Resenha: O Segredo dos Seus Olhos

 

Por Joza Novalis

Quase todos que leem esta resenha conhecem o filme, O Segredo dos Seus Olhos; muitos conhecem bem ou, no mínimo, já ouviram falar de Ricardo Darín, Soledad Villamil e Guillermo Francella. Que todos mantenham suas lembranças da película como uma espécie de pano de fundo dos comentários que faremos de um dos aspectos do filme: o futebol. E para aqueles que apreciam esse esporte, pedimos a permissão para falarmos apenas de um time: O Racing de Avellaneda. E se isto de certa forma não satisfaz, então afirmamos que vamos falar desse time associando-o a algo que todo mundo entende e aprecia: a paixão. Porém, para aqueles que sequer conhecem o filme de Campanella, eis algumas poucas palavras que o sintetizam, além de seu contexto.

Ao se aposentar, após trabalhar a vida inteira em um Tribunal, Benjamín Espósito decide escrever um romance para ocupar o seu tempo vago. A proposta não é a de inventar uma história, mas a de contar uma da qual fora testemunha. Trata-se de um crime qualificado de estupro e assassinato de uma jovem professora de 23 anos. A princípio, Espóstio mantem indiferença ao o caso, que não era para ser seu. Porém, sua visão muda radicalmente ao se deparar com o cadáver e a brutalidade emocional do caso, revelada no sofrimento de Ricardo Morales, o marido da jovem.

Decidido a ajudar Morales, Espósito percebe que não terá o apoio do próprio Tribunal e da Justiça, que inclusive o colocam na berlinda até conseguirem que ele abandone o caso. Dessa forma, se configura seu caráter de anti-herói, que vai se alimentar de diversas outras soluções suspensas ou negadas pela protagonista na sua vida de então. Esse caráter de anti-herói, porém, era de fora para dentro; não estava na essência da personagem, mas em um contexto socio-psicológico que desde o início do filme se apresenta repressor. No terreno social, temos uma espécie de regime de transição, em que o vazio de poder do fraco governo de Isabelita Perón abre as portas da violência, da vingança, do ódio e da morte e configura o medo como uma personagem, que por sua vez, seria uma das mãos que abririam as mesmas portas para o sangrento golpe militar do General Videla. Já no terreno pessoal, estamos diante de um Espósito, que por um lado, tem no amigo bêbado seu único apoio e em Irene Hastings, sua chefe, uma forte paixão, correspondida por ela, em seu íntimo, mas que Espósito não pode levar a cabo por seu complexo de inferioridade e pela relação chefe/subordinado, tida como rígida no Tribunal. Vencido pelo contexto. Espósito vê a injustiça prevalecer no caso e é obrigado a aceitar sua derrota. Contudo, como na sua essência não era um anti-herói, vai sofrer as consequências por vinte e cinco anos, tempo em que sua vida não se projeta para o futuro por causa de um contexto de coisas não resolvido no passado.

A partir daí, temos amor e paixão encalacrados e a liberdade de viver e dar vazão aos desejos encarcerada. As ações ligadas à satisfação do desejo são aprisionadas na intimidade das personagens e não podem ser comunicadas. A vida então é suspensa do presente e relacionada a um futuro que nunca chega. À medida que o tempo passa, esse presente vira um passado que também aprisiona as personagens numa vastidão de sensações que vão desde a impotência por não darem conta dos desejos mais íntimos quanto no desacerto da sociedade em geral, que descamba de um regime antidemocrático e policialesco a outro militar, em que a inversão de valores passa a ser uma instituição oficializada pelos governantes de então. Nisto a soltura do criminoso, e seu empego como segurança de Isabel Perón, recebe a condenação de parte do poder público (por Darín e Soledad); seu desaparecimento, assim como o de Romano, o seu protetor, pouco depois seria uma prática de Estado totalmente compatível com o comando militar institucionalizado.

Como resultado desse contexto, temos um filme que não aceita a presença de personagens esféricas e esvaziadas e, tampouco, de atores inexperientes ou fracos. Problema tanto em Rago (Morales) quanto em Godino (Gómez), que não parecem ter cancha para tanta densidade dramática e histórica. Neste aspecto, Campanella acertou em colocar pouca fala em Gondino e pecou no excesso de close em Rago.

O Racing entra no filme no momento em que o futebol é visto como uma das maiores paixões humanas. “Uma pessoa pode trocar de tudo, de rosto de casa, de família, de namorada, de religião, de Deus, porém há uma coisa de que não pode trocar: de paixão”. Aqui, a personagem trata de paixão como algo profundo e colado à essência das pessoas. E para associá-la ao futebol, primeiro ele aproxima o conceito de paixão à sua bebedeira e ao amor de Espósito por Irene Hastings. Na sequencia é que paixão e futebol se confundem, em um movimento que fortalece esse esporte, colocando-o, no filme, como uma paixão superior.

