“Real Madrid – O Filme”
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Concebido por volta de 2005, ‘Real Madrid – O Filme’ pode ser colocado enquanto um registro da primeira ‘era galactica’ quando o clube foi dirigido pelo presidente Florentino Pérez pela primeira vez. Visto com uma ótica daquela época, o presente filme também poderia ser assistido enquanto uma boa propaganda que visava uma difusão mundial da marca Real Madrid. Num dado momento da ‘era galáctica’ houve conquistas significativas como a UEFA Champions League de 2001/2002. Num momento posterior o Real Madrid se transformou numa absurda jogada de marketing futebolistica que pode ter rendido milhões em detrimento de títulos.
O roteiro é bem simples e muito cativante em alguns momentos. As vésperas de um clássico contra o Barcelona são retratadas detalhe a detalhe. Raul se recupera de uma contusão, Ronaldo concede entrevistas coletivas e observamos Vanderlei Luxemburgo comandando treinamentos com seu ‘portunhol’ aliado ao inglês ‘macarrônico’, utilizado para passar instruções a Beckham e Owen. Lembre-se: estamos na temporada 2004/2005 e numa analise lúcida daquele período os galácticos já vinham em franca decadência.
Entrecortando as preparações para o clássico surgem cinco histórias ficcionais de pessoas comuns cujas existências de alguma maneira se relacionam com o clube blanco. Um professor de história recém chegado à capital espanhola tenta entender qual o significado daquela multidão que ele ouve rugir dentro de um estádio em frente ao seu apartamento. No Japão um adolescente perde a paciência com a namorada recém contaminada pela histeria David Beckham que invadia o oriente nas pré-temporadas que o Real Madrid realizava por lá. Em Nova York uma garota que joga futebol se espelha num certo camisa 9 para se automotivar e continuar sendo futebolista após uma contusão no joelho. E isso dá um orgulho tremendo em nós brasileiros ao dimensionarmos o que significa o nome de Ronaldo para aqueles que gostam de futebol ao redor do mundo.
Numa das mais fantásticas histórias presentes no filme, um menino em Caracas na Venezuela descobre que seu avô sequestrou ninguém menos que Alfredo Di Stefano. O Real Madrid teria vindo à América do Sul para disputar uma partida contra o Caracas em meio ao período turbulento das ditaduras que ecoaram na segunda metade do século XX. E o sequestro é baseado em fatos reais! No Senegal um velho (num estilo ‘Homero africano’) conta histórias das partidas que vê pela tevê a meninos de uma tribo longínqua. Esses meninos brincam com uma bola entre seus pés descalsos e sonham em ser mitos como Raul, Zidane e Figo. Uma propaganda descarada da escolinha que o Real Madrid mantém na Africa mas ainda assim há um lado poético ali. Por fim a partida valendo pelo segundo turno da Liga Espanhola 2004/2005 em que o Real Madrid bateu o Barcelona por 4×2.
Lendas vivas do clube madridista aparecem para atestar conquistas mais antigas e o citado Di Stefano se faz presente em diversas cenas. Raul relata suas sensações quando conquistou a UEFA Champions League 1999/2000. Zidane fala sobre seu pé esquerdo autor do golaço que decretou a vitória blanca contra o Bayer Leverkusen na final de UEFA Champions League 2001/2002. Algumas cenas impagáveis nos bastidores do plantel merengue 2004/2005 também surgem. No departamento médico Roberto Carlos choraminga e deixa até a enfermeira constrangida. Motivo? Uma agulha e uma seringa para um exame de sangue. Num treino Zidane, Ronaldo e Gravesen na bandeirinha do corner tentam acertar o gol numa curiosa versão rasteira de um campeonato de gol olímpico. O perdedor paga flexões de braço.
O autor desta resenha propôs um texto sobre este filme ao editor deste Trivela exatamente para resgatar a primeira ‘era galáctica’ de Florentino Pérez, presidente madridista que acaba de voltar ao poder. Para além de bem e mal é um registro oficial do referido momento. Quando Florentino Pérez menciona aumentos de receita com uso de marketing ele não quer dizer apenas venda de merchandising (camisas, bolsas, bonés, cuecas, caixões, etc). Florentino Pérez se refere a exploração midiática elevada a níveis incomuns ao âmbito futebolístico. Em outras palavras Pérez ambiciona lucrar com direitos autorais recebidos a partir do momento que a marca Real Madrid é divulgada em algum lugar. ‘Real Madrid – O Filme’ é só um dos filmes produzidos nos bastidores da primeira ‘era galactica’. Imagine quanto o clube não lucrou com a veiculação de seus direitos de imagem no filme ‘Gol II’ (de Jaume Collet Serra) em que o personagem principal joga pelo clube blanco por 110, 120 minutos de filme. Para ter dimensionado o quanto se paga por direitos autorais, leve em consideração que hoje em dia um autor de ‘best seller’ daria qualquer coisa para ter seu livro transformado em roteiro por Hollywood.
Enquanto produção cinematográfica, em ‘Real Madrid – O Filme’ há um tom leve nas histórias com o qual os espectadores facilmente se identificarão. Se um homem tem uma bola nos pés todas as histórias do mundo residem ali. Poderíamos qualificá-lo de maneira curiosa, enquanto um documentário entrecortado por histórias ficcionais. No que diz respeito às imagens reais de atletas e jogos temos uma dimensão cinematográfica e as vezes dramática. Mas nada supera a autenticidade de uma partida que acontece em tempo real. Se você não torce para o Barcelona vale uma conferida!