Preben Elkjaer-Larsen: histórico em Verona
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Por Rodolfo Zavati
Qual o elo entre o mítico Verona campeão italiano em 1985 e a seleção dinamarquesa que brilharia, um ano mais tarde, na Copa do México, recebendo a alcunha de “Dinamáquina”? Se você pensou em Preben Elkjaer, acertou. O atacante era o grande craque dessas duas lendárias formações, até hoje objetos de culto por seus feitos históricos e surpreendentes nos torneios citados.
Preben Elkjaer Larsen nasceu em Copenhague, capital da Dinamarca, no dia 11 de setembro de 1957. Antes dos vinte anos já se destacava no pequeno Vanlose, chamando a atenção do FC Köln, então um dos grandes da Alemanha Ocidental. Embora tenha feito parte do elenco campeão da Copa da Alemanha, a passagem do atacante por terras germânicas durou pouco e não deixou saudades. Em Colônia, surgiram os primeiros problemas disciplinares de Elkjaer, um convicto apreciador de álcool e cigarros e assumido contestador de seus treinadores.
Num de seus casos mais folclóricos, consta que o lendário Hans “Hennes” Weisweiler, bandeira do Köln e então técnico da equipe, teria repreendido o dinamarquês sobre uma escapada noturna com direito a uma garrafa de uísque e companhia feminina. Ao ser questionado pelo treinador sobre a veracidade do boato, Preben se saiu com uma resposta que faria inveja a qualquer bad boy: “Professor, é mentira. Na realidade, eu estava com duas mulheres e uma garrafa de vodca”. O disciplinador Hennes, claro, não achou graça na sinceridade de seu comandado. A vida do dinamarquês no futebol alemão acabava ali.
Carreira em ascensão
Aos 21 anos e já com fama de craque-problema, Elkjaer acertou com o Sporting Lokeren, clube médio da Bélgica. Em seis temporadas, ultrapassou a marca dos 100 gols com a camisa do clube, formou dupla de ataque com o craque polonês Lato e virou ídolo. Na pequena cidade (menos de 40 mil habitantes), ganhou status de mito, além de apelidos como “Chefe” e “O Louco de Lokeren”. Os títulos não vieram, mas passaram perto. Na temporada 1980-1981, um vice na Liga e outro na Copa da Bélgica, além de uma histórica campanha na Copa da UEFA, em que o Lokeren eliminou Real Sociedad e Dinamo de Moscou e só caiu nas quartas de final.
Mesmo sem erguer taças, foi a melhor fase da história do KSCL. Sua carreira, entretanto, ainda iria bem mais além do protagonismo no tricolor belga.
Elkjaer começa a se tornar um dos grandes atacantes de sua época quando, no verão de 1984, o Hellas Verona leva o dinamarquês para a Itália, juntamente como o meia alemão Hans-Peter Briegel. Já na sua primeira temporada pelo novo clube, o histórico título no Calcio – confirmado na penúltima rodada com um gol seu, diante do Atalanta, num empate em Bergamo que valeu a surpreendente conquista. O fato de o Verona ter formado uma ótima equipe era unânime, mas, mesmo com os reforços e os dois vices consecutivos nas edições anteriores da Copa da Itália, poucos podiam imaginar que o time do Veneto iria tão longe.
Num campeonato que teria a Juve de Platini, a Inter de Rummenigge, o Napoli de Maradona e a Udinese de Zico, ninguém apostaria no inédito êxito veronês antes do campeonato começar. Entretanto, quando a bola rolou, o Verona abriu vantagem logo de cara e liderou de ponta a ponta, num título incontestável – o último scudetto de um clube de província, isto é, de uma cidade que não é capital de sua região.
Um momento que ilustra perfeitamente a participação decisiva de Preben Elkjaer-Larsen no título veronês aconteceu em outubro de 1984. Líder, o Verona receberia a Juventus, de Platini, Scirea e Paolo Rossi. O time da casa vencia por 1-0 e sofria pressão sistemática da Vecchia Signora, dona de um timaço que seria campeão europeu poucos meses depois. Num contra-ataque mortal, o dinamarquês pegou a bola em sua intermediária esquerda e disparou em velocidade. Mesmo perdendo uma chuteira pelo caminho, o camisa 11 prosseguiu sua arrancada até invadir a área e balançar as redes juventinas. O lance, que mistura força, rapidez, raça e habilidade, é um dos gols mais famosos da história do futebol italiano. Se até aquele jogo ainda não se sabia se o Verona brigaria realmente pelo título, as dúvidas acabavam ali.
Embora sua média de gols tenha despencado nas quatro temporadas que passou na Itália, Elkjaer-Larsen se tornou um jogador completo, não apenas um centroavante matador. A prova foi o ótimo desempenho do atacante na Bola de Ouro da revista France Football: em 1985, Elkjaer foi eleito o segundo melhor jogador europeu, ficando atrás apenas de um Michel Platini no seu auge (em 1984, foi terceiro). Sua apresentação ao mundo ocorreria nos gramados mexicanos, durante a Copa de 1986. A estreante Dinamarca surpreendeu ao vencer com autoridade seus três jogos da primeira fase, num grupo que dividia com dois campeões mundiais: Alemanha e Uruguai.
Os uruguaios, aliás, foram massacrados por 6 a 1, com três gols do atacante do Verona. Seu futebol vigoroso, de arrancadas e dribles em altíssima velocidade, se casava perfeitamente com o estilo técnico e cerebral de Michael Laudrup, outro craque dinamarquês e seu companheiro de seleção. Os quatro gols no Mundial valeram ao atacante a Bola de Bronze, como terceiro melhor jogador daquela Copa, mas a surpreendente Dinamarca parou na Espanha. Os espanhóis, aliás, foram a grande pedra no sapato daquela brilhante geração dinamarquesa. Dois anos antes, a seleção escandinava fazia ótima Eurocopa até sucumbir à Furia, nas semifinais – numa disputa de pênaltis que teve erro decisivo de Elkjaer.
Em 1988, após sair do Verona, retornou ao seu país natal. Sua passagem pelo Vejle, porém, durou apenas duas temporadas. Já atormentado por lesões, Elkjaer pouco jogou e resolveu se aposentar. Fora dos campos, tentou ser técnico, tendo uma passagem rápida pelo Silkeborg. Dali em diante, fez carreira na mídia esportiva dinamarquesa e segue como um dos principais comentaristas do país.