Parabéns ao Inter

O ano do centenário do Grêmio foi terrível. Com o clube completamente bagunçado, não se aproveitou bem a oportunidade de comemorar. Além disso, o time escapou do rebaixamento no Brasileirão apenas nas rodadas finais.

Mas, para um amigo meu gremista, isso não era o mais triste. “O pior do ano do centenário é perceber que a melhor homenagem que o Grêmio recebeu foi feita pelo Inter”, diz. É verdade. O Internacional publicou uma belíssima carta aberta, parabenizando o rival nos principais jornais do Rio Grande do Sul.

Quase seis anos depois, eu estava falando ao telefone com o vice-presidente de marketing do Tricolor. Assunto: o centenário do Inter. Houve umas brincadeiras por parte dele (como lembrar que estamos perto do centenário do primeiro Gre-Nal, com vitória tricolor por 10 a 0) e, quando ele começou a me responder se o Grêmio retribuiria a homenagem, a ligação caiu. Compreensível, ele estava em Cochabamba acompanhando a delegação gremista no jogo contra o Aurora e o sinal estava mais capenga que o cartaz do Nelsinho Piquet na Renault.

Bem, até tinha esquecido o assunto. Não o centenário do Inter (impossível, pois recebi um sem-número de e-mails anunciando novos lançamentos e coisas para celebrar o aniversário colorado), mas a eventual retribuição gremista. E ela veio.

Isso é uma rivalidade saudável, de duas diretorias que sabem a diferença de dirigir um clube e torcer (viu Corinthians e São Paulo?). Então, melhor do que eu dizer parabéns ao Inter, deixarei o Grêmio fazê-lo:

“Ao Sport Club Internacional.

Apesar dos 105 anos bem vividos, temos boa memória. E da mesma forma que fomos homenageados naquele 15 de setembro de 2003, aqui estamos para mostrar nossa admiração e respeito por tudo que conseguiste até hoje.

Mas antes de qualquer coisa, vamos contar um pouco dessa história.

Que nos desculpem os modestos, mas poucos podem contar tão bem essa trajetória quanto a gente. Ou esquecem que, naquele 4 de abril de 1909, nós já estávamos por aí, jogando bola?

E o mais incrível: isso não intimidou aqueles novatos que logo nos desafiavam para um 'match'. Não dá pra dizer foi o mais difícil dos jogos. Mas saímos de campo certos de que tamanha audácia haveria de nortear um futuro promissor.

Dito e feito.

Com o passar do tempo, foi ficando claro que nossos caminhos sempre se cruzariam. Nosso destino eternizou o fato de que teus astros cintilam num céu sempre azul.

E assim seguimos, na eterna busca de superar um ao outro. Depois da Baixada, os Eucaliptos. Daí veio o Olímpico, e então o Beira-Rio. Se aquela camisa 5 nos incomodou na década de 1970, a nossa camisa 7 apavorou na década seguinte.

Aliás, nada é mais bonito no futebol do que essa competição sadia, essa rivalidade. Porque gente como Tarciso, Eurico Lara, Airton Ferreira da Silva, Danrlei, entre tantos outros, gente que nunca vestiu vermelho, também ajudou e segue ajudando a escrever a história gloriosa do Sport Club Internacional.

E isso, podem ter certeza, dá um baita orgulho.

Nação Colorada, aceita de coração o parabén de todos os Imortais Tricolores pelo teu Centenário.”

PS.: Se você ficou curioso a respeito da homenagem colorada ao Grêmio em 2003, veja abaixo:

“VELHO GRÊMIO!!

Bom dia, Grêmio!

Quero ser o primeiro a te abraçar, nesta data tão especial. Afinal, sou teu mais antigo parceiro. Nestes cem anos da tua vida, há mais de 94 sou testemunha presencial de uma profícua existência, como se diz nas solenidades.

Já te conheci taludinho, o que me custou alguns cascudos, como é comum nessas amizades de infância. Tudo bem, eu pude dar o troco e chegamos sem ressentimentos à maturidade. Nos meus primeiros anos, quando eu vivia em casa alugada, tu já eras o feliz proprietário de um fortim em bairro chique; depois fui eu que construí morada de concreto e alvenaria, cenário até de festas mundiais; a comparação te estimulou e aí te mudaste para a bela casa de hoje; pouco depois comecei a erguer o palácio onde vivo – e disso tudo lucraram os nossos milhões de amigos.

Dizem que somos opostos inconciliáveis, e de fato temos grandes diferenças. Não só de idade, mas de origem, e, por conseqüência de temperamento e jeito de ser. No geral és mais contido, eu mais extrovertido, embora, ultimamente, venhas revelando uma pontinha de incontida admiração pela minha popularidade.

Somos também muito parecidos (que não nos ouçam os mais radicais dos nossos seguidores), sobretudo na paixão pela nossa terra comum, o gosto de representá-la bem, e mais ainda na afeição sem limites por esse jogo incrível, em que uma bola de couro rola pelos mágicos tapetes verdes que habitamos e visitamos, onze pra cada lado, milhões pra cada lado.

Quando fizeste 50 anos, eu estava lá. Quase estraguei a festa, desculpa o mau jeito! (faz parte: não esqueçamos dos cascudos…). Quando eu fiz 60 anos, também te chamei para comemoração, que, por sinal, terminou em barraco, o que também faz parte. E a cada 15 de setembro eu vou na tua casa, como vais na minha a 04 de abril, e ali trocamos discursos em que, nós sabemos, o apreço é sincero. Dizem até que não podemos viver um sem o outro.

Tiveste grandes dias e amargas passagens nestes cem anos, como eu também, nos meus 94; a vida é assim, mais alto o coqueiro, maior é o tombo, diz a canção popular – mas ninguém nos acusará de termos jamais violado o nobre espírito que preside as competições esportivas. Com os bons e os maus resultados, aprendemos e também ensinamos que não há desonra nas derrotas de campo, e que a uma hora de amargura sempre se seguirá um momento de glória.

Recebe, velho Grêmio centenário, o abraço nonagenário do Internacional

FERNANDO CARVALHO
PRESIDENTE”

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