O caso do futebol-fantasma – Parte I

Quarta-feira, dez e vinte e cinco
– E aí, quer ir ao jogo de domingo?
– Não dá pra perder, não é? Afinal, é um clássico!
– Quem vai comprar os ingressos?
– Não sei se eu posso dar cano na faculdade, tive uns probleminhas…
– Então, qual é o novo esquema?
– Alô? Vítor, não consigo ouvir você…
– Você falou que estava preparando um novo método…
– Fabiano, você ainda está aí? Nossa, quanto chiado!
– É infalível, e discretíssimo…
– Eu espero, porque você vem tentando faz muito tempo…
– Vítor, cadê você?
– Simplesmente, não vamos usar mais pessoas…
– Como assim?
– Fabiano, que vozes são essas?
– Bolei um sistema isento de interferência humana. Pelo menos na hora H, no jogo mesmo…
– Não entendo, como mexer no futebol só nos bastidores?
– Com tecnologia avançada, se faz qualquer coisa nesse mundo!
– Preciso saber mais. Me encontre no lugar de sempre, precisamos conversar melhor. Quero saber todos os detalhes…
– Com certeza, você tirou as palavras da minha boca!
Duas vozes deixaram a confusa teia telefônica. Outras duas ainda continuavam conectadas, não se atreviam a quebrar o silêncio.
– Fabiano? Você ainda está aí?
– Eu tô sim… você ouviu direito? Entendeu o que eu entendi?
– Sei lá… foi o mesmo que eu entendi? Esquema pra manipular futebol?
– É isso sim, com certeza! E aí, o que a gente faz?
– Vem pra cá, isso é muito sério! – finalizaram a ligação, cientes de que a intrincada e improvável cadeia de ligações havia se encerrado.
Quarta-feira, onze horas
– Não podemos simplesmente ficar parados! A gente ouviu aquilo, ninguém passaria trote numa linha cruzada! Não tem lógica, o que falaram é verdade, está acontecendo – Vítor estava excitadíssimo com a novidade. Bem de acordo com o seu próprio eu, doido para colocar a mão na massa.
– Nunca disse que aquilo que ouvimos era algum tipo de delírio – rebateu Fabiano, mais comedido e centrado, como de costume. – Mas, o que você acha que podemos fazer?
– Ora, denunciar à polícia! É o mínimo!
– E dizer o quê aos tiras? Que escutamos um esboço de conspiração para fraudar o futebol?. – Fabiano desdenhou, empostando a voz.
– Sim, é um ótimo começo – Vítor queria ação.
– E daí pra frente? Sabemos quem são eles? Ou, o nome de algum deles? O que vão realmente fazer, quando vão agir? Ou até em quais jogos vão tentar mexer? Para tudo isso, a nossa resposta é não… Sabemos qual é o novo método? Não!
– É, nem sabemos qual é o antigo… – rendeu-se Vítor. – Mas, ainda assim, mesmo a polícia não nos levando a sério, isso é gravíssimo e precisa ser impedido. Ou você quer ver o seu time ser prejudicado por alguma falcatrua de um par de dementes qualquer?
– Nisso, eu concordo com você – haviam chegado a um consenso. – Vamos ter que imaginar. Falaram em bastidores, onde podem agir?
– Melhor perguntando, em que momento, ou lugar, do mundo da bola, poderiam interferir sem a ajuda de pessoas na hora do jogo? – Vítor formulou a pergunta chave. A partir dela, a dupla de amigos concordou em especular alguma coisa e se falariam assim que tivessem alguma idéia. Agitados, ignoraram totalmente a faculdade, no período da tarde. O dia, passou a ser reservado somente para raciocinarem sobre aquilo. E, logicamente, sigilo absoluto, pois uma vaga suspeita pode virar motivo de piada – ou uma sentença de morte. Tudo dependia de quem pudesse tomar ciência da história.
