O Sorriso do Futebol – Ronaldinho, o último dos românticos.

O Sorriso do Futebol do jornalista italiano Luca Caioli trás um enfoque bastante dinâmico a respeito do apogeu de Ronaldinho Gaúcho na Europa, que culmina com a conquista da Champions League 2006 pelo Barcelona diante do Arsenal. A obra foi escrita um pouco antes da amarga decepção no Mundial da Alemanha. Porém, diante dos europeus, Ronaldinho parece ter um brilho imaculado ao contrário do público e mídia brasileiros que resolveram pichá-lo como um mero desertor da Copa América. Compreensível em se tratando de um povo que facilmente esquece-se de suas memórias e feitos mais importantes.
A narrativa inicia-se com um relato da partida entre Real Madrid 0x3 Barcelona (Liga Espanhola, novembro de 2005), quando Ronaldinho autor de dois gols e inesquecível performance é aplaudido em pé pela torcida rival em pleno Santiago Bernabeu. No decorrer Luca Caioli resgata os primeiros ‘dribles’ ainda em Porto Alegre, retrata a praticamente desconhecida carreira do irmão, jogador e posteriormente empresário Assis. Nota-se o respeito que o jornalista mostra por boleiros lendários dos pampas como Falcão, Dunga e Emerson. Pelo fato do autor ser italiano, o apreço por vigorosos atlétas de defesa que jogaram o Calccio não deixa de chamar a atenção de um leitor brasileiro. Caioli também se recorda de Renato Portaluppi campeão do mundo pelo Grêmio que depois foi para a Roma mostrando um pouco do futebol gaúcho para o público europeu. Caracterizando o homem gaúcho de maneira curiosa, Caioli o nomeia “cowboy sul-americano” que “ao invés do laço usa boleadeiras”.
O principal atrativo de O Sorriso do Futebol talvez seja a apresentação do obscuro período de ‘exílio’na França, ao qual Ronaldinho Gaúcho se submeteu após a queda da Seleção Olímpica em Sydney 2000. Desde a saída tumultuada do Grêmio, passando pela incerteza da estréia na Ligue 1. A adaptação ao rígido futebol europeu atuando pelo Paris Saint German, ao lado de coadjuvantes esquecidos como Aloisio José (este mesmo que você está pensando, o ‘Chulapinha’ hoje no São Paulo) e Nicolas Anelka. Há uma entrevista com o técnico Luís Fernandez seu primeiro treinador na Europa, que compara Ronaldinho ao saudoso George Weah.
De resto o inevitável. A conquista do penta, a chegada na Catalunha e o eclipse dos galáticos de Madrid imposto pela força azul grená do Barcelona. Também constam entrevistas com Luis Felipe Scolari e Frank Rijkaard. Ao findar, Luca Caioli propõe uma mesa redonda composta por cinco jornalistas de cinco países diferentes, nosso Juca Kfouri entre eles. ‘Seu Carlos’ mostra uma lucidez ímpar ao opinar sobre o futuro de Ronaldinho e as expectativas pré Mundial de 2006.
Louva-se a iniciativa desta nova editora Mundo Editorial em disponibilizar ao público brasileiro uma obra bastante significativa escrita por um jornalista europeu de respeito. Luca Caioli é correspondente da Sky e escreve sobre futebol espanhol para o Corriere Della Sera. Por outro lado observa-se muitos problemas de tradução e grafia. Shevchenko é mencionado de maneira bisonha na página 33 (Chevtchenko). Na página 71, Dunga tem o seu nome de batismo citado com o sobrenome equivocado (Carlos Caetano Bledorn Vieira quando o correto seria Carlos Caetano Bledorn Verri). Olimpique Lyon e Sydney Govou se transformam em Lion e Goveau na página 112. Talvez haja uma necessidade de notas de rodapé explicando o contexto de situações mencionadas pelo autor como quando citado a falta de ritimo e forma física de Ronaldo ‘Fenômeno’ e Antonio Cassano no Real Madrid, na página 78. Cassano é conhecido do público italiano mas pouco conhecido aqui no Brasil.
Fica a reflexão proposta no prefácio escrito por Odir Cunha. Haveriam os veteranos Cafu, Roberto Carlos e Ronaldo intimidado o senso de liderança e o carisma de Ronaldinho no grupo que foi ao Mundial de 2006? Estas características psicológicas são bastante exaltadas por Luca Caioli. Não se pode deixar de notar a boa formação familiar de Ronaldo Assis Moreira. É sabido que os estados do sul proporcionam às crianças boas condições sócioculturais se comparados a outras regiões do Brasil. Ronaldinho teve uma infância boa mesmo não sendo um filho da elite. Um perfil semelhante ao de Kaká. Me pergunto o quanto isto poderia influir na formação de um grande craque…



