Mourinho e a mídia
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A edição de junho da revista Trivela traz uma matéria intitulada “Piacere, José Mourinho”, contando sobre as maiores polêmicas criadas pelo treinador português em sua primeira temporada na Internazionale. Mourinho é, inegavelmente, alguém que conhece o funcionamento da mídia e sabe usar esse conhecimento a seu favor. Sabe o que dizer, quando dizer e a quem dizer.
Logo depois de levar a Inter ao 'scudetto', ele concedeu uma entrevista à revista portuguesa “Espiral do Tempo” que merece ser lida com atenção. Não por acaso, o título da matéria de Miguel Esteves Cardoso é “O homem que sabe jogar com os outros”. Para conferir, basta baixar o arquivo em pdf clicando aqui.
Nela, o “Special One” não se limita a falar da Inter, de sua vida na Itália ou de sua passagem pelo Chelsea. Fala também de seu envolvimento com o futebol desde criança, quando pedia ao pai que lhe assinasse revistas estrangeiras em uma época em que isso não podia ser feito com a facilidade de hoje, e de seu empenho nos estudos para se tornar treinador.
Em uma das partes mais curiosas da entrevista, Mourinho fala sobre como é lidar com um elenco de diferentes nacionalidades, algo que já viveu em Londres e agora vive em Milão.
Segue o trecho:
Quais são os mais difíceis de todos?
Eu acho que o brasileiro é o mais difícil. Para mim, o brasileiro é difícil porque para mim o brasileiro jogador de futebol tradicional é o jogador que vive com a “indisciplina” com que vive a sua própria vida.
Como é que fazem?
Vive a sua profissão com o talento que Deus lhe deu, e que é enorme, e que vive com a indisciplina com que vive a sua própria vida. Por exemplo, há um jogador brasileiro a quem tu dizes “tens que estar aqui às 10 horas, temos reunião às 10. E se tu chegares às 10:05, tu notas na reunião que na sua globalidade está-se a “cagar” que tu não o deixes entrar na reunião ou não. Se tu não o deixares entrar na reunião ele pega no carro e vai todo contente dormir mais um bocado. Ou se acordar às 10:02 e souber que tu não o deixas entrar, se calhar continua a dormir mais um bocado, “Ok, ele vai-se chatear comigo mas eu durmo mais 20 minutinhos”.
E os ingleses?
O inglês chega às 5 para as 10; o italiano ou chega às 10 ou se chegar às 10 e 1 minuto chega a correr e chateado porque chegou às 10 e 1 minuto; o português chega às 10 ou 1 minuto antes das 10…
Ai o português é o que chega mais perto da hora marcada?
É. 1 minuto antes das 10…
E os franceses?
Franceses é difícil. Para mim, o francês chega às 10, mas chega a pensar que não há razão nenhuma para chegar às 10.
Que engraçado, está muito bem visto.
Chega às 10, mas chega a pensar assim: “porque é que este treinador me obriga a chegar às 10 porque é que não poderia ser às 10 e 5”.
É exactamente assim.
O francês tem sempre razão, sempre razão. Mas sempre.
Os russos…
Os russos se tu dizes para chegarem à 10, chegam à 10. É impossível chegar às 9 e 59 ou às 10 e 1 segundo. Eu penso que sim. Eu só tive um jogador, não tive 2. Um no Chelsea e um no Porto, e o jogador russo acho que precisa que tu lhe digas tudo aquilo que… Acho que precisa de ser dirigido.
Se calhar é um bocadinho burro.
Não estou a dizer que é um bocadinho burro, estou a dizer que se calhar cresceu a ser dirigido, a ser teleguiado. Precisa de ser teleguiado.