Quarta-feira, dezessete e trinta
– Conseguiu pensar em alguma coisa? – Vítor estava ainda mais elétrico que antes.
– Tenho teorias… – Fabiano fez um breve suspense. – A melhor delas é que a gente poderia investigar o passado desse novo método…
– Como assim? Fala mais alto, tem muita interferência nessa linha…
– É verdade, tá chiando demais… Bem, mas o que eu quero dizer é que sem saber o que aconteceu antes, nunca vamos ter idéia do que vai começar depois – teorizou Fabiano, com suas tradicionais frases filosóficas e prolixas, às quais Vítor já estava totalmente adaptado.
– Nossa, quanto barulho, acho que você vai ter que pedir pra revisarem a sua linha… ou a minha… Mas, voltando ao assunto, quem você acha que pode ter esse tipo de informação? Afinal, o novo método é tão secreto quanto o antigo. Só nós dois sabemos que existem dois tipos diferentes de fabricar resultados de futebol, por enquanto.
– Talvez não – Fabiano expôs a sua idéia, em meio aos ruídos mecânicos insistentes da ligação. – Você se lembra daquele meu amigo que trabalha num jornal? Aquele jornalista?
– O Luís? O fuxiqueiro?
– Exatamente. E por ser fuxiqueiro, trabalhando na área esportiva, ele pode ter alguma informação nova para nos repassar. Não sei ao certo porque tudo isso não ganhou uma linha de nenhum jornal, mas se houve método antigo, e agora mudaram para um novo, significa que alguma coisa no esquema anterior não deu certo, por algum imprevisto ou intervenção de alguém. Logo, mais gente sabe do passado dessa história, e tenho certeza que bons repórteres do ramo têm alguma coisa na gaveta.
– Sim, mas por que esses mesmos bons repórteres não divulgaram nada até agora? E por que você acha que o Luís vai colaborar com dois moleques enxeridos?
– O Luís é muito bem relacionado, tem faro para esses tipos de investigações. Ele deve saber alguma coisa, vai por mim. E vai adorar também ter novos dados a respeito. Jornalista ama furo, e somos a melhor fonte de informação disponível no mercado. Pelo menos, por enquanto. Vai ser uma troca de favores…
– Nossa, como está difícil entender você… – reclamou Vítor, irritado com a qualidade ruim do telefonema. – É, na falta de outras opções, acho que o caminho é esse mesmo, você me convenceu… Quando, então?
– Vem pra casa amanhã de manhã. Saímos daqui. Vou marcar com ele, acho que vou fazer isso por e-mail, com o telefone desse jeito, é possível que ele não entenda nada, pode até confundir isso com um trote.
– Beleza, oito horas em ponto eu vou estar tocando o seu interfone. Não vá perder a hora!
Quinta-feira, nove e quinze da manhã
Luís encarava os dois jovens com um olhar curioso, de quem realmente duvidava que poderia conseguir de qualquer um deles alguma informação verdadeiramente interessante.
– Bem, vamos direto ao ponto então. O que pode ser tão atrativo assim para mim?
– Você tem ciência de alguma tentativa de fraudar resultados de jogos de futebol? – a pergunta, direta, ao estilo de Vítor, intimidou Luís. O jornalista fechou a expressão, denunciando o seu conhecimento do caso. Ou pelo menos, alguma ciência.
– Vocês querem dizer… – ele tentou rodear.
– Sabotagem mesmo, manipulação, fabricação de resultados – Fabiano deu nome aos bois. Já haviam conseguido arrancar uma autêntica confissão só pela fisionomia de Luís. O jornalista percebeu que havia se entregado involuntariamente. Fechou a porta do seu escritório rapidamente.
– Falem baixo, esse assunto é sigiloso – ele abaixou o tom de voz, e aproximou-se da dupla. – Como suspeitaram disso?
