O Último Galáctico

Eram as últimas semanas do ano. Antonio estava bastante entediado. As propostas não passavam de rumores divulgados a exaustão pela imprensa italiana. Quando perguntado, fazia questão de se mostrar animado e cheio de expectativas. Ainda treinava com os companheiros de clube, mas faltava-lhe uma motivação. Era apenas um pretexto para manter sua própria sanidade.

A noite caía na Cidade Eterna. Lá uma sublime e sacra aura se funde aos mitos e feitos pagãos de seus pioneiros ancestrais. Da mesma forma que os últimos vestígios da tarde eram consumidos rapidamente pela fria noite de inverno romana. Antonio acelerava fundo e cortava as avenidas de Roma rapidamente. Era um modelo potente, cortesia do patrocinador do clube. Percebe o celular tocando e para o carro.

– Droga, deve ser ela…

– Antonio, estou em contato com os merengues, acho que estarei em Madrid até o fim desta semana.

– Oh, é você! Certo. A imprensa já está em cima?

– Ainda não, fique tranquilo! Se a coisa realmente se concretizar aí sim você terá que se preocupar com a imprensa de lá!

Antonio encerra a ligação e resolve seguir para casa. Sentia vontade de estar só. Por um momento sentiu-se aliviado por não ser ela. Era imaturo demais para dar o braço a torcer. Chegando em seu lar, abre uma garrafa de vinho. Segurando a taça em frente ao espelho ele contempla sua própria face, as madeixas loiras agora soltas pela tiara. Sente que não é mais um menino indefeso, porém sabe que ainda não é um homem de fato. Sob a luz baixa da sala ele adormece.

Na manhã seguinte no centro do treinamento do clube, Antonio e Christian conversam enquanto realizam o trabalho de aquecimento:

-Você não acha que apostou alto demais? Quase seis meses sem jogar partidas oficiais, perdeu seu posto na azzurra. Luca é o artilheiro do campeonato, isso é algo inesperado. Você tem que ter a cabeça no lugar. Eles gostam de você. O povo pede pela minha presença naquela defesa, mas o treinador e eu não nos damos muito bem…

– Tenho um pouco de receio, sei que voltarei. Você jogou em Madrid, sei que consegurei me sobressair em meio às defesas espanholas.

– Garoto, garoto…a capital espanhola é diferente. Vestir aquela malha branca é algo indescritível. Joguei lá num momento bem distinto daquele que você vai encontrar. E muito do meu exito se deve ao treinador Fabio. Tenha consciência de que você será o segundo italiano a vestir aquela camisa.

Dias depois em Madrid, numa sala suntuosa o manager de Antonio se reune com o presidente do clube merengue.

– Nós estamos interessados. É um mal momento e preciso de uma solução imediata. Deus queira que o nosso capitão volte a tempo de disputar a Copa.

– Então o negócio está fechado.

O anúncio da contratação acontece às vesperas das festas de fim de ano. Antonio será a principal contratação do clube de Madrid para o segundo turno da liga. Logo após a confraternização de ano novo, Antonio embarca para Madrid sendo rapidamente apresentado a torcida. Muitos flashes e jornalistas. Realmente criava-se uma grande campanha de marketing em torno de cada atléta que lá chegava. Algo digno de um ‘rockstar’. Entre as várias perguntas que Antonio respondeu na coletiva uma se tornou manchete de jornal, a afirmação de que muito lhe agradava a palavra ‘galático’. Era assim que a torcida da capital espanhola se referia às suas estrelas maiores.

Antonio se juntou ao grupo e começou a participar regularmente dos treinos. Após sua primeira vez junto a equipe num jogo oficial, aparentou uma certa tranquidade no vestiario. Venceram por 4 a 2. Não foi um jogo complicado, mas poderiam ter sido derrotados. Os adversários vieram de Sevilla. Estava muito frio e a partida foi em campo pesado. Ele pensou que entraria em campo.

– Logo chegará a sua vez, você está indo bem nos treinos – disse o treinador.

Muito se fala sobre o francês Yazid. Antes de chegar a Madrid, teve exito até mesmo em meio a dura marcação italiana. Sobressaiu-se em Turim. Estar jogando ao seu lado nos treinamentos era algo realmente grandioso. No primeiro turno desta temporada ele se machucou. Foi voltando aos poucos e está entrando no ritmo, pois quer chegar bem para disputar sua última Copa ao findar da temporada. Com a mesma serenidade de quem acabou de realizar um hat trick, Yazid se aproxima de Antonio.

– Você corre por fora e quer uma das quatro vagas do ataque de sua seleção, não é?

– Penso que sim. Preciso estrear logo!

– Faça bem feito. O mundo não gira em torno de uma pessoa só. O sol nasce para todos. Me lembro das temporadas que joguei em seu país. Sua torcida ama os seus ídolos. Mesmo enfrentando contusões, Alessandro sempre foi o ‘pinturicchio’ querido de Turim. E ele tem jogado muito nesta temporada.

– Em Milão apostaram em Alberto, Luca foi para Florença e é o artilheiro. Tem que haver um lugar para mim. Somos a nova geração.

– Me lembro da Euro 96. Fomos eliminados e eu fui criticado por minha passividade. Antes de sermos campeões do mundo nos questionaram muito. Políticos radicais diziam que não eramos dignos de representar a França. Nos consideraram uma geração fantástica, mas eramos filhos de imigrantes. Youri tomou a frente e argumentou em nosso favor. Jogamos o Mundial em 98 de cabeça erguida. Na final contra os brasileiros eu só pensava em fazer o melhor que poderia.

– Eu me lembro, era apenas um garoto.

– Faça o melhor que puder. Se outro estiver melhor colocado, passe a bola. Se vc estiver em boa posição, lembre-se de que eu vou passar a bola para você!

O roupeiro se aproxima do francês:

– A sua toalha!

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Equipe Trivela

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