Mercado 1997

Romário está de volta, jogará no Valencia! Djalminha é o novo reforço do Deportivo La Coruña, que por quase 25 milhões de euros vendeu Rivaldo ao Barcelona. Este, aliás, também apostará em Sonny Anderson como o substituto para Ronaldinho.

Apelidado de Fenômeno, o brasileiro foi o mais badalado negócio entre os clubes europeus. O garoto, campeão na Copa de 94, terá a missão de recolocar a Internazionale no topo. Por fim, Cafu chega à Itália disposto a fazer história com a camisa da Roma.

Pode desistir, o futebol não encontrou uma fonte de juventude para resgatar fisicamente alguns dos seus principais jogadores. Trata-se do mercado de transferências para a temporada 1997/98, falando especificamente de Campeonato Espanhol e Italiano, àquele momento, bem superiores ao futebol inglês, hoje tido como a grande coqueluche do Velho Continente.

A análise é alicerçada sobre uma reportagem da Folha de São Paulo, escrita por Rodrigo Bueno, hoje também na Espn Brasil. Ali, se traça um panorama minucioso sobre as transferências das duas ligas e as expectativas geradas nos clubes. Falaremos as principais curiosidades, coincidências e tudo que se faz relevante neste momento, em que o mercado acaba de se fechar e as primeiras emoções já rolam na Europa.

Itália – “Fenômeno Ronaldo”

A chegada de Ronaldo a Milão foi a principal movimentação do mercado europeu para a temporada 1997/98. Ainda que tenha criado laços firmes com a camisa azul-grená do Barcelona, a primeira passagem do Fenômeno pela Espanha teve apenas um ano. Contudo, foi o suficiente para catalisar sua imagem de super-astro, graças a feitos e gols jamais esquecidos pela torcida catalã.

Ronaldinho, como era chamado pelos brasileiros até então, fez 34 gols em 37 jogos com a camisa do clube, além de vencer a Copa Uefa. Sua chegada à Itália, por € 28 milhões, gerava expectativas de um título que não vinha desde 1989. Para lhe auxiliar, a Internazionale tinha os badalados Zamorano, Zanetti e Djorkaeff, além dos selecionáveis Bergomi, Pagliuca e Moriero. No mercado nerazzurro, ainda foram trazidos os xerifes Zé Elias e Simeone, dois nomes de relação direta com a virilidade e o futebol sério.

Por sua vez, a Juventus, que começava a temporada como atual campeã, precisou fazer poucos reparos em seu fortíssimo elenco, com alguns dos melhores jogadores do mundo: Del Piero, Zidane, Deschamps e Peruzzi eram apenas parte de um timaço gerenciado por Marcelo Lippi. Dos que saíram, só Vieri e Boksic foram relevantes, dentre os principais titulares. Para reforçar seu poder de fogo, a Vecchia Signora foi atrás de Filippo Inzaghi, imaginando um nome que lhe garantisse muitos gols. Pippo, até então, jogava na Atalanta. Outro contratado foi Davids, após um ano ruim com a camisa rossonera.

O Milan havia tido uma temporada bastante abaixo da média, justamente quando Baresi se aposentava – terminando a Serie A 96/97 apenas na 11ª colocação – e foi na Espanha buscar o nome que precisava. Fabio Capello voltou para Milanello, após dar, em sua primeira experiência internacional, o título espanhol ao Real Madrid. A surpresa ficou por conta da saída de Roberto Baggio, após uma curta e mau sucedida passagem pelo clube rossonero.

O elenco, porém, ainda tinha espinha dorsal qualificada. Nomes como Boban, Maldini, Costacurta, Savicevic, Albertini, Rossi e Desailly recheavam um onze titular onde o principal astro era o liberiano George Weah. Do futebol francês, veio o irreverente Ibrahim Ba, nome muito bem cotado. E da Holanda, chegou Patrick Kluivert, tido como uma jóia da base do Ajax, onde já havia sido campeão europeu. Outros dois brasileiros, André Cruz e Leonardo, fechavam o mercado milanista.

– Médios notáveis

Este período, um dos mais fortes da história do Campeonato Italiano, também era marcado pela força de clubes médios com considerável aporte financeiro. Assim, equipes como Roma, e até Lazio, Fiorentina e Parma, se opunham ao tradicional trio do norte. Na temporada 97/98, particularmente, a Udinese foi outro clube a conseguir sucesso.

Na Roma, quem começava a ganhar destaque era um garoto vindo do vivaio romanista, um tal Francesco Totti, que herdou a camisa 10 do uruguaio Fonseca. Cafu, Vágner e Paulo Sérgio haviam sido, ao lado do sueco Dahlin, as principais contratações dos giallorossi. O elenco ainda tinha o respaldo de Aldair, Di Francesco e Balbo, três nomes relevantes àquele momento.