Fabiano e Vítor relataram, em frases rápidas, o diálogo a quatro vozes do dia anterior. Ao fim da narração, Luís apoiou-se na mesa com a cabeça sobre as mãos, numa expressão de preocupação. Tinha o olhar vago, distante, como se medisse cada palavra antes de falar.
– Prometem que isso não sairá dessa sala? Pelo menos por enquanto?
Os dois assentiram na mesma hora, Fabiano com um olhar de “não falei?” para Vítor.
– Isso realmente está acontecendo… – ele confirmou, ainda pensativo. – Ou pelo menos, estava. Eu, particularmente, nunca pensei que tivessem desistido, mas como as últimas tentativas ocorreram há meses, muitos que têm alguma ciência disso já davam esse caso por encerrado. Mas, depois do parecer de vocês, não dá para concluir algo diferente do que eu imaginava. Esses bandidos continuam na praça, e agora, com um novo tipo de golpe.
– Bem, e o que foram essas tentativas anteriores? – Vítor quis saber, afinal, esse era o real motivo da visita.
– Suborno – resumiu Luís, sem pudor algum. – Mas, não de qualquer tipo. Nem a qualquer pessoa. Entendam: tem muito dinheiro nessa jogada. E muita gente interessada em pôr a mão nele. O problema é que estavam envolvendo gente diretamente relacionada a esse dinheiro. Administradores de toda essa bufunfa.
– Ora, e quem são esses? – Fabiano estava tão impaciente quanto o amigo.
– Dirigentes. Dos próprios clubes da primeira divisão. Não todos, claro, mas muitos. Muita gente aderiu ao esquema. E tem mandatários das federações também. Mas, quanto mais gente envolvida, mais chance de tudo dar errado. Trabalhar em algo ilícito com pessoas, sobretudo corruptas, é um risco incalculável, pois gente sem caráter costuma ser bastante volúvel. E, logicamente, os honestos podem ter sabido do esquema e mexido os seus pauzinhos. Assim, os organizadores da tramóia recuaram.
– Se você sabe de tudo isso, por que não pôs nada no jornal? – pressionou Vítor.
– Eu sei? Eu não sei, eu deduzo. Você vê ou viu algum documento a respeito? Não há nada oficial. E, ao que parece, a movimentação do dinheiro não aconteceu, ou foi incipiente.
Um breve instante de silêncio. Três cérebros raciocinavam em velocidade máxima de processamento neural.
– Vocês trouxeram uma nova vertente do caso. E, ao mesmo tempo, deixaram tudo mais vago. Eles detectaram o problema: pessoas. Agora, vão agir sem elas. Como?
– Você não tem nenhuma idéia? – Fabiano tentava espremer o seu conhecido influente ao máximo.
– Nem imagino. Lógico, essa história é um furo jornalístico da vida de qualquer repórter. Vou matutar sempre que possível a respeito. Mas, no momento, não tenho idéia do que possa ser. O jeito é esperarem agir uma vez para averiguar alguma coisa de incomum em algum dos jogos, ou em muitos deles. A não ser que algum fato novo surja antes disso.
– Entendo… – Vítor ainda tinha mais dúvidas. – Vem cá, que dinheiro é esse que tanto cobiçam?
– A maior grana do mundo do futebol atual: as cotas de televisão – as bocas dos dois jovens abriram de assombro. – Vocês não têm idéia do tamanho das cifras. E tem muitos olhos em cima delas. Confesso que desconfiar dos dirigentes, que têm contato direto com esse montante, é até meio absurdo. Inúmeros profissionais, como eu, especularam que talvez, esse envolvimento dos cartolas fosse involuntário. Mas, que houve, com certeza houve, pois não há como desviar ilicitamente tanta grana sem a participação direta de quem mexe com ela.
