Naybet: marroquino vencedor

A grande área era a sua casa. Por isso, não era tão simples entrar lá. Era, de fato, um líder com cara de brabo. Os atacantes adversários? Esses sofriam com a marcação forte e por vezes exagerada. Tanto que tornou-se comum voltarem para o vestiário com hematomas nas pernas.

De tão rude, chegou a brigar algumas vezes com próprios companheiros e treinadores. Mas os torcedores dos clubes que defendeu não ligavam. Importavam-se mesmo com o que este marroquino fazia em campo.

Assim era Noureddine Naybet. E foi assim que ele escreveu seu nome na história do Sporting, de Portugal, e do Deportivo La Coruña, da Espanha. Zagueiro desde as categorias de base, brilhou na Europa por mais de uma década.

Foi a duas Copas do Mundo. Esteve também nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992. Como a seleção do Marrocos nunca teve um time que fosse, pelo menos, um candidato a alguma coisa, sempre ficou pelo caminho, longe do caneco.

Mesmo assim, entrou para a galeria da Confederação Africana de Futebol. Em 2007, a entidade o considerou o 17° melhor jogador do continente desde 1957. A lista é liderada pelo camaronês Roger Milla, enquanto Naybet é o marroquino mais bem colocado.

Portugal – Espanha: rota do sucesso

Para marcar época no Sporting e no Deportivo, Noureddine Naybet precisou comer bastante feijão. Nascido em Casablanca, começou a jogar futebol no time da cidade, o Wydad Casablanca, em 1989, aos 19 anos. Sem categoria para ser um homem de criação, foi deslocado para a defesa.

Poucos treinamentos foram suficientes para comprovar que ele era superior aos demais. Subiu, então, para os profissionais. Foi uma ascensão meteórica e explosiva. Logo de cara, no mesmo ano, campeão do campeonato nacional e da Copa do Marrocos. Para completar, foi convocado para a seleção, de onde só sairia em 2006.

Era o prenúncio do que vinha por aí. Ficou no clube até 1993. Foi embora levando na mala quatro títulos nacionais e outros quatro continentais. O Wydad Casablanca não tinha mais como segurar um jogador daqueles. Naybet pediu para ser vendido. Queria fama e sucesso.

Desembarcou no Nantes, da França. Apesar de titular absoluto na temporada, não causou tanto impacto. O que não o impediu de ir à Copa de 1994.

Enquanto Marrocos despencava nos Estados Unidos, no outro lado do Atlântico, o Sporting vendia quase meio time. Os diretores do clube olharam e se interessaram por Naybet, 1m82 e então com 24 anos. Resolveram apostar. E fizeram um golaço.

A torcida do Sporting andava revoltada com a saída do zagueiro Stan Valckx para o PSV, da Holanda. Naybet topou o desafio de substituí-lo. Foi quando passou a ser chamado de “Xerife da área”. Marcação muito forte – e pesada – era a receita principal.

Foram só dois anos em Alvalade. 54 jogos e cinco gols. Um título da Taça de Portugal e um da Supertaça. Para evitar problemas nas finanças, o Sporting, outra vez, entrou em rota de colisão com seus torcedores. Negociou Naybet com o Deportivo, em 1996. O valor: irrisórios 1,2 milhão de euros.

O rei de A Coruña

Na Espanha, começou tudo de novo. Não aterrissou com o crachá de “titular absoluto”. Mas a vontade de vencer e a garra com a que jogava e treinava aceleraram o processo. No fim de 1996, era o patrão da defesa do Deportivo.

Com o novo “chefe”, vieram as glórias. O clube atravessou um período dourado ao conquistar um campeonato espanhol, em 2000, uma Copa do Rei, em 2001 e duas Supertaças, em 2000 e em 2002. São as maiores conquistas da história do Deportivo La Coruña.

Antes, havia sido brindado com a convocação para a Copa de 1998. Um ano depois, uma avaliação física poderia ter mudado a história dele e a do Deportivo. O Manchester United o desejava. Chegou a oferecer quase 30 milhões de euros.

Com autorização do clube espanhol,que achou uma boa ideia engordar o cofre, ele foi até a Inglaterra. Estranhamente, foi reprovado nos testes físicos e o United acabou optando por Silvestre para a posição.

Azar dos ingleses. O Real Madrid entrou na parada e também não levou. O zagueiro continuou, então, no Estádio Rizor. Já em 2000, o Deportivo agradecia por os médicos do Manchester terem errado.

Naybet x Irureta

O Deportivo foi a casa de Naybet por oito anos. Saiu de lá em 2004. Apesar das taças que ajudou a pôr no armário, colecionou inimigos. Um deles foi o senhor Javier Irureta, o técnico do time no chamado período de ouro.

Bom jogador, disciplinado taticamente e um horror para os adversários. Até aí perfeito para qualquer treinador. O problema era que o marroquino tinha pavio curto e era mal humorado. Às vezes, se dava ao luxo de não treinar como os demais porque simplesmente não queria.

Num desses simples treinos, em 2000, Irureta ensaiava cobranças de falta. Ao mesmo tempo, testava o ataque e a defesa nas bolas aéreas. Em um cruzamento, Naybet cortou a bola com o calcanhar. Imediatamente, o técnico o recriminou na frente de todos e pediu que jogasse sério. O zagueiro ficou calado.

No cruzamento seguinte, por gosto, Naybet chutou de canela a bola, destruindo o contra-ataque. Irureta explodiu. Os dois só não foram para as agressões físicas porque foram impedidos. Mas palavrões e ofensas não faltaram.

Herói em desvalorização

Depois dos títulos, o cofre do Deportivo foi se esvaziando. E o mesmo Naybet, que em 1999 valia 30 milhões de euros, foi vendido para o Tottenham por apenas um milhão. Em Londres, não foi bem e acabou dispensado em maio de 2006.

Decidiu que era hora de parar, aos 36 anos. Em 2007 voltou a seleção do Marrcos, cuja camisa defendeu por 17 anos, em 115 jogos. Assumiu como auxiliar-técnico de Henri Michel, demitido em 2008 após a eliminação na Copa das Nações Africanas. Naybet também saiu.

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Equipe Trivela

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