A Lazio, já com o aporte financeiro que anos depois lhe deixaria na mão, trouxe o habilidoso Roberto Mancini para seu ataque, onde também jogaria o croata Boksic, de volta após rápida e positiva passagem pela Juventus. Para o clube celeste também chegava o iugoslavo Jugovic, nome de fibra que qualquer meio-campo necessita. Na defesa, o garoto Alessandro Nesta já era um líder.

O Parma, que começava a temporada como vice-campeão e disputaria a Liga dos Campeões, era outro time médio que metia medo em todos os grandes. Era o período de auge da Parmalat, mas algo parecia sintomático: a pouca ambição do clube no mercado.

Chegaram apenas Maniero, Giunti, Franceschini, Minotti e Milanese. A desconfiança se explica quando lembramos que anos antes o clube já havia tido Asprilla, Brolin e Stoichkov. Contudo, o trio Buffon-Cannavaro-Thuram já era uma referência, assim como o argentino Crespo.

Quem também tinha um timaço era a Fiorentina. Nomes valorizados como Toldo, Batistuta, Rui Costa e Oliveira, compunham uma sólida base, reforçada com a chegada de Edmundo, no meio da temporada. Após um Brasileiro-97 formidável com o Vasco, o Animal chegou decidindo jogos e fazendo da Viola uma grande atração, mas que se solidificaria apenas na época seguinte, tendo liderado a competição.

– Desenrolar dos fatos

A briga pelo título italiano 97/98 foi basicamente travada por Internazionale e Juventus.

O Milan, definitivamente, estava enfraquecido e terminou a competição em 10º lugar, dando a Fabio Capello uma volta esquecível ao clube. Apenas a Udinese, respaldada pelos ótimos Oliver Bierhoff e Alberto Zaccheroni, técnico do time, conseguiu algum destaque positivo além dos dois líderes.

A briga pela artilharia, de certa forma, representa também o que foi o campeonato. Três nomes, um de cada clube, travaram uma disputa que até hoje é lembrada quando se fala naquela temporada. O alemão Oliver Bierhoff, com alta reputação após a Euro-96, foi o principal goleador, com 27 gols que lhe levariam ao Milan posteriormente. Ronaldinho, em início impactante, fez dois a menos, mas esteve sempre no calcanhar do germânico. Alessandro Del Piero, que não chega a ser um goleador por ofício, fez 21, se mantendo próximo aos dois matadores.

A Juventus, mesmo tendo ido até a final da Liga dos Campeões, onde perdeu por 1-0 para o Real Madrid (gol de Mijatovic), administrou bem a liderança caseira e levou o bi-campeonato. O bom momento dos clubes italianos pôde ser visto com a clássica final da Copa da Uefa, envolvendo Lazio e Internazionale. Naquela noite, no Parque dos Príncipes, em Paris, Ronaldinho só não fez chover, dando o título aos neroazzurri em sua primeira temporada na Itália.

A temporada italiana 97/98 foi uma das melhores da história. Clubes grandes jogando muito e dominando a cena européia – exceção feita ao Milan, a surpreendente Udinese e outros notáveis como Roma, Parma e Lazio, compuseram um cenário que só mesmo agora, dez anos depois, o futebol da Bota parece capaz de redesenhar.

Alguns clubes gastaram demais e se envolveram em escândalos, com tudo rodeado por direções ruins. Casos de Fiorentina, Parma, Roma e Lazio, que apenas agora – com exceção da ainda combalida situação no Ennio Tardini – voltam ao primeiro terço da tabela. Essa, acima de todas, é a principal lição que ficou após dez anos passados.

Espanha: Romário, Rivaldo e a Era Pré-Galácticos

As chegadas de Rivaldo e Romário, para Barcelona e Valencia, respectivamente, é que representavam maior oposição ao Real Madrid, iniciando 97/98 como o atual campeão espanhol e com mudança no banco de reservas: Capello voltava ao Milan, mas assumia o alemão Jupp Heynckes, credenciado por uma temporada elogiada no Tenerife – onde foi semifinalista da Copa Uefa e nono colocado na Liga Espanhola – e um bicampeonato alemão pelo Bayern.

O período, vindouro para o clube merengue, simboliza também a época anterior à filosofia de nomes Galácticos, não tão vencedora assim. Com Capello, Heynckes, Hiddink e Del Bosque, o Real Madrid foi novamente arrebatador, tendo vencido títulos que não conseguiu com jogadores estelares como Ronaldo e Beckham, especialmente.

Para manter o título espanhol, o Real Madrid não fez lá grandes esforços de contratações. A principal aquisição foi o jovem Fernando Morientes, que vinha de duas boas temporadas pelo Zaragoza. Karanka, que se tornaria um jogador de relativa importância, veio do Athletic Bilbao para compor o miolo de zaga. Panucci e Zé Roberto, de volta ao Brasil para jogar no Flamengo, foram baixas pouco sensíveis.

