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No calor do Qatar

No ensolarado Oriente Médio, o treinador brasileiro Luis Antônio Zaluar luta para preparar o Mesaimeer, que pela primeira vez, jogará a Qatari League, a principal divisão no futebol do Qatar. Com quase 10 anos de vida, o pequeno clube de Doha tem um bom modelo de gestão administrativa e é apontado como um dos clubes mais prolíficos no contexto nacional para os próximos anos.

O treinador carioca (foto ao lado) admite cautela e que o desafio de assumir uma equipe que está em transição do semi-amadorismo para o profissionalismo não é um processo rápido, e elogia a estrutura e os materiais que a direção do clube qatari disponibiliza para realizar o seu trabalho – junto dele estão o preparador físico Fábio Lefundes, o auxiliar técnico Jairo Cunha, e o preparador de goleiros Fábio Verta – compondo a comissão técnica toda verde e amarela.

Um dos principais empecilhos continua sendo o sol escaldante, que obriga a preparação da equipe ser efetuada à noite, sendo que os futebolistas são obrigados a fazer seções de musculação dentro de uma sala com três aparelhos de ar-condicionado ligados!
Para Zaluar, o Ramadã, neste mês de setembro, não atrapalhará em nada a preparação do clube da capital.

Confira outros detalhes de como foi este contato nas linhas abaixo!

Em quase 10 anos de existência, esta será a primeira vez que o Mesaimeer jogará a primeira divisão do Qatar. Como você está encarando esse desafio?
Por ser um clube novo o Mesaimer é um time pequeno, ainda semi-amador, mas que tem uma administração correta, nunca atrasou um mês de salários até hoje, e tem bons jogadores locais, ou seja, tem as condições básicas para se tornar um clube de maior porte. Mas precisa mudar sua filosofia de trabalho e organização, se tornando assim mais profissional, e este é o nosso primeiro desafio. Com trabalho, e essa conscientização implantada, acreditamos que os resultados virão.

Os dirigentes te pediram apenas para manter a equipe na divisão principal, ou querem pelo menos o 5º lugar entre os 10 clubes que compõem a divisão principal do Qatar?
A contratação de treinador brasileiro sempre gera espectativa grande, por isso é evidente que todos esperam resultados, mas tem também a consciência de que não se transforma um clube amador em profissional em alguns meses. De qualquer modo devemos acreditar sempre em nossa capacidade. No Americano fomos taxados de candidatos ao rebaixamento antes do campeonato começar em 2002, e acabamos vice-campeões cariocas naquele ano.

Nos últimos anos Al Sadd e Al Gharafa mostraram estar muito a frente das outras equipes, o que reflete numa diferença absurda em relação aos outros 8 clubes na tabela de classificação. O desnível é muito grande na Qatari League. Quando enfrentar essas equipes, você já sabe o que fazer para contê-los? O que vai dizer para seus jogadores?
Como em qualquer outro país, inclusive no Brasil, existem clubes com capacidade maior de investimento e por isso tem um nível técnico melhor, com jogadores de grande qualidade. Os clubes que tem seus ‘Sheiks’ tem muita vantagem, pois além do aspecto financeiro das contratações, este é um país de monarquia e comitê olímpico (orgão que controla tudo no futebol do Qatar) e é dirigido por eles.

Em termos de estrutura, o Mesaimeer é superior aos clubes brasileiros da Série B?
Em termos de material de trabalho, sim. Tem um campo bom de treino e material a vontade, mas ainda faltam outros campos, estádio, concentração. Mas tudo isso deve ser construido até o ano que vem. Esta surgindo um novo grande clube aqui e paga em dia (se referindo ao Mesaimeer). Gostaria muito de ter isso num clube no Brasil.

Você indicou algum reforço?
Chegaram Alex, volante do Campinense, da Paraíba, e Marcelo Lemos, centroavante do Paysandu, de Belém. Indicações minhas e que trabalharam comigo nesses últimos dois anos.

Pelo que tem observado do nível técnico e físico dos jogadores do Mesaimeer. Em qual divisão eles teriam espaço para jogar no futebol brasileiro?
É difícil traçar um comparativo em termos técnicos com o Brasil. Mas para o futebol do Qatar o Mesaimeer esta dentro do normal e tem bons valores. Acho que alguns jogadores jogariam uma serie B ou C no Brasil, dependendo do time.

Recentemente falamos com o meia Camacho, que jogou no Al Arabi nesta temporada 2006/7. Ele afirmou que os clubes do Qatar não sabem o que é planejamento e são pouco profissionais. As referências que você teve sobre o futebol do Qatar, antes de chegar, também foram ruins? Ainda assim, é melhor que trabalhar no Brasil?
Realmente em muitos clubes a profissionalização só chegou há alguns anos, em outros nem chegou ainda. Mas de que adianta a profissionalização do Brasil se a maioria nao consegue sequer receber seus salários? Aqui agente é profissional e recebe em dia..

O técnico Zé Mário, que trabalha no Al Wasl, dos Emirados Árabes afirmou para nós que os jogadores árabes treinam muito pouco, alguns só começam a treinar sério quando chegam aos profissionais e esse é um dos problemas na evolução do futebol na região, porque ai eles já perderam um processo importante na base. Porquê, depois de décadas contratando treinadores estrangeiros, esse problema persiste?
Ainda persiste sim. A conscientização profissional demora a ser implantada. O futebol aqui era amador á pouco tempo. Por não serem totalmente profissionais eles não dão a importância que deveriam aos treinos. Com o contato com profissionais estrangeiros isso vai mudando.
Conseguimos pela primeira vez aqui na historia do Mesaimeer que os jogadores viessem treinar de manhã na musculação, mas é uma luta diária. A noite a presenca é quase total, também devido ao fato de nossa presença, mas não era assim..

