Salvador: Copa sustentável?

Colaborou Renato Oselame

Parte I: o estádio da Fonte Nova

Pouca gente sabe, mas as inúmeras recomendações que a Fifa prevê para o país e as cidades-sede da Copa do Mundo não se resumem apenas indicações sobre transporte, hotelaria e qualidade dos estádios. Entre o conjunto de indicações, existem também parâmetros de sustentabilidade socioeconômica e ambiental dos projetos dos estádios que receberão jogos da competição.

Dessa maneira, a Fifa desenvolveu um conjunto de regras chamado Green Goal, com o objetivo de reduzir os impactos antrópicos provocados pela construção e uso dos estádios. O programa prevê a instalação de sistemas que permitam a economia de água e energia, a correta administração dos resíduos através de coleta seletiva e não-produção de lixo, além de incentivar o uso do transporte público no acesso aos estádios.

Em Salvador, o estádio da Fonte Nova já foi demolido e as obras já estão em andamento, com vistas à candidatura da cidade para sediar jogos da Copa das Confederações em 2013 e uma utópica (e política) candidatura ao jogo de abertura da Copa de 2014. Na capital baiana, é consenso de que essas medidas elevarão o custo inicial dos estádios, mas pretendem ser economicamente sustentáveis ao reduzir gastos com manutenção.

Segundo Eugênio Spengler, secretário estadual do Meio Ambiente, existem programas para reduzir a poluição e o consumo de energia e de materiais nas obras de demolição e construção da Nova Fonte Nova. “Estamos desenvolvendo alternativas de reciclagem e reaproveitamento do entulho da demolição para a construção civil, até mesmo para as obras do próprio estádio”, argumenta. O secretário ainda explicou que um plano de controle ambiental da obra foi elaborado. De acordo com Spengler, este plano prevê os horários do dia e a utilização de tecnologias mais adequadas que prejudiquem menos a população, sobretudo aquela que vive próxima ao estádio.

Por outro lado, Luiz Antônio de Souza, professor do curso de Urbanismo da Universidade Estadual da Bahia (Uneb) critica o andamento que as obras para a Copa do Mundo estão tomando. Para ele, mesmo a decisão de demolir o estádio já estava em desacordo com a ideia de sustentabilidade. “Uma demolição dessas estruturas em concreto armado, que se localiza na zona central da cidade, bastante populosa e próxima a um túnel, a sofisticados equipamentos de telecomunicações, vias de alto carregamento de transporte e edifícios históricos, por si só expõem que se está de costas aos ideais de sustentabilidade”, contesta. O professor também salienta que para se reaproveitar o entulho da demolição, seria necessária a montagem de uma usina de reciclagem.

Longe de toda a polêmica local, o arquiteto paulista Vicente de Castro Mello avalia que uma obra de construção deste porte, para se qualificar como um projeto sustentável, precisa reduzir a poluição gerada pelas atividades da construção, controlar a erosão do solo e prevenir a sedimentação dos cursos da água e geração de poeira. Além disso, deve-se estimular a estocagem e separação dos resíduos recicláveis, evitando o envio destes materiais a aterros sanitários ou usinas de incineração. O objetivo é que todos os materiais empregados na obra sejam reciclados ou reutilizados em níveis de 50% a 75%.

Castro Mello é sócio de uma empresa especializada em arquitetura esportiva e elaborou, em parceria com o economista inglês Ian McKee, o plano Copa Verde. Os autores do plano veem na Copa do Mundo uma oportunidade importante para estimular a construção de edifícios que utilizem tecnologia limpa, uma vez que o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) disponibilizou linhas de crédito mais favoráveis para projetos sustentáveis e os ministérios do Esporte e do Meio Ambiente assinaram um acordo de cooperação para realizar projetos “verdes”. Segundo Castro Mello, o Brasil, devido a sua vastidão de recursos naturais, deve investir cada vez mais em tecnologias renováveis e precisa incluir o Green Building como fator de desenvolvimento do país.

O plano foi apresentado em uma reunião realizada entre os arquitetos responsáveis pelos projetos no ano passado, em Salvador. Segundo Castro Mello, após o Comitê Organizador Local recomendar fortemente a certificação verde LEED (Liderança em Energia e Design Ambiental), alguns estádios se inscreveram para garantir sua certificação, embora todos eles já incorporem conceitos de design ambiental. Para o arquiteto, o consumidor está cada vez mais consciente e atento à eficiência das edificações, em detrimento da beleza do que foi construído. “Acredito que a eficiência, a economia de manutenção e o baixo impacto ambiental nos prédios serão mais interessantes do que construções e equipamentos, onde a estética estava acima da eficiência”, avalia.