– Bem, por esse raciocínio, a gente poderia desconfiar inclusive das próprias emissoras de televisão – Fabiano pinçou um novo ângulo da questão. – Afinal, esse silêncio acerca de um caso tão bombástico não pode ser fruto somente de ética e compromisso jornalístico. Não é o que a gente vê por aí nos jornais e canais da vida. Por muito menos, e com muito menos, já publicaram escândalos hediondos…
– Sim, concordo, também cogitei essa hipótese… Embora, por muito menos, como você falou, veicularam, em grande parte dos casos, imensas mentiras. Poucos desses escândalos eram reais. Mas, a desconfiança sobre os canais de TV é uma teoria que poucos admitiram, exatamente porque vários honestos trabalham para empresas de comunicação duvidosas. Compreendem o que eu quero dizer?
– Sem dúvida – confirmou Vítor. – Rabo preso. Denunciar a própria empresa que trabalha… É um risco sem tamanho…
– E não é só isso… represálias, estagnação profissional, o perigo de investigar essas falcatruas dentro do próprio local de trabalho, a conivência de colegas que, eventualmente, façam parte do esquema…
– Nossa, mas com tanta gente e áreas envolvidas, é praticamente impossível eleger um cabeça, ou um grupo de cabeças desse esquema! – concluiu Fabiano, resignado, afundando-se na poltrona.
– Exatamente. Percebem o grau de dificuldade da coisa? Os figurões podem ser da imprensa, do futebol ou pessoas totalmente de fora, mas com conhecimento desse círculo.
Quinta-feira, dezenove e vinte e cinco
Os dois amigos mal conseguiram concentrar-se nas tarefas acadêmicas da modorrenta tarde enfrentada na faculdade. Afobados, rumaram direto à casa de Vítor, e trancafiaram-se no quarto. Precisavam digerir aquele turbilhão de dados e suposições despejadas durante o diálogo com o jornalista Luís.
– Bem, ele deu a palavra dele de que repassará o que conseguir para nós… – Fabiano usava esse trunfo como um alento, pois em troca de informações imprecisas, acabaram recebendo outras ainda mais vagas e intrigantes.
– Desde que só nos reportemos a ele, garantindo exclusividade da história para ele quando, ou se, tudo terminar… – recordou Vítor. Os dois sabiam que, com tal promessa, restringiam o seu campo de busca drasticamente. Não poderiam recorrer a qualquer outra fonte. Leia-se, a nenhum outro jornalista.
Nisso, o telefone tocou. Vítor atendeu depressa, imaginando ser alguma novidade por parte de Luís. Decepcionou-se na primeira palavra captada:
– Aqui é do serviço telefônico, estou entrando em contato para confirmar uma anomalia no serviço – uma voz nasalada feminina, mas num timbre esquisito, até um tanto masculinizado, solicitava a confirmação. Vítor forneceu-a num monossílabo enfadonho. – Vou precisar de alguns dados do senhor e do assinante da linha para prosseguir com a solicitação de reparo – a desagradável voz, em tom monótono, pedia mais tempo de atenção. Impaciente, mas até certo ponto satisfeito, Vítor continuava com o fone no ouvido, o que lhe pouparia horas de aborrecimentos ao telefone para restabelecer o serviço, que continuava com qualidade sofrível, abarrotada de chiados e ruídos indistinguíveis.
– Filho, um amigo do Fabiano está aqui… – uma voz gritou da parte de baixo da casa.
– Quem é, dona Áurea? – indagou Fabiano, estranhando que uma visita sua fosse procurá-lo na casa de outra pessoa.
– Ele se chama Luís – foi como uma senha para despertarem ambos.
– Manda ele subir! – os dois gritaram juntos, esbaforidos.
– Qual o nome do titular da linha? – a mulher do outro lado da linha interrompeu a euforia momentânea dos amigos. Distraído, Vítor não conseguiu entender, e pediu a repetição da pergunta. A mulher, aparentemente calma, refez sua indagação, enquanto Luís entrava no quarto com expressão carregada.
– É alguma coisa sobre aquilo? – ele já chegou perguntando.
– Não, a companhia telefônica ligou pra resolver o problema de linha cruzada… – explicou Fabiano, inocentemente.
– A companhia telefônica ligou? – a indagação de Luís saiu com um impensável tom de estranhamento. – Vítor, a sua mãe fez alguma solicitação de reparo na linha?
– Oi, espera, só um minutinho – ele tapou o fone e ouviu novamente a questão de Luís. Vítor ignorava a resposta correta, estivera fora desde a manhã. E aconteceu quando ele foi questioná-la sobre tal feito, e a sua mãe, a dona Áurea, negou veementemente:
– Eu nem sabia que esse telefone estava com defeito!
– Em quais telefones as linhas se cruzaram ontem? – Luís maquiava uma fisionomia cada vez mais aterrorizada no seu rosto.
– Nesse e no da minha casa – respondeu Fabiano.
– E por quais linhas combinaram de me procurar? – incrédulo, Luís prosseguia, a mulher da companhia telefônica pendurada do outro lado, com o fone de Vítor amordaçado pela sua mão.
– As mesmas! – Fabiano não entendia aquele desespero crescente no jornalista.
– Seus malucos, linha cruza para os dois lados! Desliguem isso imediatamente, o quanto vocês já não devem ter informado os bandidos! – Vítor assustou-se com o tom de voz de Luís, mas decidiu não contrariá-lo, pôs o fone imediatamente no gancho.
– Nenhuma companhia telefônica no Brasil liga para resolver um problema que ela mesmo não foi capaz de evitar. Não sem solicitação prévia. A linha continua cruzada, os ruídos que vocês continuam reclamando é um sinal disso. Essa ligação agora…
– Eram eles? – Fabiano foi o primeiro a apreender todo o quadro vislumbrado por Luís. – Testando o mesmo defeito, tentando identificar quem atravessou o caminho deles por acaso?
– Exatamente! – Luís quase gritou. – Podem, inclusive, ter grampeado essa última ligação!
– E eu ia repassando solicitamente todos os meus dados pessoais… – gemeu Vítor, entendendo o temor.
– Vocês estão oficialmente em perigo. Eles podem ter muito pouco de vocês, mas algo eles têm. Agora, o caso virou policial. Eles sabem que alguém mais que não deveria conhecer essa história já está sabendo. E vocês mesmo ouviram: não querem pessoas no caso. Logo…
– Podem fazer qualquer coisa para tirar as pessoas que vierem a aparecer…
– O próximo passo de vocês é a delegacia. Depoimento, boletim de ocorrência!
Domingo, quatro e dez da tarde
Os dias passaram-se lentos até o clássico tão aguardado. Tensos, os dois amigos combinaram algumas medidas de segurança entre eles, e por via das dúvidas, deixaram um delegado da confiança de Luís informado sobre o caso. A cada ligação que atendiam em casa, nos telefones invariavelmente instáveis, disfarçavam suas vozes, mas frequentemente se deparavam com um longo silêncio. E, novidades, muito poucas. Luís havia repercutido as suspeitas com alguns amigos do ramo, e ouviu que se trata de indivíduos com tráfego desenvolto no mundo empresarial. Alguns sugeriram até que teriam envolvimento com grandes crimes mundo afora. Por tudo isso, se antes o jogaço do fim de semana era uma diversão, tornou-se uma obrigação inadiável.
– Foi bom termos comprado numeradas ao invés de arquibancadas – observou Fabiano, ao ver grande parte das cadeiras ao seu lado vazias, silenciosas.
– É verdade, menos barulho, menos gente, e uma visão melhor e mais próxima do gramado – assentiu Vítor. – Muito mais fácil para tentar averiguar alguma anormalidade em campo.
Ambos estavam certos. Apesar do grande apelo do clássico, as bilheterias não faturaram o quanto desejavam, havia vácuos de público por todo o estádio. As numeradas estavam quase desertas. À frente dos jovens, apenas uma outra dupla, de senhores quarentões com trajes um tanto formais, conversando desde que chegaram ao estádio. Pouca atenção davam aos lances da partida, que começara movimentada, mas ainda sem gols. O que não durou muito: o time da casa, motivado, partiu num contra-ataque, o armador do time segurou a bola, não quis ver a penetração do atacante pela esquerda e arriscou da intermediária. A redonda saiu com força do pé do meia, e numa curva improvável, derrubou a coruja da trave e estufou as redes, fazendo a torcida anfitriã explodir.
– Que golaço! Você viu que curva? – espantou-se Fabiano, comemorando.
– Ele nunca mais vai fazer um desses de novo – concordou Vítor. Desnorteado, pelo súbito e inesperado tento, olhou para frente e deparou-se novamente com os dois homens maduros que conversavam efusivamente. Mal pareciam ter dado alguma atenção ao gol de segundos antes. Entretanto, subitamente, aqueles dois tornaram-se para Vítor muito mais interessantes que a boa partida disputada a poucos metros dali.
– Viu só? Tudo resolvido antes, bem longe daqui. E nenhum tipo de questionamento, nenhum estranhamento. Viu como é tudo natural?
– O que foi Vítor, perdeu o juízo? O jogo é no gramado… – Fabiano tentou trazer o amigo a si, mas ele parecia hipnotizado.
– Fabiano, são eles – cochichou o mais baixo que pôde, Vítor. Estavam numa área em que, dado o momento do jogo, poderiam ouvir até uma mosca voando, tal era a quietude das numeradas naquela tarde. – As vozes, são as mesmas vozes! – Fabiano sentiu uma espécie de choque elétrico tomando o seu corpo. Concentrou-se na visão de Vítor e mudou a direção do seu foco, mirando-o nos dois senhores que tagarelavam tranquilamente.
– Logicamente, é só um teste, para ver se eles ficam satisfeitos. Nessa rodada, só escolhemos esse jogo, apenas como uma amostra, apenas para saberem qual das partidas ganhará a nossa marca.
– Entendo… e, naturalmente, por ser um clássico, tem muito mais mídia acompanhando… – foram interrompidos por um rápido contra-ataque dos visitantes, que empataram após um cruzamento e uma bela cabeçada certeira no ângulo. O novo golaço não passou despercebido pelo segundo interlocutor. – Esse daí também foi…
– Teoricamente, não! – refutou categoricamente o mais inteirado da farsa desconhecida. – Mas, você vê a graça da coisa? Nem mesmo nós sabemos o que é ou não enfeitado…
– Mas, como podem ser tão cínicos? – revoltou-se Vítor, em decibéis um pouco mais perigosos.
– Calma, não vamos jogar fora uma chance dessas, ainda mais quando nada indicava que algo assim apareceria – ponderou Fabiano, aos sussurros. E, num misto de atenção à empolgante partida – finalizada num inesperado 4 a 4 e vários gols de placa – e aos dois que trocavam idéias soturnas como se estivessem falando de mulheres num quiosque à beira mar, mal viram os noventa minutos de partida esgotarem-se. A decisão dos dois amigos foi unânime:
– Vou pegar o carro, vamos atrás deles – Fabiano, adotando um pouco do imediatismo de Vítor, decidiu intempestivamente. Com um aceno de cabeça, Vítor assentiu, agradando em cheio ao que ele mesmo proporia a seguir.
No meio da multidão que deixava o estádio, era praticamente impossível suspeitar de perseguição. Com os olhos, Vítor marcou o lugar onde os dois homens supostamente distintos retiravam o seu carro, e Fabiano, ineditamente afoito ao volante, encostou para recolher Vítor.
– Acabaram de sair, siga pela rua à esquerda – indicou ele um carro sem placas, reluzente, aparentando ter saído naquele momento da concessionária.