A categoria de base ainda é discriminada e marginalizada nos países do golfo? Conte-nos como é a situação aí no Qatar.
Aqui no Qatar todos os 16 clubes profissionais têm, além da divisão de base, um segundo time que joga um dia depois do primeiro (o antigo aspirante no Brasil) e pode usar jogadores que atuaram até 45 minutos no jogo principal. Além disso, a seleção do Qatar tem um centro de treinamento com escola e universidades para treinamentos de jovens promissores que funciona o ano inteiro (eles moram e estudam lá). O comitê também exige de todos os profissionais que atuam em suas divisões diplomas e certificados. Pela primeira vez, em 23 anos de futebol profissional, mostrei meus diplomas de Licenciatura em Educacao Fisica, Pós-graduação em Futebol e Especializacao pela FIFA. No Brasil nunca. Isso faz com que o nivel dos profissionais melhore e o trabalho também.

Os principais países do Golfo, especialmente a Arábia Saudita, possuem estrutura considerável e talento. Então podemos definir que a mentalidade dos dirigentes é definitivamente o grande entrave no progresso do futebol na região?
Realmente dirigente de futebol, não só no mundo árabe, às vezes atrapalha muito. Até no Brasil, que somos pentacampeões do mundo mais pela quantidade e qualidade de jogadores que temos que por organização de dirigentes. Aqui no Qatar já podemos observar algumas mudanças no que diz respeito a qualidade das contratações de profissionais e nos investimentos feitos no esporte. Estão investindo, se qualificando mais, mas estão muitos anos atrás da maioria dos paises que tem tradição no futebol mundial.

Você teve oportunidade de trabalhar no Oriente Médio nos anos 80, 90 e está retornando agora. Em que ponto você acha que o futebol árabe evoluiu durante esse tempo?
Mudou muito sim, aqui então nem se fala. Nas primeiras vezes que tive por aqui os campos eram de grama sintética e os jogadores totalmente amadores. Agora os estádios, campos de treinamento, e materiais são de primeiro mundo e a mentalidade começa a ser mudada. Ainda falta muito, mas posso te dizer que mudou ‘da água pro vinho’ sem dúvida nenhuma.

O treinamento num sol de quase 45 graus é desumano. Como você faz para trabalhar com os jogadores nessas condições climáticas, que são comuns na região nesta época?
Realmente o calor aqui de dia, no verão, é uma coisa inimaginavel para nós. É impossível treinar. Por isso, nessa época treinamos somente à noite, com temperaturas mais baixas. De manhã os jogadores treinam dentro da sala de
musculação com três aparelhos de ar condicionado ligados.

O Ramadã, sendo no próximo mês, vai acarretar algumas mudanças na preparação e estará no inicio do campeonato. Isso vai atrapalhar muito? Como é a dieta dos jogadores neste período?
Na verdade a vida transcorre normalmente, o que se faz é jejuar durante o dia, com isso se troca literalmente o dia pela noite. Não se treina de dia, as atividades começam lá pelas 9 ou 10 da noite porque eles começam a comer e beber somente às 6 da tarde, após o pôr-do-sol, e depois só vão dormir quase de manhã. Com isso, só se acorda no final da tarde e assim se dorme quase o dia todo e se vive á noite. Para os atletas é uma boa oportunidade para aqueles que estão acima do peso para ficar em forma.

Como repercutiu, no Oriente Médio, a conquista do Iraque na Copa da Ásia? Você já tinha ouvido falar do Jorvan Vieira, técnico brasileiro do time iraquiano e que agora vai assumir o Al Sadd, clube mais poderoso daí do Qatar?
Sempre que uma seleção vai bem ou algum brasileiro se destaca, sendo jogadores ou treinadores, as contratações e valorizações de brasileiros aumentam muito. Não esta sendo diferente agora e espero que continue assim. Para nós, sempre é bom ver brasileiros se destacando no cenário mundial.

FICHA:

Nome: Luis Antônio Zaluar Mattos de Souza.
Local de Nascimento: Rio de Janeiro-RJ.

Clubes:
1984: Botafogo
1985: Botafogo
1986: Londrina
1987: Londrina
1987: Al Wahda (Arábia Saudita)
1988: Al Wahda
1989: Americano
1990: Vitória
1991: Seleção Brasileira feminina
1991: São José
1992/3: Al Najma (Líbia)
1993/4: Nacional (Portugal)
1994: Fluminense
1995: Al Ahli (Arábia Saudita)
1996: Americano
1997: Botafogo
1998: Araçatuba
1999: Barreira
1999: Araçatuba
2000: Araçatuba
2000: Al Ansar (Arábia Saudita)
2000: Rio Preto
2000: Serrano
2001: Fortaleza
2001: Americano
2002: Americano
2003: Joinville
2004: Goytacaz
2005: Paranoá
2005: Serrano
2005: Macaé
2006: Campinense
2007: Paysandu
2007: Mesaimeer (Qatar)

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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