser o suficiente para ganhar a taça, mas a Juventus perdeu em Perugia. O sétimo scudetto (oitavo, se considerado o revogado de 1927) viria no aniversário de 27 anos da tragédia de Superga. Nos dois anos seguintes, o Torino seria vice campeão, perdendo para a Juve ambos os ´scudetti´. Paolo Pulici, artilheiro de 1976, era o grande nome do time, ao lado de Francisco Graziani.
Tais resultados não se repetiriam até 1985, quando o Verona de Elkjaer foi campeão e o Torino vice. Em 1989, o clube voltaria às agruras da Série B, mas o retorno à elite foi heróico: liderada por Emiliano Mondonico, a equipe grená se promoveu no ano seguinte sem nenhuma derrota em casa. Na temporada 90/91, quando o clube passou a utilizar o Delle Alpi, o Torino se classificou à Copa Uefa graças a um quinto lugar no campeonato, um ponto à frente da Juve; na temporada seguinte, alcançaria a grande final da Copa Uefa, eliminando o Real Madrid nas semifinais.
O time de Casagrande, Scifo e Lentini foi derrotado pelo Ajax pelo critério de gols fora de casa – foram dois empates, um 2×2 no Delle Alpi e 0x0 em Amsterdã. No ano seguinte, o clube venceria a Copa Itália ao derrotar a Roma em pleno estádio Olímpico por 5 a 2.
Decadência e bancarrota
No ano de 1993, o Torino vendeu Lentini ao Milan, no que foi a maior transferência de um jogador até então. Entretanto, a negociação não trouxe grande estabilidade financeira ao clube, que na década de 90 viu definhar as suas categorias de base (pioneiras na Itália) e também o antigo estádio Filadélfia, hoje um terreno fantasma próximo do centro de Turim. A temporada de 1995 foi vergonhosa – o Torino foi goleado em um dérbi e caiu pela terceira vez à segundona. Subiu em 99 mas caiu novamente em 2003.
Diante de um quadro infeliz, a torcida protagonizou um espetáculo emocionante – no aniversário de 54 anos de Superga, cerca de 50 mil pessoas protagonizaram uma marcha em homenagem ao Grande Torino. A iniciativa comoveu a diretoria, que resolveu aposentar para sempre o número 12 da camiseta, numa homenagem eterna aos tifosi.
Em 2005, uma sofrida temporada levou o time de volta a Série A. A justiça italiana, porém, bateu o martelo. O clube teria de saldar suas dívidas com o fisco (38 milhões de euros) para disputar a Série A; do contrário, deixaria de existir. Sem chances de pagar as dívidas, o AC Torino 1906 fechou as portas no dia 9 de agosto.
A refundação e o novo estádio
Uma mobilização de empresários e torcedores fez com que o clube iniciasse um processo de refundação. No dia 19 de agosto um colegiado liderado pelo publicitário Urbano Cairo definiu a fundação do Torino Football Club, que seria inscrito na Série B – graças a um aumento de capital de 10 milhões de euros, que garantiu a inscrição do novo clube no lugar do antigo, ao contrário do que aconteceu com Napoli e Fiorentina. No ano do seu centenário – e da inauguração do Nuovo Comunale, estádio que passará a abrigar os jogos do clube na próxima temporada – a squadra granata caminha rumo à promoção perdida no ano passado, o que certamente teria um gostinho especial com o descenso do grande rival.