A equipe do Real, porém, era já excepcional. Karembeu, Seedorf, Redondo e Sávio compunham um meio-campo equilibrado, rápido e de muita técnica. A solidez de Hierro e Roberto Carlos – este no melhor momento da carreira – na defesa, além da presença de Raúl, Suker e Mijatovic, como atacantes, fechavam um cenário perfeito para os merengues.

A principal oposição ao Real Madrid, naturalmente, era o Barcelona. A dificuldade em encontrar um sucessor para Ronaldo – ou Ronaldinho na época – era evidente. Duas foram as alternativas do Barça: Sonny Anderson, que brilhava no futebol francês, e Dugarry, de passagem apagada pelo Milan. Rivaldo, então jogando como meia-atacante, também veio para a Catalunha, credenciado por uma temporada de estréia impactante com o Deportivo La Coruña, quando fez 21 gols.

Com eles, chegava também Louis van Gaal, de passagem que se tornaria emblemática no Camp Nou. Inicialmente, Hesp, Bogarde e Reiziger davam início a uma leva de nomes holandeses que viriam ao clube nas temporadas seguintes. O elenco blaugrana já tinha jogadores de muita capacidade, dentre os quais é possível destacar Figo, Luis Enrique, Guardiola, Stoichkov e o brasileiro Giovanni, ex-Santos.

– Brasil legal

O Valencia, mesmo após o fracasso com Viola, Leandro Machado (ex-Internacional) e Carlos Alberto Parreira anos antes, seguia apostando em brasileiros para se colocar como oposição na parte de cima da tabela. Para isso, buscou Romário e Marcelinho Carioca, mistura perigosa, explosiva e de pouco sucesso. Os Ches tinham Claudio Ranieri no comando.

O clube, porém, só encontraria de fato o sucesso com Héctor Cuper. Mesmo assim, se formava ali a espinha dorsal do time que seria vice-campeão europeu nas temporadas 2000/01, em que é possível lembrar de Mendieta, Gerard, Claudio López, Cañizares, Angloma, Angulo e Farinós.

Paralelamente, o Deportivo La Coruña cada vez mais emergia como clube médio, por vezes grande. As bem sucedidas trajetórias de Rivaldo e Bebeto, além das já solidificadas presenças de Flávio Conceição, Donato e Mauro Silva, fez os galegos pensarem novamente no tempero brasileiro para manter a estabilidade. Luizão e Djalminha saíram do Palmeiras, que naturalmente devia ter, àquele momento, boas relações com o clube espanhol, dada a quantidade de jogadores negociados.

Quando se fala em mercado de clubes espanhóis, naturalmente, deve se falar do Atlético de Madrid. Juninho Paulista, Vieri e Jordi Lardín foram três reforços de impacto, especialmente o atacante italiano, então campeão com a Juventus. O elenco dos colchoneros, porém, era limitado, irregular e mau-montado, o que pode se ver, não mudou muito nos últimos dez anos.

– Desenrolar dos fatos

Com os vários reforços e o Real Madrid mais atento ao cenário europeu, o Barcelona nadou a braçadas largas no Campeonato Espanhol. O holandês Van Gaal catapultou sua imagem de grande treinador, atingindo um status parecido, por exemplo, com o atual de José Mourinho, sendo considerado um sujeito moderno, inovador e com vocação para as taças.

Embora Sonny Anderson, e muito menos Dugarry, não tenham feito o que deles se esperava, Figo, Rivaldo e Luis Enrique, principalmente os dois últimos, fizeram uma temporada acima da média e que lhes colocava, inclusive, como astros em destaque para a Copa de 1998, disputada logo após a época em análise.

Sem força para duelar com o Barcelona, especialmente no momento em que se aprofundava a disputa na Liga dos Campeões, o Real Madrid obteve destaque pelo que fez no plano europeu. Raúl González jogava tanto que, o presidente meregue senteciou: “Se Raúl fosse Raulzinho já seria o melhor do mundo”, em alusão ao sucesso de Ronaldinho. A escalada européia do Real terminou com êxito diante da Juventus, em uma das melhores finais de Liga dos Campeões da década de 90.

Na cena espanhola, destaque ainda para as boas campanhas de médios como o Mallorca, a Real Sociedad e principalmente o Athletic Bilbao, vice-campeão. Aliás, ver a atual situação dos dois tradicionais clubes bascos, é algo sintomático se comparado com o que fizeram há dez anos atrás.

Sinais de que o futebol, como a vida em si, muitas vezes é moldado e destruído com o passar do tempo, sempre tido como o “senhor da razão”.

Agradecimentos: Davi Laranjeira

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Equipe Trivela

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