Rodaram por cerca de uma hora, atravessando a cidade. Exploravam um bairro afastado, periférico, de aspecto cinzento e mal planejado. Mantinham uma distância razoável do veículo-presa, por razões óbvias. Aumentar o risco que já corriam não era a intenção de nenhum dos dois. Por fim, cessaram o movimento quando os dois suspeitos pararam o carro e adentraram um terreno de aspecto baldio, onde havia uma construção grande e térrea de madeira, ao fundo. Quando entraram, Vítor e Fabiano decidiram, sem trocar uma palavra sequer, fazer o mesmo. Contornaram o terreno pelos lados, longe das parcas janelas da escura e mal cuidada habitação, e chegaram aos fundos. Combinaram entrar somente se ambos deixassem o local. De fora, não conseguiam ouvir nem ver nada que ocorria dentro. Logo, não sabiam se haveria alguém por lá esperando pelos dois facínoras.
Dez minutos depois, os dois viram-nos deixando o local a passos rápidos, aparentemente satisfeitos. Notaram quando deram partida no novíssimo veículo deles e sumiram da vista.
– Vamos – comandou Vítor, invadindo primeiro o local. Lá dentro, o fedor de mofo e água parada envelhecida chegava primeiro. Movendo-se com cuidado, temendo haver mais gente por ali, esgueiravam-se pelas paredes dos aposentos vazios do barracão de madeira. Depois de explorarem todo o ambiente, soltaram o ar preso dos pulmões e se admitiram sozinhos no recinto.
– Veja, uma escrivaninha – de fato, um móvel destacava-se de tudo, pois estava abarrotado de papéis e objetos. E, para todos os efeitos, aquele era o único móvel visível por ali.
– Tem umas fotos – Fabiano mirou um retrato com dois homens posando num campo de futebol, com uma bola brilhante e estreante nas mãos.
– Curioso, já vi esse rosto antes… – Vítor tentava puxar pela memória.
– Um deles é o cara do volante, com certeza – concluiu Fabiano, Vítor também acatou.
– Essa bola é aquela da propaganda nova da marca V… – observou Vítor. – Nossa, ela nem foi lançada ainda no mercado, como podem ter posado com uma dessas?
– Não estamos lidando com um ladrãozinho qualquer de fundo de quintal, cara… – Fabiano abrira uma gaveta e soltou uma exclamação gutural. – Olha só isso, um mundo de chips, artigos de informática…
– Será contrabando? – Vítor começou a imaginar uma série de novas implicações com a descoberta. – O que será tudo isso, onde essas coisas se encaixam nesse esquema?
Fabiano especularia algo, mas sentiu o seu celular vibrar. Luís, agitado do outro lado da linha, exigia a presença dele na sua casa.
– Algo aconteceu, e deve ser sério. Eu vou, mas…
– Eu fico, não vamos ter outra chance dessas de novo – Vítor voluntariou-se, e separou-se do amigo, que seguiu para o carro e desapareceu. Vítor resolveu recolher tudo que encontrava, ou pelo menos, uma amostra de cada coisa. Decidiu ficar com a foto também. Na gaveta seguinte, algo que o deixou ainda mais intrigado: desenhos técnicos.
– Eu já vou para lá, é que esqueci os dispositivos – uma voz rapidamente aproximava-se do local. Um princípio de pânico cresceu no interior de Vítor, mas domando-o a pulso, conseguiu mover-se e escondeu-se numa fenda escura entre uma estante abandonada e capenga e a parede, ao fundo da ampla sala, à direita da escrivaninha. O homem, um dos dois espectadores do jogo, voltara, provavelmente para pegar alguma coisa que deixou para trás.
– “E se o que ele quer estiver comigo, nos meus bolsos?” – pensava Vítor, apreensivo.
E, para piorar, quis o destino fazer o seu celular tocar naquele instante. O som atraiu imediatamente os olhares do dono da casa.
Domingo, dezoito horas
Excedendo todos os limites de velocidade possíveis para o caminho de volta à sua casa, o que não era do seu feitio, Fabiano estacionou o seu carro fora da garagem e entrou aos solavancos em seu domicílio, onde a sua mãe, com expressão aflita, o aguardava junto a um Luís exasperado. Ele já foi despejando as más novas:
– Recebi um e-mail – começou de forma sucinta.
– Que beleza, mais informações pra gente? De quem é?
– Dos bandidos – ele, impertubável, revelou. Fabiano baqueou.
– Como podem saber que… que você…
– Não sabem – prosseguia no tom lacônico. – Mandaram para todos os jornalistas de nome Luís da área esportiva. Para minha sorte, esse é um nome bastante recorrente na crônica esportiva. Mas, isso não é tudo – ele apontou a mãe de Fabiano, pálida, tensa.
– O que foi mãe? – trêmula, ela estendeu uma carta, ainda num envelope branco, imaculado, sem um traço de outra cor. O papel grosso, recheio do envelope, continha uma mensagem fabricada com palavras recortadas de revistas. Fabiano passou rapidamente os olhos por ela: “Se vocês são pais, cuidem melhor do que os seus filhos estão fazendo na rua, pois podem estar envolvidos com o quê ou quem não devem. Se vocês são filhos, entrem na linha dos seus pais, se não quiserem pagar com a moeda corrente do mundo aqui de fora”.
– Uma ameaça bastante poética, não? – Luís não escondia uma ironia em sua voz zangada. – E, não é tudo, o bairro inteiro recebeu uma correspondência com esses mesmos dizeres amorosos. Já confirmei com a mãe de Vítor.
– E, naturalmente, você contou tudo à minha mãe e à dele – adivinhou Fabiano, obtendo um movimento afirmativo de cabeça do jornalista.
– Afinal, imaginei que nenhum de vocês dois deram ciência a elas.
– Isso não é importante… Realmente, a culpa de tudo isso é nossa… agimos como amadores, quisemos bancar os detetives, mas na primeira jogada, fizemos tudo errado…
– Pois é – concordou Luís. – Em alguma das ligações que vocês fizeram, onde puseram os criminosos a par de suas suspeitas, eles provavelmente conseguiram o prefixo da casa de vocês, por meio de grampo. Daí, soltaram as cartas para todos que conseguiram encontrar com a mesma combinação numérica de telefone.
– E sobre o e-mail… eles devem ter ouvido o seu nome naquela confusão da companhia telefônica na casa do Vítor… – deduziu corretamente Fabiano, arrancando nova confirmação positiva de Luís.
– Venha ver a catástrofe por completo – requereu o jornalista, exibindo o seu correio eletrônico. A mensagem, totalmente desprovida de dados de identificação, girava na mesma linha da ameaça filosófica e velada que o bairro conhecera: “Seja o jornalista verdadeiro, que trabalha com as letras, e não o que se mete a fazer papel de policial, porque a mesma arma que um tira tem, nós temos também”. Fabiano desabou no sofá da sala, mãos no rosto. Tudo descambava, irremediavelmente.
– E então, céus, o que mais pode dar errado? – reclamou em voz alta Fabiano, irritado com os seus erros, com o destino que as coisas tomaram, e com o fato de Vinícius poder estar em perigo, sozinho no esconderijo dos bandidos.
A televisão encarregou-se de responder à queixa do jovem:
– Três dos quatro times mais bem classificados do campeonato nacional confirmaram que não têm recursos suficientes para pagar os salários dos jogadores nesse mês. Estão confirmados, assim, os atrasos de pagamento que os atletas já anunciaram havia uma semana.
– Mas, como isso é possível? Eles ganham rios de dinheiro só com a grana da TV! Ainda mais nesse mês, com tanta exposição que tiveram, por estarem na ponta de cima da tabela…
– Ora Fabiano, você não percebe? É o esquema funcionando, é o novo método em campo! Isso está acontecendo, mas diferente do que achávamos, a coisa não está no início não, está a pleno vapor e já está gerando frutos!