No instante em que Espósito se mostra frustrado com o caso, Sandoval o convida ao bar e o coloca em contato com Andretta, famoso hincha do Racing, e chamado de Platão por frequentar e saber tudo sobre a Academia. Na cena, o futebol aparece “sem paletó”, e vestido pelo humor e por uma linguagem coloquial própria de sua essência. Um dos nomes citados por “Platão” é de Pedro Manfredini, que não estava no time do Racing de 1961, mas no de 1958, que quebrou a hegemonia do tricampeão River Plate. Naquele ano, havia uma espécie de luto no futebol local devido à decepção com a então favorita Albiceleste no Munidal da Suéca. A seleção fizera uma campanha espetacular na Copa América no Peru, em 57. Ganhou de 8×2 da Colômbia, 3×0 do Equador, 4×0 do Uruguai, 6×2 do Chile e 3×0 do Brasil; conquistando o seu 11º troféu. Na Suécia, contudo, a seleção fora humilhada, saindo na primeira fase, após perder de 3×1 da Alemanha Federal e de 6×1 da Tchecoslováquia. Tanto o elenco que fizera a alegria no Peru quanto o da Seleção no Mundial tinham destaques do Racing. No ataque do primeiro, o trio Maschio, Angelillo e Corbatta; no segundo, este último, considerado um dos maiores atacantes argentinos da história.

Por um capricho do futebol, Manfredini só esteve na seleção de 59, que voltaria a ganhar a Copa América. Porém, o grande destaque da Academia no título de 1958 seria transferido para a Roma, onde também entraria para a galeria de jogadores históricos do clube. Na carta à sua avó, Gómez opõe Manfredini a Bavastro. Enquanto aquele veio quase de graça ao clube, que com sua venda, depois, sanearia suas finanças, este (Bavastro) custara uma fortuna e sentiu o peso da camisa. Não fez nenhum gol nos dois únicos jogos em que atuou de 62 a 63.

Andretta dá a escalação do time campeão do Racing de 1961: Negri; Anido, Mesías, Blanco, Peano, Sacchi; Corbatta, Pizzuti, Mansilla, Sosa e Belén. Repare que não aparece Oleniak; ele era reserva de luxo, junto com Borges e outros. Trata-se de outro esquadrão espetacular, que poderia ter conquistado muito mais títulos. Foi campeão com 19 vitórias, 9 empates e apenas duas derrotas. Em Pizzutti tinha um jogador que esteve na grande campanha de 58 e se converteria no técnico da grande equipe de 1966/67,campeã local, da Libertadores e do Mundial Interclubes. O time de 61 foi fantástico porque ergueu como poucos o moral da hinchada acadêmica. Foi campeão com 9 pontos à frente do River, 12 do Boca e 14 do grande rival de bairro, o Independiente. Só foi superado, de fato, pelo que tinha em Pizzutti o seu treinador, além de outros jogadores históricos como Perfumo, Coco Basile, Martinol, J.J. Rodríguez, Raffo, Maschio e o herói do título Mundial, Juan C.Cárdenas, que marcou o gol da vitória na carnificina humana que foi o jogo desempate no Uruguai, contra o Celtic.

Reparem que o diretor toma o time de 61 como o elo entre 58 e 66/67. A ideia não é apenas a de homenagear o Racing, mas a de mostrar o quanto os seus torcedores precisaram ao longo do tempo contar com a memória para se safarem do sofrimento dos vários períodos da história em que a Academia ficou sem título, algo comum na história do clube. O fato também acentua a paixão, aqui conotada pela fidelidade ao clube e à sua história. “Veja, mas o que é o Racing para você?”. “Uma paixão, te digo!”. “Mas não é campeão há quase nove anos”. “Uma paixão é uma paixão!”

A cena seguinte é um espetáculo cinematográfico. Em um único plano-sequência, sem cortes, a câmera oferece um panorama de Parque Patrícios, e se aproxima pouco a pouco do Tomás Adolfo Ducó. Adentra ao estádio, mostra uma típica jogada argentina, com a presença de enganche, e tudo narrado pelo grande de Jose Maria Muñoz. A mesma câmera atravessa o campo e vai até as populares do estádio, onde encontra as personagens, Espósito, Sandoval e Gómez. Então a voz de Muñoz cede lugar ao grito de apoio da hinchada acadêmica: “Y la Acadé, Y la Acadé, Y la Acadé…”Quando Espósito põe suas mãos sobre o assassino ocorre o gol do Racing, o que favorece a sua fuga na multidão. A câmera então penetra nas entranhas do estádio e segue Gómez até sua entrada no gramado. De modo inusitado, ele se choca com um jogador do Racing e tomba com cara de derrota no gramado; no pescoço, a camisa do time do coração.

Se Gómez não abandonasse sua paixão, não seria pego. Pressionado e procurado por todas as partes fez de tudo para não ser encontrado. Com o apito na boca e apenas torcendo para o seu time não era um bandido no estádio, da mesma forma que Andretta, se ali estivesse não seria um escrivão. Metáfora interessante do futebol, esporte capaz de unir a todos, pobres e ricos, pessoas do bem e do mal: todos arregimentados sob essa instituição que é o torcedor de futebol. Por fim, vale questionar por que a partida foi no estádio do Globo e não no Cilindro de Avellaneda. Na cancha do Racing seria mais difícil de encontrar o assassino, já que o espaço destinado à torcida local era maior. A eleição do Huracán tem a ver com o grande momento histórico do clube, campeão em 73, semifinalista da Libertadores em 74 e candidato ao título em 1975, quando ocorre a cena do estádio. Mais que uma homenagem ao Racing, o tratamento ao clube, no filme, é uma homenagem ao futebol. Afinal, sem ele não se chegaria ao assassino. O que vem depois é o complemento de um belo filme com interpretações gigantecas de Francella Darín e Soledad. Contudo, paramos no pano de fundo do filme, que foi sua homenagem ao grande esporte das massas.
 

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Equipe Trivela

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