No projeto da nova Fonte Nova, o arquiteto Marc Duwe levou em consideração quesitos como o reaproveitamento de água, reciclagem de lixo e aproveitamento da luz natural no estádio. Na própria obra, além do reaproveitamento do material da demolição, as estruturas metálicas do estádio serão feitas com a membrana PTFE, o que representa uma economia de 30 a 40% na utilização de aço.

O total de vagas nos dois estacionamentos do estádio não ultrapassa 2000 vagas, o que representa um incentivo ao uso do transporte público como principal forma de acesso ao estádio, que se encontra próximo a uma estação de metrô que está sendo construída, integrada a uma das principais estações de ônibus da cidade. No entanto, o secretário Eugenio Spengler atenta para o fato de que é necessário verificar em conjunto com a prefeitura de que forma se dará a integração entre os sistemas de transporte no entorno do estádio.

Além disso, a existência de outros espaços de consumo, como restaurante, shopping e o Museu do Futebol, feitos para que as atividades não se resumam apenas aos dias de jogos, o que poderia ajudar o estádio a garantir sua própria sustentabilidade econômica. Outro aspecto importante foi a realocação temporária de alunos que desempenhavam atividades esportivas no complexo da Fonte Nova em outras áreas da cidade, segundo vídeo divulgado pela Assessoria de Comunicação do Governo da Bahia. O estádio, porém, foi demolido e começará sua reconstrução praticamente do zero, o que permite pensar mais facilmente em soluções que garantam sua sustentabilidade. Pensar no transporte público de Salvador requer muito mais. Será que a cidade está se preparando?

Parte II: Os impactos no transporte soteropolitano

Sediar jogos da Copa do Mundo em qualquer cidade requer um estudo detalhado das vias de trânsito que envolvem e ligam o estádio, os hotéis, a rodoviária, o aeroporto e as principais áreas de lazer. Realizar modificações nessa complexa rede de trânsito, de forma sustentável e diminuindo os impactos sobre a população local é um verdadeiro desafio. Numa cidade como Salvador, que tem 461 anos de existência e uma topografia complicada pela abundância de morros, esse problema é ainda maior.

No centro da cidade, região próxima à Fonte Nova, existem ruas que são tão antigas quanto a própria Salvador e que, por serem estreitas, mais servem à uma realidade de locomoção do passado do que a atual. Com seus atuais 800 mil carros e 2500 ônibus e um crescimento de 60 mil novos veículos por ano, a modificação das vias de trânsito, mesmo em áreas mais distantes do estádio e que não tem o mesmo problema de estreitamento, será decisiva para o sucesso ou o fracasso do evento.

Nessa conjuntura, a desapropriação de residências e estabelecimentos comerciais para o alargamento de vias é inevitável. É o que confirma o secretário municipal de transportes e infraestrutura, Euvaldo Jorge. “Não há dúvidas de que haverá desapropriações. Na Avenida Paralela isso será evitado porque ela possui um canteiro central, mas em outras vias da cidade com certeza haverá”, explica. No que concerne à expansão lateral desta avenida, que corta áreas de preservação ambiental, o secretário afirma que o memorial Luís Eduardo Magalhães deverá ser realocado e que as obras serão realizadas de forma a minimizar os impactos ambientais.

Para 2014, uma das maiores obras planejadas para Salvador será uma via exclusiva para ônibus que ligará o aeroporto até a estação da Lapa, através da avenida Paralela. Também deverá ser construído um túnel que liga a estação da Lapa, por onde passam cerca de 460 mil pessoas e 900 ônibus por dia, ao novo estádio da Fonte Nova. O túnel terá 300 metros de comprimento e contará com via exclusiva para ônibus, para pedestres, ciclovia e pista de cooper. Outras intervenções menores serão feitas em outras regiões da cidade, como a construção de uma passarela de seis metros de largura ligando o estádio de Pituaçu ao lado oposto da Avenida Paralela.

Contudo, o problema do trânsito em Salvador poderá não só promover mudanças de ordem estrutural, mas também na rotina dos moradores da cidade. Segundo Euvaldo Jorge, o tráfego de veículos e a movimentação de pessoas na capital não é tão intenso quanto o de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, mas está atingindo um ponto crítico. “Hoje, Salvador tem 3 milhões e 200 mil habitantes, recebendo sessenta mil novos residentes todos os anos. É como se a cada nove anos recebêssemos uma nova Feira de Santana, que é a maior cidade do interior do estado”, ressalta. O secretário ainda atenta para o fato de que Salvador recebe cerca de cinco mil novos carros todos os meses e, se não houver um rápido posicionamento por parte dos órgãos responsáveis, a cidade poderá adotar o rodízio de veículos.

