Montreal Impact: hora de debutar chegou?

Quando se fala da participação da cidade de Montreal no esporte, as duas lembranças predominantes são o GP canadense de Fórmula 1, disputado anualmente no circuito Gilles Villeneuve, ou das Olimpíadas de 1976, lá disputadas. Um clube de futebol, relativamente novo, tenta quebrar essa dicotomia. É o Montreal Impact, que faz bom papel no Grupo 4 da primeira fase da Liga dos Campeões da CONCACAF (é o líder, com sete pontos) e semifinalista dos playoffs da primeira divisão da United Soccer League – na hierarquia do futebol da América do Norte, último estágio antes da Major Soccer League. Mesmo que não haja o sistema de acesso e descenso, cresce o burburinho de que a franquia já está forte o suficiente para seguir os passos do Toronto FC e ir para a MLS. Eventual título canadense seria um passo a mais para confirmar tal status. Feito relevante para um time criado há quinze anos.

Um ano, um título

O Impact foi fundado em 1993, a partir dos escombros do Montreal Supra, time que participava da semi-profissional Canadian Soccer League. E com certo respaldo financeiro, já que os criadores do time eram da família Saputo, dona da maior empresa de laticínios do país. Por sinal, o respaldo continua até hoje: o atual presidente do clube, Joey Saputo, é também o presidente da empresa.

A primeira temporada não foi bem sucedida: com o técnico Eddie Firmani, que tivera experiência nos áureos tempos do New York Cosmos, o time encerrou a APSL (American Professional Soccer League, nome da primeira divisão canadense na época) na lanterna, muito embora tenha engatado, ao fim da temporada, um recorde de sete vitórias consecutivas, não superado desde então na primeira divisão canadense.

1994 não parecia começar de um jeito melhor. Basta dizer que o novo treinador, Valerio Gazzola, só seria contratado a um dia da estréia na APSL. Mas, ao final da primeira fase do torneio, o que se via era o time classificado para os playoffs, na terceira posição. E as fases finais transformariam para sempre a história do clube. Nas semifinais, o time conseguiu superar o Los Angeles Salsa, que terminara em segundo na fase classificatória. A final trouxe grande desafio: o adversário seria ninguém menos do que o Colorado Foxes, o então campeão da APSL. Mas, jogando em casa, no Claude Robillard Stadium, a surpreendente vitória veio pelos pés de Jean Harbor. Com uma falta, o nigeriano radicado nos Estados Unidos marcou o gol da vitória. O apito final foi a senha para boa parte dos 8.169 espectadores invadir o gramado para festejar o primeiro título do Impact no futebol profissional.

Nos anos seguintes, decepções

Para a agora intitulada A-League de 1995, o time tricolor – azul, branco e preto – parecia ainda mais forte. Somavam-se à base campeã jogadores experientes, como o americano Steve Trittschuh, que jogara a Copa de 1990, e até um brasileiro, o xodó botafoguense Paulinho Criciúma. E o bi parecia encaminhado, com o primeiro lugar na fase de qualificação. Mas o sonho acabou com a derrota nas semifinais para o Atlanta Ruckus. 1996 seria a mesma história: uma esquadra forte – incluindo Onandi Lowe, jamaicano que jogaria a Copa de 1998 por seu país -, a ponta da tabela na primeira fase, mas a derrota nas semifinais, para o principal rival, o Rochester Rhinos.

O ano seguinte parecia representar a ampliação do destaque que o Impact conseguia até então, com a criação de um time de futebol indoor (formato semelhante ao showbol). Os resultados começaram bem, com o primeiro lugar na divisão nordeste da Conferência Leste da A-League. Mas logo veio a eliminação no playoff final da divisão, para o Long Island Rough Riders. Começava aí uma fase de tempos difíceis, que a classificação para os playoffs de 1998 não conseguiria mascarar por muito mais tempo.

A crise veio com uma atitude tomada erradamente: em 1999, o time decidiu não participar da A-League, para centrar esforços no time indoor. Mais do que não dar certo, tal decisão criou um mal-estar entre os acionistas do clube. A volta ao campo não ajudou: em 2000, pela primeira vez desde sua fundação, o time ficava fora dos playoffs da A-League. Perderia jogadores históricos para o time, como Mauro Biello e Lloyd Barker. E a briga quase levaria o clube à falência, em 2001.

Ressurreição e novos títulos

Foi nestas trevas que a luz se fez. Praticamente do zero, a família Saputo decidiria dar novo impulso ao clube, recebendo o domínio de volta do Ionian Financial Group e iniciando um processo de reestruturação que contaria com a ajuda do governo do estado de Québec e da estatal de energia Hydro-Québec, além, obviamente, da empresa de laticínios dos Saputo. A reforma traria patrocinadores como o Banco Nacional do Canadá e até a Coca-Cola.

Já em 2002, a reestruturação mostraria-se frutífera. A boa campanha contra os outros canadenses, na primeira fase da Conferência Leste da A-League, renderia o primeiro Voyageurs Cup, troféu dado ao melhor canadense da A-League na primeira fase (por sinal, desde então, o Impact ganhou todas as Voyageurs Cups). Sob o comando do técnico Bob Lilley, o time em si ganharia o reforço do cubano Eduardo Sebrango, um dos artilheiros da temporada – e segundo maior artilheiro da história do Impact -, além de contar com jogadores que passariam pela seleção canadense, como Gabriel Gervais e Sandro Grande. Isso, sem contar a volta do velho ídolo Mauro Biello, maior artilheiro e jogador com mais partidas na história do clube.

E, em 2004, viria o título que faltava para provar a ressureição do clube. Com Nick DeSantis substituindo Bob Lilley como treinador, mas com o mesmo time-base, o time venceria a Conferência Leste, passando por Rochester Rhinos (semifinais) e Syracuse Salty Dogs (final). E, na final geral da A-League, Mauricio Vincello e Fred Commodore converteriam os gols do 2 a 0 que, após dez anos, no mesmo Claude Robillard Stadium, devolveria o título da A-League ao Impact. E viriam mais lauréis, como ter o melhor jogador da temporada (Greg Sutton).

Mesmo que 2005 e 2006 trouxessem reveses semelhantes aos da década de 1990 (primeiro lugar na classificação da Conferência Leste, mas derrotas nas semifinais gerais da agora Primeira Divisão da USL), o cenário foi melhorando, permitindo até que a família Saputo entregasse, em 2008, um estádio novinho para o clube: o Saputo Stadium, construído com o dinheiro da empresa. Joey Saputo, de volta à presidência do clube, iniciou conversas com George Gillett – sim, um dos donos do Liverpool – para tentar dar o salto definitivo rumo à MLS. Quem sabe o Montreal Impact, justo no 15º ano de existência, possa debutar no futebol norte-americano. A não ser que a crise econômica dos EUA o impeça.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo