Ronaldo – Glória e Drama no Futebol Globalizado

Como um se fosse um livro de suspense, ´´Ronaldo – Glória de Drama no Futebol Globalizado´´ traz sua maior surpresa na última página. No ´posfácio´, o autor Jorge Caldeira nos conta que o livro é uma biografia não autorizada do ´Fenômeno´. Para quem leu as 315 páginas anteriores, esse é um verdadeiro choque.

Sim, porque, ao contrário do que dava a entender a publicidade em torno da obra, esta biografia de Ronaldo é absurdamente parcial. Quem lê tem a nítida impressão de que foi escrita por alguém próximo ao jogador, para promover sua imagem. Em alguns momentos, o autor defende o atacante com tamanha convicção que faz o leitor acreditar que a história foi baseada em relatos do próprio Ronaldo (o que não é o caso; o livro foi feito a partir de textos disponíveis na Internet e em publicações de vários países).

Justiça seja feita, os fatos da carreira e da vida do jogador são narrados de maneira correta. O problema é que eles vêm acompanhados de explicações, interpretações e teorias que sempre favorecem o jogador. Se aceitarmos as versões do livro, Ronaldo estava com a razão em TODOS os atritos com dirigentes e técnicos que teve na vida. Mais: TODAS as críticas dirigidas a ele sempre foram fruto de inveja, falta de informação, sensacionalismo ou amadorismo.

Aliás, o conflito entre amadorismo e profissionalismo é tema recorrente no livro. Caldeira apresenta Ronaldo como exemplo de profissionalismo, em oposição ao amadorismo dos dirigentes brasileiros e até da Europa. Essa seria a fonte de grande parte dos conflitos em sua carreira. O problema é que com isso o texto ignora que a própria equipe que assessora Ronaldo é em grande parte amadora, a começar por seus empresários, Alexandre Martins e Reinaldo Pitta, que obviamente não têm a experiência necessária para gerir a carreira de um astro do porte do ´Fenômeno´.

Mais absurda se torna essa caracterização de Ronaldo como modelo a ser seguido ao se constatar os vários erros de administração de sua carreira cometidos pelos empresários. Embora não haja críticas no livro, fica óbvio que Ronaldo estava com a agenda superlotada até 1998 e que, depois do fiasco da Copa, seus assessores não souberam preservar a imagem do jogador.

O episódio da final da Copa de 1998

Certamente o leitor desta resenha está curioso para saber qual foi o tratamento dado às supostas convulsões de Ronaldo no dia da final da Copa de 1998 – certamente a parte mais importante do livro. Não convém entrar aqui em detalhes, porém vale a pena tecer alguns comentários, já que a descrição desse episódio sintetiza bem o tom do livro.

Embora não tenha entrevistado pessoalmente Ronaldo nem outros jogadores, Jorge Caldeira faz uma descrição bastante detalhada e coerente de tudo o que aconteceu no hotel da Seleção naquele fatídico dia. Os fatos apresentados deixam claro que o ´Fenômeno´ de fato não teve uma convulsão. Porém, a versão apresentada pelo autor também não é totalmente convincente.

Segundo o livro, Ronaldo teve apenas um distúrbio do sono – algo muito assustador de se testemunhar, mas absolutamente sem conseqüências para a saúde do atleta. Embora seja plausível, a explicação não deixa de ser apenas mais uma entre as dezenas de versões que existem para o caso. Principalmente porque não explica uma constatação óbvia: na final da Copa, Ronaldo estava visivelmente fora de suas melhores condições. Apesar disso, o livro afirma o craque entrou em campo tranqüilo, relaxado e em perfeitas condições físicas (só os outros jogadores é que estariam abalados pela situação).

Aliás, na ânsia de defender o atacante nesse episódio, Jorge Caldeira criou uma situação inusitada: desmentiu as declarações dadas pelo próprio Ronaldo após a Copa. Apesar de todas as evidências em contrário, o livro insiste que, de todos os integrantes da delegação brasileira, o jogador foi o que teve menos culpa no fracasso brasileiro. As acusações de que Ronaldo teria sido afetado pelo estresse excessivo sobre são veementemente refutadas – segundo o livro, não houve traição de Suzana Werner e a presença de vários parentes e dos empresários na França foi benéfica (ou seja, as declarações de numerosos membros da delegação, que diziam que o celular do ´Fenômeno´ tocava de cinco em cinco minutos com alguém o aporrinhando com problemas seriam todas falsas). Possível? Sim. Provável? Não.

O problema com tudo isso é que o livro se vende como uma biografia isenta e imparcial. Se, ao contrário, tivesse sido escrito em formato de autobiografia (com a autorização do jogador, é claro), todos esses problemas não existiriam. Afinal, numa obra desse tipo poderia esperar-se um grau grande de parcialidade.

É uma pena. O texto de Jorge Caldeira é muito bem escrito, leve e gostoso de ler. A vida e a carreira do craque estão narrados em detalhes, com todos os fatos relevantes apresentados, inclusive os mais espinhosos. Infelizmente, o excessivo endeusamento do protagonista acaba tirando o brilho da obra, que passa a ser apenas mais um instrumento de propaganda na construção do fenômeno de mídia que é Ronaldo.

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