Apesar de todos os problemas infraestruturais do trânsito da cidade, existem ainda os que creem que Salvador já está preparada para sediar uma Copa do Mundo. O professor Luiz Antonio de Souza acredita que uma cidade capaz de realizar um evento como o Carnaval está apta a sediar qualquer tipo de evento existente no mundo. “O que há é muita mistificação sobre a Copa do Mundo, consciência de que não cabe improviso e visão comprometida com os interesses públicos”, afirma. Além disso, o professor critica os problemas de trânsito, que em sua opinião são fruto de uma má gestão governamental. Para o urbanista, “as retenções que ocorrem na cidade são resultado imediato de um Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano reduzido a plano urbanístico e orientado para privilegiar interesses pontuais no campo dos negócios imobiliários”.

O urbanista também afirma que alterações no trânsito da cidade não podem ser realizadas somente por ocasião de um evento temporário como a Copa, porque nenhuma cidade pode ser planejada, pensada e qualificada para atender a ocasiões passageiras. “A cidade não é algo efêmero”, argumenta, “a cidade tem que ser pensada para superar aquilo que aflige seus moradores”. Em sua opinião, o caos do trânsito durante o evento pode ser minimizado com decisões de ordem mais simples que obras infraestruturais, como ajustes no calendário escolar e das repartições públicas, já que boa parte dos espectadores não irá se deslocar a um único lugar, mas a bares e outros estabelecimentos espalhados pela cidade.

Com uma frota de carros 320 vezes maior que a de ônibus, estima-se que a maioria dos torcedores, sobretudo os turistas, irá se deslocar para os jogos na Fonte Nova em veículos particulares, um número bastante problemático para um evento que pretende ser sustentável. Outro obstáculo é que no Brasil se prioriza o transporte individual e há baixo investimento em transportes públicos, seja ele sobre trilhos ou rodas.

No caso específico de Salvador, o secretário Euvaldo Jorge, afirma que a cidade possui uma grande frota de ônibus, mas que estes são pequenos e devem ser, no futuro, substituídos por ônibus articulados e biarticulados, que devem funcionar de acordo com o sistema Bus Rapid Transit (BRT).

O sistema, que é a aposta dos governos municipal e estadual para resolver o problema do trânsito na capital baiana, prevê a construção de canaletas específicas para a circulação de ônibus. O ganho de tempo diário por passageiro seria de 26 minutos, de acordo com uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT).

Uma parceria entre a Setin e o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Salvador (SETPS) resultou em um projeto de sistema integrado de transporte para Salvador, que sugere a construção de mais estações de transbordo na cidade, bem como a construção de canaletas para BRT em diversas vias importantes da região metropolitana de Salvador. Neste contexto, o metrô de Salvador, com data de entrega atrasada em sete anos, perde cada vez mais sentido como resolução do transporte público na cidade, sobretudo porque seu primeiro trecho ainda está incompleto: não chega até o bairro de Cajazeiras, como previsto no projeto inicial.

Uma iniciativa mais ecológica é a construção de ciclovias e bicicletários e, apesar de apresentar uma topografia complicada, a locomoção através de bicicletas pode ser uma proposta interessante para Salvador em 2014. Essas estruturas já existem em áreas de Salvador, como no Parque Metropolitano de Pituaçu ou em regiões como o Centro Administrativo da Bahia e a orla, mas seu uso é basicamente recreativo.

O secretário Eugênio Spengler afirma que investir em ciclovias é uma competência do município, mas ressalta que para que se incentive o uso das bicicletas para uso cotidiano é necessário também que se melhore o sistema público de transporte. Dessa maneira, se diminuiria o transporte individual e, assim, haveria mais espaço físico nas ruas para a construção de vias específicas para ciclistas.

Sobre esse tipo de transporte, Spengler ainda acrescenta que é necessário também que seja elaborada e mantida uma infraestrutura de banheiros públicos equipados com chuveiros, para que quem fosse trabalhar de bicicleta possa higienizar-se antes de chegar a seu emprego. Caberia também às empresas destinar recursos para a construção da mesma infraestrutura em seu espaço privado.

No entanto, o investimento em banheiros públicos não deve estar atrelado apenas a construção das ciclovias, mas encarado como um direito da população. O secretário Euvaldo Jorge afirma que esse transporte alternativo está sendo viabilizado pela prefeitura, através das construções de ciclovias já realizadas na orla e em dois bairros da capital. Além destas, uma já foi construída na Avenida Mário Leal Ferreira, uma das principais vias da cidade, e outra será construída ligando o metrô à Fonte Nova.

Obras como estas pretendem melhorar o trânsito da cidade, mas não devem dotá-lo da dinâmica necessária para melhorar substancialmente a qualidade de vida do soteropolitano. Trata-se de construções e reformulações que são pensados tentando adequar as soluções aos problemas mais urgentes da população, a crença no desenvolvimento sustentável e as necessidades do evento que a capital baiana irá sediar. Ainda assim, 2014 não deixará de ser o ano em que grande parte dos brasileiros torcerão por melhorias na infraestrutura de suas cidades. Em Salvador, ainda há um longo caminho pela frente.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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